Por Aluísio Azevedo (1884)
Mas era bastante chegá-lo contra a boca ou contra um dos ouvidos, para que os seus dedos logo se paralisassem e para que um arrepio muito agudo lhe corresse pela espinha dorsal.
Faltava-lhe a coragem.
Duas vezes ergueu-o à altura da cabeça, duas vezes o desviou, com as mãos trêmulas e o corpo entalado numa agonia insuportável.
— É horrível! Resmungava ele. — É horrível!
Ia principiar de novo as tentativas, quando da rua uma forte matinada lhe prendeu a atenção. Um grupo se aproximava, entre cantarolas e algazarras de risos. Eram dez ou doze dos últimos convivas de Amâncio; haviam passado todo o dia e grande parte da noite a folgazar no Paris; muitos, como o autor da pândega, lá ficaram prostrados pela bebida, mas aqueles tiveram a fantasia de um passeio matinal ao Jardim Botânico e meteram-se barulhosamente no bonde.
Já no Largo do Machado, um deles, um, que de há muito trazia o Coqueiro atravessado na garganta, lembrou que seria mais divertido apearem-se ali e seguirem a Rua das Laranjeira. “A casa do velhaco era a alguns passos – bem lhe podiam cantar uma serenata debaixo das janelas!”
A idéia foi bem acolhida, e a ruidosa farândola despejou-se pelo caminho das Laranjeiras numa hilaridade pletórica de bêbados.
Só pararam defronte da porta de João Coqueiro. Através das vidraças e das cortinas de uma das janelas, viram transparecer dubiamente a trêmula morte — cor de uma luz avermelhada.
— Estás dormindo, ó Joãozinho dos camarões?! Berrou cambaleando o que tivera a idéia daquela romaria. — Dorme, dorme! É assim que fazem os sem — vergonhas de tua espécie! — vendem a irmã e põem-se a descansar no colchão que lhe deixou o amante!
Seguiu-se um estrupido de gritos e risos:
— Fora! Fora!
— Fiau, fiau!
— Larga essa casa que não é tua, gritou aquele. — É da outra! Ganhou-a com o suor de seu rosto! — Sai, parasita! — Sai! Sai!
E espocavam gargalhadas no grupo, e os guinchos sibilantes iam até o fim da rua :
— Fora!
— Fora! — Fiau
— Sai, cão!
— Deixa a casa, que não é tua! — Fora!
— Fora o cáften! — Fiau!
Os vizinhos chegavam às janelas, vozeando furiosos contra semelhante berraria.
— É o que sucede a quem mora perto de um João Coqueiro! Bradou um da turma.
— Quem mora junto ao chiqueiro sente o fedor da lama! Gritou um segundo. — Queixe-se à Câmara Municipal! Acudiu outro.
E formidável matacão foi de encontro à vidraça iluminada do chalé de Amélia.
Um dos vizinhos apitou e outro despediu um jarro de água sobre os desordeiros
Ouvi-se logo o estardalhaço impetuoso dos gritos, das descomposturas e do crepitar dos vidros que se partiam sob um chuveiro de pedras.
— Morra!
— Morra o infame! bramia a malta, já de carreira para o Largo do Machado.— Morra o cáften!
* * *
João Coqueiro presenciara tudo aquilo, grudado a um canto da janela, mordendo os nós da mão, os olhos injetados, o sangue a saltar-lhe nas veias.
— Oh! Era demais, pensava ele desesperado. — Era demais tanta injúria! — Se Amâncio estivesse ali, naquela ocasião, por Deus que o estrangulava!
Abriu a janela. O dia repontava já, mas enevoado e triste. Não havia azul; céu e horizontes formavam uma só pasta cor de pérola, onde vultos cinzentos se esfumavam.
O homem da venda abria também as sus portas. Coqueiro cumprimentou-o, ele respondeu com um risinho insolente, acompanhado de pigarro.
Uma caleça rodejava lentamente ao largo da rua, o cocheiro vergado sobre as rédeas, o seu casquete sumido na gola do capotão. Coqueiro fez-lhe sinal que esperasse, embrulhou-se no sobretudo, enterrou o chapéu na cabeça, meteu o revólver no bolso e saiu.
— Hotel Paris! Disse ao da boléia, atirando-se no fundo da carruagem. O cocheiro endireitou-se sobre a almofada, espichou o pescoço, sacudiu as rédeas e os animais dispararam, assoprando grossamente contra o ar frio da manhã.
* * *
Coqueiro enfiou pela escadaria do hotel.
Estava tudo deserto e silencioso; apenas, no salão principal, viam-se um preto velho e um caixeiro desdormido que, entre bocejos, se dispunha a principiar a limpeza da casa.
Dir-se-ia que ali passara um exército de bêbados. Por toda a parte vinho derramado, copos partidos, cacos de garrafa e destroços do vasilhame que servira à mesa; o oleado do chão escorregava com uma crusta gordurosa de restos de comida e vômito pezinhado; um espelho ficara em fanicos e um aquário desabara, fazendo-se pedaços e alagando o pavimento, onde peixinhos dourados e vermelhos jaziam, uns mortos e outros ainda estrebuchando.
O preto, de gatinhas, em manga de camisa e calças arregambiadas, procurava desencardir o sobrado com um esfregão de coco, que ia embeber ao canto da sala numa tina cheia d’ água; enquanto o caixeiro, a jogar o corpo, muito esbodegado, erguia o que estava pelo chão e empilhava as cadeiras sobre as mesinhas de mármore, ao comprido das paredes.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.