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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Pedro Ruivo parecia regenerado depois que se arranjara na fábrica. Trabalhava pontualmente e recolhia-se para dormir a hora certa. Morava com um companheiro num cortiço perto do campo de Santana. E nos primeiros tempos, tão enfronhado viveu no serviço, que Portela ignorava completamente a sua presença no Rio de Janeiro.

O velhaco, entretanto, meditava novos planos de ladroeira; queria angariar a simpatia e a confiança dos superiores, para fazer com mais certeza a sua pontaria, quando porventura se apresentasse uma boa ocasião.

Essa ocasião apareceu. O caixa da casa, aquele Gonçalves, viúvo de Olímpia, teve uma vez de demorar consigo uma quantia superior, vinte contos de réis. Pedro Ruivo não o perdeu mais de vista, e preparou-se.

Se fosse necessário, o caixa seria assassinado. Mas assim não sucedeu, porque o gatuno encontrou ensejo de achar-se a sós com o dinheiro. Entrou pelos fundos da casa e penetrou engenhosamente no gabinete do caixa, tendo para isso preparado de antemão os fechos de uma das janelas que davam para esse lado.

Uma. vez senhor do dinheiro, tratou de ganhar a rua e de encaminhar-se para o seu cortiço.

Mal porém teria feito alguns cinqüenta passos, quando um homem lhe saiu ao encontro e lhe arremessou uma formidável cabeçada contra o ventre. Era Talhacerto.

Pedro Ruivo perdeu o equilíbrio e caiu de costas.

O outro, trepando nele, lhe perguntou pelos documentos de Portela. O agredido, em vez de responder, soltou um grito e segurou com ambas as mãos o peito, como se quisesse defender alguma coisa que ai trouxesse escondida.

Talha-certo, conduzido por esse movimento espontâneo, imaginou que ali estivessem os papéis que procurava, e intimidou o Ruivo a que se deixasse revistar. O Ruivo resistiu.

Talha-certo chamou então o marinheiro em seu auxílio e, depois de vendarem a boca do Ruivo, dispuseram-se a revistar-lhe o peito. O Ruivo debatia-se furiosamente.

— Tratante! gritou-lhe Tubarão; dá-me por bem esses papéis, se não quiseres ficar aqui mesmo reduzido a postas!

Ruivo, em vez de responder, arrancou-se das mãos de Talha-certo e sacou do bolso uma navalha.

Talha-certo, porém, havia de um salto avançado para ele, e cortara-lhe a garganta com uma navalhada. O Ruivo rosnou por baixo da venda que tinha na boca e, depois de tentar em vão segurar-se nas pernas, caiu de borco sobre a calçada.

O assassino revistou-lhe o peito; mas, em vez dos documentos do comendador Portela, encontrou os contos de réis, que a sua vítima havia pouco antes roubado.

— Como vinha o ladrão carregado! disse o Talha-certo, sacudindo de alegria pela descoberta que acabava de fazer.

— E os documentos?... perguntou Tubarão.

— Não estão naturalmente com ele, mas temos aqui coisa melhor: Um dinheirão! O maroto havia feito hoje uma linda colheita!

— Então tudo isso é dinheiro? perguntou o Tubarão, admirado por sua vez.

— Em magníficas notas do tesouro! respondeu o Talha-certo.

— Então foi algum roubo... não te parece?...

— Sei cá; o que te afianço é que isto não nos fará peso nas algibeiras...

— Não sou dessa opinião! resmungou o seu cúmplice. Dinheiro roubado pesa sempre, quando menos na consciência!

— Ora! replicou o Talha-certo, depois de acabar a revista das algibeiras do Ruivo, e tratando de afastar-se com o dinheiro para longe. Quem rouba a ladrão tem cem anos de perdão!

— Estás enganado! gritou-lhe o outro. Quem rouba a ladrão, fica ladrão como ele! Esse dinheiro será entregue ao dono, quer queiras, quer não queiras!

— Essa agora tinha graça!... considerou o outro. Era melhor que fôssemos nós daqui direitinhos entregar-nos à polícia.

— Podemos fazê-lo chegar às mãos do dono, sem que se saiba donde ele procede...

— Nesse caso, restituirás tu a tua parte. Vamos dividi-lo; cada um dará o destino que quiser àquilo que lhe tocar.

— Não! contradisse o Tubarão. Havemos de entregá-lo todo ao dono!

— Isso agora já passa à birra, replicou Talha-certo, impacientando-se. Que você faça fúrias com o que é seu, vá lá, mas com o que é dos outros!...

— Aqui não há meu, nem teu! nós não temos direito a ficar com aquilo que não ganhamos, nem tampouco nos deram!

— Mas que achamos! replicou ainda Talha-certo. Em todo o caso, vamos a casa dividir o cobre, e você da sua parte fará o que quiser... A minha pertence-me!

— Não! Tu me vais passar todo o dinheiro. Eu me encarregarei de restitui-lo ao dono.

— Ora veja se tenho algum T na testa!

— Eu é que te afianço que o dinheiro se há de restituir! Vamos! em teu poder não ficará ele!

Talha-certo, vendo que não conseguiria nada pela arrogância, resolveu comover o companheiro.

— Então, que é isso, Tubarão?... Que mania de escrúpulo é essa de tua parte com um velhaco daquela ordem? Olha! quem o mau poupa nas mãos lhe morre...

(continua...)

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