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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

E, no conflito da luz fresca, que entrava pelas janelas do edifício, com a luz vermelha do gás que amortecia, as palavras retumbantes do orador tomavam uma expressão de trágica solenidade. E os rostos lívidos e tresnoitados iam se esbatendo nas sombras da sala, como pálidas manchas brancas que se dissolvem.

Ninguém saíra antes de terminar a defesa; um empenho nervoso os prendia ali; as palavras do advogado eram aplaudidas com febre; — todos queriam a absolvição de Amâncio.

Às nove horas da manhã a cidade parecia ter enlouquecido. Interrompeu-se o trabalho; os empregados públicos demoravam-se na rua; os cafés enchiam-se com a gente que vinhas do júri. À porta das redações dos jornais não se podia passar com o povo que se aglomerava para ler as derradeiras notícias do processo, pregadas na parede à última hora.

Por toda a parte discutia-se a brilhante defesa de Amâncio de Vasconcelos: “Estivera magnífica! — Surpreendente! — Uma verdadeira obra- prima! Uma glória para o advogado Fulano! “Repetiam-se frases inteiras do imenso discurso; faziamse comparações “Maître Lachaud não e sairia melhor!”

A Rua dos Ourives estava quase intransitável com a multidão que se precipitava freneticamente para ver sair o absolvido. Á porta do júri, o tal grupo de estudantes capitaneado pelo Paiva, esperava-0 formando alas ruidosas. Tudo era impaciência e sofreguidão.

Afinal, apareceu o homem. Vinha muito pálido e um pouco mais magro. Ouviu-se então um rugido formidável que se prolongava por toda a rua. Os chapéus agitaram-se no ar.

— Viva Amâncio de Vasconcelos!

— Vivô! repetiram os colegas. — Morram os locandeiros — Morram os piratas!

Amâncio passava de braço a braço, afagado. Beijado, querido, como uma mulher formosa.

Mas o Paiva e Simões apoderaram-se dele, e, seguidos pelo enorme grupo de estudantes, puseram-se a caminho para o hotel, entre as contínuas exclamações de entusiasmo, que rompiam de todos os pontos.

Entraram na Rua do Ouvidor. {Por onde passava o bando alegre dos rapazes, um rumor ardente, ancho de vida, enchia a rua num delírio de vozes confundidas.

As portas das casa comerciais atulhavam-se de gente; pelas janelas os dentistas, das costureiras e dos hotéis, surgiam com o mesmo alvoroço, cabeças femininas de todas as graduações: - senhoras que andavam em compras, raparigas que estavam no trabalho, professoras de piano, atrizes, cocotes; e, em todas igual sorriso de pasmo, olhares incendiados, bocas entreabertas a balbuciar o nome de Amâncio. Baraços de carne branca apontavam para ele num tilintar nervoso de braceletes.

— É aquele! Diziam. - Aquele moreno, de cabelo crespo, que ali vai!

— Mamãe! mamãe! Gritavam doutro lado, — venha ver o moço rico que saiu hoje da prisão!

E flores desfolhadas choviam-lhe sobre a cabeça, e os lenços de renda borboleteavam e iam cair-lhe aos pés, como uma provocação, e olhares de amor entornavam-se das janelas entre o ruidoso e pitoresco catassol das mulheres em grupo.

E Amâncio, tonto de prazer, caminhava no meio dos amigos, abraçado a um grande ramo de flores naturais, que um preto lhe acabava de entregar e em cuja larga fita pendente via-se o nome dele em letras de ouro. Era uma lembrança de Hortênsia.

E o bando crescia sempre. O Largo de São Francisco já estava cheio e ainda a Rua do Ouvidor não se tinha esvaziado.

Ao passar pela Escola Politécnica, ouviram-se estalar foguetes e os vivas a Amâncio e à Liberdade reproduziram-se com mais veemência. Os músicos alemães responderam da porta do hotel com a Marselhesa. — A vertigem chegou então ao seu cúmulo, inflamada pela vibração corajosa dos instrumentos de metal. A Rua do Teatro, o Rocio e todos os becos e travessas circunvizinhas já se achavam tolhidas de povo; as janelas do Hotel Paris destacavam-se embandeiradas e cheias de gente, como nos dias de carnaval.

E aquela festa, ali, no coração da cidade, tomava um largo caráter de manifestação pública.

Já ninguém se entendia com o estardalhaço das vozes, da música e dos foguetes. Amâncio, carregado em triunfo nos ombros dos colegas, entrou no hotel ao som do grande hino, chorando de emoção e agitando freneticamente o seu velho chapéu de feltro, desabado e boêmio.

Francesas de cabelo amarelo desciam com espalhafato ao primeiro andar do Paris , para ver de perto o “tipo da ordem do dia”, o belo moço de que todo o Rio de Janeiro se ocupava naquele momento, — o herói daquele romance de amor que havia meses apressava tantos espíritos e sobressaltava tantos corações.

Ele, que até ali parecia sufocado e não dera palavra, como que despertou às primeiras notas da Marselhesa recobrou de súbito a sua equatorial verbosidade de brasileiro nortista; acenderam-se-lhe repentinamente as faces; os olhos luziram-lhe como duas jóias, e a sua voz era já segura e vibrante quando ao teto voaram as primeiras rolhas de champanha.

E, de pé, dominando a extensas mesa coberta de iguarias, — a taça erguida ao alto, o corpo torcido em uma posição teatral, desencadeou o seu verbo apaixonado e brilhante.

* * *

(continua...)

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