Por Aluísio Azevedo (1884)
Entretanto, a essas horas, Coqueiro se dirigia tristemente para casa. As mão cruzadas atrás, a cabeça baixa, as sobrancelhas franzidas, com o ar trágico de um herói vencido.
Vira e ouvira tudo!
Oculto num botequim, vira passar o bando fogoso dos colegas que festejavam o amante de sua irmã; ouvira os “morra ao locandeiro! Ao pirata!” ouvira as galhofas, os risos de escárnio, que lhe atiravam como a um inimigo de guerra. E uma raiva negra, um desespero surdo e profundo entraram-lhe no corpo, que nem um bando de corvos, para lhe comer a carniça do coração. Um duro desgosto pela vida o levava a pensar na morte, revoltado contar o mundo, contra a sociedade, contra sua família, contra a hora em que nascera.
— Maldito fosse tudo isso! Malditos seus pais! Sua pátria! Sua convicções! Malditas as leis todas que regiam aquela miserável existência!
Chegou lívido, sombrio, com os lábios a tremer na sua comoção mortífera.
Um silencio fúnebre enchia a casa; dir-se-ia que acabava de sair dali um enterro. Amélia chorava fechada no quarto e Mme. Brizard, estendida na preguiçosa, tinha a cabeça entre as mãos e meditava soturnamente. Sobre a mesa o almoço há que horas esfriava, esquecido e às moscas.
É que já sabiam do terrível desfecho do júri: — Amâncio estava livre, senhor de si por uma vez! Podendo ir para a província quando bem quisesse, porque, além de tudo, nem o dinheiro lhe faltava!...
— E eles que ali ficassem, a roer um chifre! - sem recursos, e obrigados a ocupar aquela casa, que era o preço de sua desonra comum.
— Mas, o culpado foste tu e só tu! Berrou de supetão Mme. Brizard, erguendo-se da cadeira com um movimento de cólera. — Se me tivesses ouvido, não ficarias agora com essa cara de asno. “Que tudo quer, tudo perde!” Foi bem feito! Foi muito bem feito, para que, de hoje em diante, prestes mais atenção ao que te digo! — Agora- pega-lhe com trapos quentes!
O marido deixou cair a cabeça sobre o peito e quedou-se a fitar o chão. Mme. Brizard, depois de voltear agitada pela sala acrescentou:
— Se fosses o único a sofrer as conseqüências de tuas cabeçadas, vá! Mas é que nós todos temos de as agüentar! agora só quero ver como te arranjas! Onde vais tu descobrir dinheiro para sustentar a casa! É preciso ser muito cavalo, para ter a fortuna nas mãos e atirá-la pela janela fora! Agora é que eu quero ver! Anda! Vai arranjar hóspedes! Vê se descobres um novo Amâncio! ou quem sabe se contas viver do que der o cortiço da Rua do Resende?! Fizeste-a bonita; os outros que amarguem!..
Calou-se por um instante, arquejando, mas repinchou logo:
— Olha! Por estes três meses já podes avaliar o que não será o resto! — Não há mais um punhado de farinha em casa; a companhia já ontem nos cortou o gás, porque não lhe pagamos o trimestre vencido; o último criado que nos restava foi-se há mais de quatro semanas, dizendo aí o diabo; só nos fresta a mucamas, que é aquele estafermo que sabemos; o Eiras reclama todos os dias o tratamento de Nini! — E tu!...tu! — sem um emprego, sem um rendimento, sem nada! — Então?! (E pôs as mãos nas cadeiras, com um riso abominável de ironia). Então?! Estamos ou não estamos arranjadinhos?!...O que te afianço é que não me sinto nada disposta a tornar a inferno da existência que curti na Rua do Resende! Vê lá como te arranjas!
Coqueiro fugiu para o quarto, sem responder à mulher. “Tinha medo de fazer um despropósito!
— “Que miséria de vida, a sua! Refletia ele. — Nem ao menos a própria família o consolava! Por toda a parte a mesma perseguição, o mesmo ódio, a mesma luta! — Que seria de si?! Que fim poderia ter tudo aquilo?! Onde iria cavar dinheiro para manter os seus?! — E as custas do processo, e as despesas que fizera?! — O alferes e o homem da venda exigiam o pagamento do que depuseram contra Amâncio, a quem mal conheciam de vista; aquele o ameaçava com um escândalo, se Coqueiro não lhe “cuspisse pr’ali os cobres “, o outro o abocanhava pela vizinhança, fazendo acreditar que o devedor era, nem só um caloteiro, como um bêbado!
E não havia dinheiro para nenhuma dessas coisas!
— Um inferno! Um verdadeiro inferno! — Os moradores da Rua do Resende há que tempos que não pingavam vintém; — O Damião estava já pelos cabelos para arriar a carga: “Não podia mais aturar semelhante corja!” dizia e contava até que um dos inquilinos lhe tentara chegar a roupa ao pêlo por questões de aluguéis.
E o Coqueiro viu arrastar-se todo aquele mau dia na mesma inferneira.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.