Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

À noite, foi preciso acender velas em substituição do gás suprimido. Amélia não comera desde a véspera e queixava-se agora de muitas dores de cabeça, náuseas, tonturas de febre e um fastio mortal; apareciam-lhe por todo o corpo0 pequenas manchas roxas. Mme. Brizard só abria a boca para fazer novas recriminações e praguejar; na sua cólera chegara alguns tabefes ao filho, e este rabujava a um canto, embesourado e casmurro.

— Antes morresse! Antes, mil vezes antes! Repisava o Coqueiro, sentindo-se esmagar debaixo daquele desmoronamento. —Que faria agora de uma irmã prostituída, e de uma mulher desesperada?!...

E as horas arrastavam-se pesadas como cadeias de ferro. A casa mal esclarecida tinha uma tristeza lúgubre de igreja deserta.

Afinal, Mme. Brizard foi para a cama com o filho, Amélia parecia mais tranqüila; só o Coqueiro velava, só ele, com o seu desespero a triturá-lo por dentro. Não podia sossegar um minuto — era deixar-se ir consumindo pelo sofrimento, até que a dor cansasse de doer e os tais bichos negros do coração lhe comessem o último bocado de carniça. Sentia, porém, uma espécie de volúpia pungente em reler as cartas anônimas que lhe enviaram durante o dia; encolerizava-se com isso, mas não podia deixar de as ler, como quem não resiste a tocar numa parte dorida do corpo.

Três, nada menos do que três cartas anônimas, e cada qual a mais insultuosa e mais perversa; não lhe poupavam coisa alguma: — a vergonha real da situação, o ridículo que havia de o acompanhar para sempre, a ojeriza que o público lhe votava espontaneamente; tudo lá estava; tudo vinha descrito com uma minuciosidade cruel, e com pequeninas considerações ultrajantes, com o terrível cuidado de quem se vinga.

E, para o efeito ser mis completo, falavam intencionalmente, com entusiasmo, nas conquistas e nas simpatias do outro, do querido, do “feliz”! Não se esqueciam da menor circunstância lisonjeira para Amâncio: — o modo pelo qual o receberam ao sair da prisão — os vivas, – as flores desfolhadas sobre ele, – os oferecimentos, — as declarações de amor, — os ramilhetes que lhe deram, — os brindes; tudo, tudo fora metido ali, para ferir, para danar, para moer.

Reconheceu logo quer uma das cartas era de Lúcia; as outras deviam ser de seus próprios colegas ou, quem sabe?...de algum velho inimigo já esquecido por ele! —Tanta gente saíra despeitada da sua casa de pensão!...Ser credor é ser algoz!...exigir pagamento de uma conta a quem não tem dinheiro é exigir a sua inimizade eterna! Além disso, com os seu modos secos e retraídos, ele sempre fora tão pouco estimado na academia!...não tinha, como o “prosa” do Amâncio, gênio para agradar a todo o mundo; não tinha as lábias do outro: não sabia fazer” discursatas e falações” a propósito de tudo!...Era um infeliz, que todos evitavam — um leproso! um lazeiro!

E a dor, sem se resolver nas lágrimas que lhe faltavam, encaroçava-se-lhe por dentro, numa grande aflição.

— Agora, como se apresentar nas aulas?!...Com que cara suportar o riso sarcástico dos colegas?!...Como resistir à curiosidade brutal do público que o esperava impaciente por cuspir-lhe no rosto?!...Como passar debaixo daquelas mesmas janelas que despejaram flores à cabeça de Amâncio?!...— Amâncio! o homem que dormiu com sua irmã!...

E, maquinalmente foi à secretária e tirou o velho revólver que fora do pai.

Que estranhas recordações à vista daquela arma! Daquela arma que na sua infância o fizera chorar tantas e tantas vezes!...Belos tempos que não voltam!...

E contemplava distraído os bonitos do revólver — os arabescos de prata e madrepérolas com o brasão do velho Lourenço Coqueiro em ouro.

Rica peça! Artística, bem trabalhada; não se lhe enxergava sinal de ferrugem, nem desarranjo nas molas. — Também, que havia nisso para admirar se o dono tinha por ela uma espécie de fetichismo e andava sempre a bruni-la e a azeitá-la! Q Era o único objeto que lhe falava ainda das extintas grandezas do pai: Quantas vezes ele não ouvira o pobre velho cavaquear sobre as alegorias daquele rico brasão!...E quantas vezes, a tremer de medo, não o vira descarregar aquela mesma arma contra uma laranja que um escravo segurava com a mão erguida!

— Ah! bem que se recordava de tudo isso!...Parecia-lhe ouvir ainda gritar o pai, quando lhe metia à força o revólver entre os dedos. “Não! Isso agora hás de ter paciência! Tu, ao menos, ficarás sabendo dar um tiro!”.

E todavia, não fiquei sabendo...balbuciou o filho de Lourenço, a experimentar nos lábios o contacto frio do cano de aço. — Não fiquei sabendo dar um tiro, que, se o soubesse, acabaria aqui mesmo com esta vida estúpida e miserável!...

Se eu tivesse ânimo...pensou ele, estremecido com a idéia da morte — amanhã encontravam o meu cadáveres e não ficariam naturalmente fazendo de mim um juízo tão triste e tão ridículo! — Talvez até chegassem a amaldiçoar o outro e erguessem em volta de meu nome uma legenda respeitosa e compassiva...

Foi à gaveta, havia lá algumas balas, carregou a arma.

— Não há dúvida, é a melhor coisa que eu poderias fazer...reconsiderava Coqueiro, imóvel, a olhar indeciso para o revólver que tinha na mão.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...112113114115116...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →