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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Já esteve aqui duas vezes. Eu vou fazer-lhe companhia esta noite...

— Talvez isso não lhe faça bem!... observou Gregório.

— Ora! desdenhou Olímpia. Já não estou doente; além de que, tenho obrigação de ir. Ela se mostrou sempre tão minha amiga!... Está a mandar-me constantemente lembrançazinhas de amizade. Vou mostrar-lhe um açafate de papel, com o retrato dela. Deu-me na semana passada. Quer ver?...

Gregório disse que sim por comprazer.

Olímpia foi buscar o açafate. O retrato, em fotografia, estava no fundo, entre uma cercadura de papel bordado.

— Eu conheço esta mulher! disse Gregório logo que olhou para o retrato.

Esta é a Júlia Guterres!

— Ah! já a conhecia?

— Já. Uma atriz...

— E exato, ela foi do teatro; mas o marido não quis que continuasse. Você algum dia a viu representar? — Não.

Gregório saiu afinal, resolvido a não tornar ao lado de Olímpia.

Uma semana depois, recebeu dela uma carta. Pedia-lhe que aparecesse. Ele estava um ingrato; também isso não admirava, porque, segundo o que Olímpia ouvira dizer, Gregório não perdia uma noite do Alcazar, e andava apaixonado por uma francesa. Ela sabia de bonitas coisas a seu respeito!" Falou em certa orgia no Hotel Paris. A carta terminava pedindo ao rapaz que fosse domingo jantar com Olímpia. A viúva Guterres estaria presente e desejava conhecê-lo. Gregório leu cinco ou seis vezes aquelas palavras.

— Devia ou não devia ir?...

Não foi. Mandou um bilhete, pedindo desculpas, e não apareceu.

Um mês depois, nova carta. Era mais extensa e mais recriminatória; Olímpia queixava-se amargamente do proceder de Gregório e pedia-lhe ternamente que a fosse ver.

Ele ainda desta vez não foi.

Entretanto Gregório principiava a ganhar reputação de estróina. Um dos seus companheiros da pândega era o padre Beleza; padre ainda moço e levado da breca. À noite metia-se em roupas seculares, escondia a coroa e atirava-se para o Alcazar, onde floresciam nesse belo tempo as pernas da Aimé. O Beleza era quase sempre cabeça de motim e jogava capoeira como os mais entendidos da matéria.

Contavam dele façanhas terríveis. O bispo não conseguia corrigi-lo.

Olímpia escreveu ainda duas cartas a Gregório, sem ter melhor êxito que das primeiras. Na última jurara que, se ele não lhe aparecesse nesses dias, nunca mais lhe daria uma palavra.

Foi então, isto é, seis meses depois do rompimento de Gregório com Olímpia, que o padre Beleza o convidou para uma festa.

Era o batizado da filhinha de uma das suas comadres.

O rapaz aceitou e foi, sem prever que esse passo tinha de representar um importante papel na sua vida.

Só depois de lá estar, soube que a madrinha da criança se chamava Júlia Guterres.

CAPÍTULO XXIX

O BATIZADO

A casa da festança era em Catumbi, pouco adiante do lugar até onde mais tarde havia de chegar a linha de bondes.

Um casarão antigo e abafadiço, com janelas de peito e dois degraus de cantaria à porta da rua.

Para se chegar lá, subia-se uma pequena ladeira à esquerda, enquanto se deixava à direita um correr de casas, que lá se iam estendendo, até confinarem com o pardacento e melancólico muro do cemitério de S. Francisco de Paulo.

Seriam quatro horas da tarde quando os dois se apearam do carro que os conduzia. O padre Beleza deu o braço a Gregório e seguiram.

— E ali! disse ele, apontando para o casarão. O outro olhou indiferentemente na direção indicada pelo companheiro.

O tempo estava duvidoso; parecia vir chuva. O céu cor de pérola, apenas em alguns pontos mais vizinhos do horizonte abria rasgões de uma claridade desbotada e brancacenta.

Os montes de Santa Teresa, atufados na verdura felpuda e trêmula, enchiam-se de sombra. Palmeiras, destacadas e solitárias, abriam para o céu, aqui e ali, as suas Estrelas irrequietas e murmurosas. Toda a natureza se ressentia de um triste aspecto de recolhimento; só os carrapateiros quebravam a uniformidade melancólica da verdura com o seu verde Paris, cru e alegre. Em vários lugares, por entre o relvejar do capim, aparecia a custo uma nesga de terra avermelhada, cor de carne em conserva. Mais para o sopé dos montes, casinhas, pintadas de claro, apareciam no sombrio das matas com os ângulos das suas fachadas de madeira.

Não havia raios de sol, nem sombras projetadas no chão. As montanhas desenhavam minuciosamente no fundo plúmbeo do céu o seu contorno acidentado e guarnecido de árvores.

Gregório e o companheiro acabavam de entrar na casa do batizado.

(continua...)

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