Por Aluísio Azevedo (1884)
E o contraste da sofredora condição em que o vias presentemente com as atitudes brilhantes que ele outrora estadeara naquela própria casa, quando, de taça em punho, espargia a sua bela palavra quente e sonora, prendendo a atenção de velhos e moços, dominando, conquistando, — esse contraste ainda mais a arrebatava para ele com toda a violência de uma alucinação.
Não mais se possuiu, — um desgosto mofino apoderou-se dela; ficou insociável e muito triste; entregou-se a longas leituras místicas, acompanhando com interesse amores infelizes, lentos martírios da alma, que só terminavam no esquecimento da morte ou do claustro. Decorou entre lágrimas a carta do réu.
— Como ele me amava! Dizia soluçando, — como ele sofrias, quando arrancou do coração estas palavras , ainda quentes do seu sangue!
De sorte que, ao lhe comunicar o marido a resolução de escrever a Amâncio, remetendo-lhe a terrível carta denunciador prevenindo-o de que lhe retirava a sua amizade, ela, com uma agonia a sufocá-la, resolveu também escrever ao moço uma carta que servisse, ao menos, para suavizar o golpe da outra.
* * *
O estudante, no dia seguinte, recebia na prisão as duas cartas.
Não se pode determinar qual delas o surpreendeu mais; notando-se, porém, que a do Campos produziu completo o efeito a que se propunha; ao passo que a outra, em vez de o consolar, enraiveceu-o
— Pois aquela mulher ainda não estava satisfeita e queria insistir nas provocações?...Ela talvez fosse a culpada única de tudo que de mau lhe acontecera! — As coisas não tomariam decerto o mesmo caminho, se a maldita não lhe fizesse as negaças que fez e não lhe acordasse desejos que se não podiam saciar! — E agora?...além de perder a amizade do Campos, justamente quando mais precisava dela, havia de suportar a prosa lírica da Sra. D.Hortênsia!...”Que estava arrependida, que o adorava, que seria capaz de tudo por lhe dar um momento de ventura e que o esperava de braços abertos, logo eu ele se achasse em liberdade.”
Fosse para o inferno com as suas adorações! Diabo da pamonha! “Que o esperava de braços abertos!” Era quanto podia ser! Aquilo até lhe cheirava a debique! Aquilo parecia um insulto à sua desgarra, à sua terrível posição!
E chorava, o infeliz chorava como se quisesse vingar nas lágrimas.
Depois da carta de Hortênsia, a vida se lhe fazia mais escura e mais apertada entre as paredes da sua prisão. Quase que já não podia agüentar a presença do Paiva, do Simões e de alguns outros colegas que lá iam. No meio das sombras, progressivamente acentuadas em torno dele, só a imagem tranqüila e doce de sua mãe permanecia com a mesma consoladora suavidade; sempre aquela mesma carinhosa figura de cabelos brancos. Aquele corpo fraco, vergado e tão mesquinho que parecia pequeno demais para sustentar tamanho amor.
— Minha mãe! Minha santa mãe! Exclamava o preso, quando seu espírito, esfalfado pelas desilusões, precisava remansear ao abrigo morno e quieto de um bom pensamento.
— Minha santa mãe!
CAPÍTULO XXI
Três meses depois, a Escola Politécnica e a Escola de Medicina apresentavam o quente aspecto de uma sedição. — Amâncio fora absolvido.
Os estudantes formigavam assanhados como se acabassem de ganhar uma vitória. O nome do nortista era repetido com transporte; um grupo enorme de rapazes, capitaneado pelo Paiva Rocha e pelo Simões, aguardava o colega à saída do júri, para o conduzir em triunfo ao Hotel Paris, onde havia à sua espera um almoço e a banda de músicos alemães.
Fora muito extenso o último júri, quarenta horas seguidas; a defesa de
Amâncio principiou à meia – noite e acabou às seis da manhã. O advogado, que “estava feliz como nunca”, ainda aproveitou engenhosamente essa circunstância para afestoar o remate de seu pomposo discurso ; ”Não queria que o rei dos astros se envergonhasse com aquele nojento espetáculo de pequenas misérias! Não queria que o sol tivesse de corar defronte de semelhante tolina! Pedia que se varressem de pronto as consciências; que se descarregassem os espíritos, para que limpamente recebessem a esplêndida visita da aurora! — Aí chegava o dia! Aí chegava a luz, enxotando os fantasmas tenebrosos da noite e precipitando-os em debandada pelo espaço!”
“Pois bem! Pois bem, meus senhores! Se ainda permanece nos vossos espíritos alguma sombra, alguma dúvida, alguma opinião vacilante sobre a inocência daquele pobre mancebo...(e mostrava Amâncio com um gesto supremo) — que essa dúvida se apague! Que essa opinião vacilante se resolva na luz que nos assalta! Que essa última sombra se retire espavorida de envolta com as últimas sombras da noite que foge!”
— Bravo! Bravo! Apoiado! Muito bem!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.