Por Aluísio Azevedo (1884)
Mas ainda lá ficou uma idéia branda e compassiva que respeitava ao ingrato; ainda lá ficou uma mesquinha pomba esquecida, que já não tinha forças para acompanhar as revoada das companheiras, - era a comiseração inspirada pela mãe do criminoso. Essa ficou.
— Que desgraça da infeliz senhora! Possuir um filho daquela espécie!
E o Campos, com as mão cruzadas atrás, encaminhou-se lentamente para o segundo andar, em busca da mulher.
Não a acusou; não lhe fez de leve ima pergunta de desconfiança; apenas disse, pondo-lhe a carta defronte dos olhos:
— Mira-te neste espelho.
Hortênsia ficou lívida.
— Vê tu em que eu me metia!...acrescentou ele. — Defender aquele miserável! Calculo quanto não te incomodaste, minha santa!
E beijou-a na testa.
Ela sacudiu os ombros numa expressão de confiança na própria virtude: - O marido a conhecia bem, para que pudesse recear uma deslealdade de sua parte!
Logo, porém, que lhe escapou da presença, sentiu uma grande vontade de chorar. Correu ao quarto, fechou-se por dentro, e atirou-se à cama, abafando os soluços com os travesseiros que se inundavam.
* * *
Era um desespero nervoso, uma estranha mágoa por alguma coisa que ela não podia determinar o que fosse, mas que só se abrandava com aquela orgia de lágrimas. Sentia gosto em vertê-las, abundantes, fartas, como se as derramasse no fogo que a devorava.
Não obstante, ao receber aquela carta, ainda lhe sobejara coragem para responder, sem afrouxar nos seus princípios de honestidade; mas, agora, uma súbita transformação ganhava-lhe os sentidos e parecia chamar-lhe à cabeça as ondas quentes de seu sangue revolucionado.
— E quem não se revoltaria, pensava Hortênsia, — defronte da sorte tão contrária do lastimável moço, cujo grande crime consistia apenas no muito amor que ela lhe inspirara?...Ah! Era isso decerto o que a enchia de aflição e desalento! — era desgraça dessa pobre criatura, contra a qual tudo parecia conspirar, como se um gênio fantástico e mau a perseguisse! Que seria agora do mísero, sem a proteção do Campos?...Que seria do desgraçado, sem esse último companheiro que lhe restava no meio de tamanhas lutas?...
Violou uma donzela, é verdade! Mas deveriam responsabilizá-lo por isso?...Seria ele o verdadeiro culpado ou simplesmente uma vítima?...Falava-se tanto nos costumes de toda aquela gente do Coqueiro!...rosnavam com tanta insistência sobre os planos, os cálculos, as armadilhas tramadas ao dinheiro do rapaz!...De que lado estaria a razão?...E, quando se revoltassem toso contra o infeliz, teria ela, Hortênsia, o direito de fazer o mesmo?...Não lhe caberia grande parte na culpa de que o acusavam? Não poderias ela, só ela, ter evitado aquilo tudo com um simples palavra de amor?...Por que , afinal o que lançou Amâncio nos braços da tal rapariga?...Foi a paixão? foi a beleza? Foi o talento? — não! foi unicamente o despeito! Foi o delírio, o desespero de um coração repudiado! - Sim! sim! Tudo aquilo sucedera, porque ela o repelira; porque ela, a imprudente, fecharalhe os braços, quando o desgraçado, louco de paixão, lhe suplicava por um bocado de amor, um pouco de caridade!...
Antes tivesse cedido!...
E embravecia-lhe o pranto. — Antes tivesse, porque, se assim fosse, o pobre moço, com certeza, não pensaria na outra! — Mas o infeliz, coitado! viu-se aflito, enraivecido, sofrendo, saber Deus o quê! E sucumbiu, ora essa! Sucumbiu como aconteceria a qualquer nas mesmas condições! Sucumbiu por desalento, talvez por vingança, talvez por não ter outro remédio — Não! definitivamente sentia muita pena daquele desditoso rapaz!
Amava-o agora. Seu espirito atrasado e muito brasileiro descobria nele uma vítima da fatalidades amorosas, e esse prisma romântico emprestava ao estudante uma irresistível simpatia de tristeza, uma deliciosa atração de desgraça.
Hortênsia sonhava-o “pálido, melancólico, desprezado no fundo de umas prisão, tendo por leito — um catre abominável, por única luz — uma trêmula aresta do sol que se filtrava pelas grades negras do cárcere”.
E aquela encantadora figura de prisioneiro, com a cabeça languidamente apoiada nas mãos, os olhos úmidos de pranto, os cabelos em desalinho sobre a fronte, — a penetrava toda, enchia-lhe o coração, num aflitivo trasbordamento de lágrimas.
— Oh! Aquela adorável figura de vinte anos sofria tudo aquilo porque a amava! - porque uma paixão insensata lhe entrara no peito; sofria porque Hortênsia recusaras os beijos que o desventurado lhe pedira com tanta ansiedade.
Pobre moço! Pobres vinte anos! Dizia ela quase com as mesma frases do marido. — Mas por que se haviam de ter visto?...por que se haviam de amar?...
E a mulher do Campos, que até aí não sentira dificuldade em resistir às seduções do estudante, agora, fascinada pela dramatização daquela catástrofe que o heroificava, via-o belo, indispensável, grande na sua situação especial, conhecido das mulheres, temido e odiado dos homens, vivendo na curiosidade do público, percorrendo todas as fantasias, sobressaltando todos os corações.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.