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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Mas, deixemos por hora tudo isso de mão, para darmos conta final dos outros personagens que foram ficando abandonados pelo caminho, e irmos encontrar-nos de novo com Olímpia e espreitar a posição que, ao lado dela, toma o nosso Gregório.

À filha do comendador muito custou consolar-se da perda do pai. O Dr. Dermeval viu-se em sérias dificuldades para a erguer do estado de abatimento em que ficara.

Olímpia transformou-se durante os quinze dias que sucederam à morte do comendador; fez-se muito abatida, muito mais magra e mais nervosa. Eram precisos mil cuidados para evitar-lhe as crises. Em algumas rodas dizia-se até que a mulher do Gonçalves não estava muito boa da cabeça. Isso, porém, não tinha fundamento algum; o que ela estava era sumamente hipocondríaca, profundamente aborrecida e desconsolada.

Gregório ficou desapontado com semelhantes transformações; supunha ele que, depois da morte do comendador, Olímpia lhe pertenceria mais exclusivamente; que desapareceriam os sobressaltos, os riscos, as torturas de todo o instante. E não se lembrava o inexperto de que é precisamente desses pequeninos casos, excitantes e provocativos, dessas galantes contrariedades, desses passageiros obstáculos, que se alimentam os amores, cujas raízes grassam mais pela fantasia do que pelo coração.

Olímpia, logo que se sentiu independente, logo que pôde estar à vontade com o amante todas as vezes que lhe apetecia, começou a enfraquecer de interesse por ele, a possuir-se de fastio por aquele amor que ia amornecendo e caindo a pouco e pouco na vulgaridade das coisas fáceis e obscuras.

E, quanto mais Olímpia se retraía, mais se empenhava Gregório em chamála ao seu afeto; já procurando lembrar-lhe os sonhos venturosos do passado, já provocando, com artifício, novas situações armadas ao sabor do espírito romanesco do amante. Tudo, porém, era debalde. Olímpia não se mostrava menos enfastiada e parecia suportar o rapaz apenas por condescendência.

Um belo dia Gregório apareceu pouco antes do que era de costume.

— Ah! é você?... disse ela com o ar fatigado.

— Sei que não devia vir, respondeu ele, da porta, sem largar o chapéu; já não sou desejado...

E depois de observar o efeito que produziu a sua frase em Olímpia, acrescentou, pondo uma expressão de queixa nas palavras:

— Agora chego sempre cedo de mais!... Reconheço que só posso ser agradável pela ausência!...

A caprichosa não respondeu, e ficou a olhar demoradamente para as unhas da mão direita. Houve um silêncio de alguns segundos.

Gregório afinal aproximou-se dela e passou-lhe um braço na cintura.

— Para que me tratas deste modo? perguntou ele. Que fiz eu para merecer tamanha indiferença... Por que me fazes padecer tanto, Olímpia?... Sabes perfeitamente que és a única consolação que me resta na vida! a minha única ventura, minha única...

Ela o interrompeu para lhe perguntar onde se encontraria um jardineiro que se quisesse encarregar da chácara, porque o preto velho que lhe fazia esse serviço, dera ultimamente para beber e estava insuportável; ainda na véspera se apresentara tão embriagado que, na ocasião de entrar no jardim, fora de encontro a um belo jarro de louça vidrada e lançara-o por terra.

Olímpia não se podia conformar com semelhante perda! O seu querido jarro fazia imensa falta na chácara! Ela o estimava muito! Fora um presente do Porto, de um amigo de seu pai. Aqueles jarros ali estavam havia anos; era preciso que viesse a lesma do jardineiro para reduzir um deles a cacos!

— Bruto! resumiu ela, empenhada na sua indignação! Quebrar um objeto que eu prezava tanto!

As palavras da filha do comendador caíram sobre Gregório como um jato de água fria dentro de uma caldeira a ferver. Ele empalideceu de raiva ou talvez de vergonha, e fez um movimento brusco para sair.

— Já vai? perguntou a rapariga, com um ar entre dedicado e indiferente.

— Decerto! respondeu Gregório; que fico eu fazendo aqui?...

— Então não se esqueça do que lhe disse; e, se puder descobrir um jarro parecido com o que ficou na chácara, tenha a bondade de comprá-lo. Olhe, o melhor é ir lá abaixo vê-lo antes de sair. Venha comigo; faço muito empenho nisto! Venha!

E largou da sala, a encaminhar-se para a chácara.

Gregório prometeu ir em outra ocasião; naquele momento estava com pressa.

Olímpia dispunha-se a insistir no seu pedido quando a criada apareceu, muito esbaforida, dizendo que o Guterres acabava de expirar.

— Coitado! Já!? perguntou a senhora, com o ar de quem esperava por aquela notícia. E voltando-se para Gregório:

— E um vizinho aí defronte. Estava muito mal. Há quinze dias que penava!...

— Ah! balbuciou Gregório.

— Bom homem. Muito sossegado, muito agarrado à mulher. Ele esteve aqui, dizem, por ocasião da morte de papai, e ofereceu-se para ajudar no que fosse necessário.

E depois de uma pausa, acrescentou:

— A Júlia, coitada! deve estar muito aflita... E a mulher, explicou ela, em resposta a um gesto de Gregório. Bela moça, muito dada, muito amiga de obsequiar.

(continua...)

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