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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Gregório desfazia-se em finezas com Júlia Guterres, que lhe ficara ao lado direito, mas impacientava-se por sair daquele forno.

Principiaram a comer. Não havia método no jantar; algumas pessoas iam logo se servindo dos assados antes de tudo; outras tomavam à sopa os vinhos da sobremesa. Mas todos os copos se esvaziavam alegremente. Foi preciso fechar as janelas porque começavam a cair as primeiras gotas do aguaceiro, que lá fora trovejava já sobre as montanhas.

Redobrou então o calor. Um sujeito gordo erguera-se, pedindo que o acompanhassem em um brinde a uma pessoa, que se achava presente, muito distinta e digna de todas as considerações.

Fez-se logo um respeitoso silêncio, e o orador declarou que se referia a D. Luzia Pereira. Seguiu-se uma enfiada de elogios, e os hurras rebentaram de todos os lados.

Desde então os brindes apareciam sem intervalo. Os comensais erguiam-se a dar vivas, e estendiam o braços, oferecendo os copos aos vizinhos, para tocar.

Ainda não estava terminado o jantar, quando Gregório pediu licença e se retirou ofegante para a sala de visitas.

A chuva percutia com força nas vidraças e no telhado. O rapaz assentou-se no canapé e ficou a olhar para as fotografias suspensas da parede.

Lá estava o João Caetano, o Martinho, o Costa, e outros contemporâneos. Por um álbum, que Gregório se pôs a folhear, via-se que era enorme a família da Luzia Pereira. Algumas filhas e netos estavam presentes à festa.

Terminada a primeira mesa, assentaram-se os que ainda não haviam jantado, e a sala, onde estava Gregório, encheu-se logo de pessoas a palitarem os dentes.

Em uma alcova contígua, dez rapazes preparavam estantes de músicas e acendiam velas. Pouco depois, cada um desses dez tocavam o seu instrumento de sopro, e um grande barulho metálico, ensurdecedor, encheu totalmente a sala, impedindo qualquer conversa.

Era uma polca, composta por um dos músicos e oferecida ao pequeno que se batizara naquele dia.

Gregório foi obrigado a dançar, escolheu Júlia Guterres. Ela deixara-se conduzir com certo desprendimento gracioso. Era louca pela dança.

Quando acabou a música, houve uma carga de vivas ao autor, vivas ao batizado, vivas à dona casa. Abriram-se garrafas de cerveja nacional, e os copos espalharam-se por todos os convidados.

Gregório sentia-se ir agitando pouco a pouco: tudo aquilo começava a perturbá-lo; a música, o ar quente, os perfumes de Júlia, produziam-lhe vertigens e chamavam-lhe o sangue à cabeça. O padre Beleza não tinha um momento de descanso, ria, saltava, gritava fazendo troças, pregando caçoadas às velhas, abraçando as mulheres, pisando de propósito os homens e rebolando na dança.

Todos lhe achavam graça.

Entretanto Júlia, depois que dançou a segunda vez com Gregório, lhe pediu que não reparasse naquela desordem: as festas em casa da tia eram sempre assim... Não havia meio de obter certa seriedade! Ela ia ali, porque a tia era o único parente a que estimava deveras no mundo, mas fazia com isso um verdadeiro sacrifício; aquilo era uma gente levada do diabo! Em seguida começaram a falar a respeito de Olímpia, a principio por meias palavras, depois abertamente. A viúva sabia muita coisa que lhe contara a vizinha.

— Gregório não havia procedido bem...

— A culpa foi só ela, justificou-se o rapaz; Olímpia se quisesse teria feito de mim um escravo! Eu não pensava em mais nada que não fosse nela...

— E ainda hoje, observou a outra, pelo entusiasmo com que diz isso, percebe-se que...

— Qual! respondeu ele, sacudindo os ombros. Está tudo acabado!

— Ela, porém, ainda o estima muito!...

— Não sei! É verdade que a mulher só ama quando o homem amado a despreza...

— Isso são histórias! contradisse Júlia. O senhor, se não gosta mais dela, é porque gosta de outra!...

— Juro-lhe que não! afirmou vivamente Gregório, lançando sobre a viúva um olhar que era já um programa.

Ela havia compreendido perfeitamente o efeito que produzia no rapaz, e não procurou destruí-lo. As mulheres têm sempre um gostinho muito particular em possuir um homem amado pelas outras.

Quando, às seis horas da manhã, dissolvia-se a festa, e cada um procurava às tontas o seu chapéu e a sua bengala, Júlia e Gregório invadiram um pequeno quarto que ficava ao lado da varanda e, na febre de achar os chapéus, seguraram duas vezes por engano as mãos um do outro e, por estar o quarto ainda escuro, cremos que os seus lábios também se esbarraram.

Gregório saiu palpitante de esperanças.

O diabo era a vizinhança de Olímpia e o fato de freqüentar esta a casa da viúva. Oh! mas tudo se haveria de arranjar. Gregório estava muito satisfeito com a sua nova conquista: notava em Júlia certa graça desdenhosa e satânica, um modo petulante de dizer liberdades, uma sem-cerimônia peculiar às atrizes, uma espécie de encantadora malignidade, que a filha do comendador nunca possuíra.

(continua...)

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