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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

E já no dia seguinte principiou ele a formar o seu plano de batalha. Fez-lhe uma visita, mas a viúva, muito ao contrário do que esperava o assaltante, recebeu-o friamente e não insistiu para que se demorasse.

Foi a primeira esporada. Gregório saltou. Depois da faísca, a explosão seria fatal.

Principiou a persegui-la por toda a parte, a escrever-lhe cartas apaixonadas, a pedir-lhe ternura por amor de Deus.

Nesse tempo morava ele em Santa Teresa.

Uma noite, mal havia chegado à casa, quando sentiu parar à porta uma carruagem e logo em seguida alguém que subia apressadamente a escada.

Era Olímpia. Gregório a reconheceu imediatamente e fê-la entrar.

Vinha ofegante, pálida de raiva, com a fisionomia endurecida por qualquer grande contrariedade.

Era a primeira vez que se animava a tanto; nunca havia penetrado em casa de um rapaz. De sorte que, logo depois dos primeiros passos, toda a energia que ela trazia engatilhada para fulminar o pérfido amante, rebentou em soluços. Gregório correu a socorrê-la; foi repelido com um murro.

— Deixa-me! exclamou ela. E tirou da algibeira uma das ultimas cartas dirigidas por ele à viúva.

— Você é um infame!

Gregório estava perplexo e achava tudo aquilo muito estranho. Havia já seis meses que ele se não entendia com Olímpia. Ela, da última vez em que estiveram juntos, tratara-o mal... Que diabo queria então tudo aquilo dizer??... Porventura era ele casado para ter de dar contas dos seus atos!? Se escrevia cartas era porque assim o entendia! Ora essa!

Olímpia não teve uma palavra para lhe opor. Gregório nunca a tratara daquele modo. Até aí sempre lhe dispensara delicadeza e consideração.

— A senhora é que fez muito mal em vir cá! disse ele, passeando agitado pelo quarto. Não sei o que a autoriza a supor que ainda existe alguma coisa entre nós dois!

— Têm razão! respondeu Olímpia, afastando-se, na esperança de que ele a chamasse.

Mas Gregório contentou-se em fazer um gesto de despedida.

Ela, assim que se convenceu de que o amante não a ia buscar, voltou sorrindo humildemente.

Já não chorava, nem parecia contrariada.

Quando chegou junto de Gregório, atirou-se-lhe nos braços e principiou a soluçar com a cabeça pousada no colo do rapaz.

Ele, comovido, beijou-a na face.

As pazes estavam feitas.

CAPÍTULO XXX

ULTIMO CAPITULO

Eis aí como decorreu a inútil mocidade de Gregório até aos vinte e dois anos. Mais um passo e chegaremos ao ponto em que principia este pobre romance e onde justamente há de ele acabar; quer dizer, refluiremos à cena do malogrado casamento de Clorinda.

Durante esse rápido ano, que liga o primeiro capítulo ao último, sucederamse poucos mas palpitantes acontecimentos, que justificam muitas outras cenas.

Nesse pequeno espaço de tempo, Olímpia sofreu, por amor de Gregório, todos os martírios que nos podem influir nos ciúmes. Quanto mais ele se esquivava, tanto mais atraída ela se sentia.

Olímpia estava na idade em que o amor toma o caráter de moléstia; na idade em que a mulher é capaz de todas as loucuras pelo objeto amado; em que ela é capaz de todos os sacrifícios, de todas as abnegações, menos a de consentir que o herói dos seus sonhos a despreze por outra. E foi isso justamente o que fez Gregório, desde aquela cena absurda de cócegas no pitoresco chalezinho de Júlia Guterres.

Como já sabe o leitor, a viúva, logo que perdeu o marido, tratou de recolher os bens que lhe ficaram, e retirou-se para a Tijuca, onde nós e a polícia, a encontramos, quando se tratava de descobrir esclarecimentos a respeito de Gregório; da mesma forma, não ignora o leitor qual foi a direção que tomaram os novos amores do inconstante rapaz, e como chegou ele a armar casamento com Clorinda.

Pois bem; tratemos de esclarecer o que falta e apressemos o passo, para chegarmos, quanto antes, aos resultados das cenas dos primeiros capítulos.

Olímpia não pôde disfarçar por muito tempo o seu martírio, e a dor dos ciúmes transformou-se para ela em cruel enfermidade, acelerando o embranquecer do cabelo, o enrugar da tez e o desbotamento das faces. Quando o Dr. Roberto voltou do norte, o que proporcionou a Gregório o seu primeiro encontro com a bela Clorinda, quase que não a reconheceu e declarou que muito pouco lhe daria de vida.

Gregório correu então para junto dela, mas a sua presença não conseguiu espantar a morte, que estendia já sobre a infeliz a sombra negra de suas asas.

Ele, por sua parte, não levava o coração ainda cativo dos amores da viúva, mas já suavemente impregnado pela nova afeição que lhe inspirara a filha de Leão Vermelho.

(continua...)

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