Por Aluísio Azevedo (1884)
Às vezes, no entanto, pretendia reagir: atirava-se ao Baunis Bouchard e ao Vale, disposto a ler durante horas consecutivas, disposto a prestar atenção, a compreender; mal, porém, ele se entregava aos compêndios, o pensamento, pé ante pé, ia-se escapando da leitura, fugia sorrateiramente pela janela, ganhava a rua, e prendia-se ao primeiro frufru da saia que encontrasse.
E Amâncio continuava a ler a estranha tecnologia da ciência, a repetir maquinalmente, de cor, os caracteres distintivos das vértebras, ou a cismar abstrato nas propriedades do cloro e do bromo, sem todavia conseguir que patavina daquilo lhe ficasse na cabeça.
— Não haver uma academia de Direito no Rio de Janeiro!lamentava ele, bocejando, a olhar vagamente a sua enfiada de vértebras, que havia comprado no dia anterior.
Porque, no fim de contas, tudo que cheirasse a ciência de observação o enfastiava: “Deixassem lá, que a tal osteologia e a tal Química nada ficavam a dever às matemáticas!...”
Ah! o Direito, o Direito é que , incontestavelmente, devia ser a sua carreia. Preferia-o por achá-lo menos áspero, mais tangível, mais dócil, que outra qualquer matéria. E esse mesmo...Valha-me Deus! tinha ainda contra si o diabo do latim, que era bastante para o tornar difícil.
E lembrar-se Amâncio de que havia por aí criaturas tão dotadas de paciência, tão resignadas, tão perseverantes, que se votavam de corpo e alma ao cultivo das artes!...das artes, que, segundo várias opiniões, exigiam ainda mais constância e mais firmeza do que as ciências!...Com efeito! Era preciso ter muita coragem, muito heroísmo, porque as tais belas-artes, no Brasil, nem sequer ofereciam posição social, nem davam sequer um titulozinho de doutor!
Qual! Não seria com ele!...Fosse gastando quem melhor quisesse a existência na concepção de um bom quadro, de uma boa estátua, de uma ópera genial ou de um bom livro de literatura, que ele ficava cá de fora — para apreciar. O mais que podia fazer, era — aplaudir; aplaudir e pagar! — E já não fazia pouco!...
Isso justamente ouviu, por mais de uma vez, da boca de seu pai. O velho Vasconcelos nunca tomou a sério os artistas “Uns pedaço-d’asnos!” qualificava ele, e, de uma feita em que o Franco de Sá lhe comunicou os seus projetos de estudar pintura na Europa, o negociante fez uma careta e exclamou, batendo-lhe no ombro: “Homem, seu Sazinho!não seria eu que lhe aconselhasse semelhante cabeçada. .porque, meu amigo, isto de artes é uma cadelagem! Procure meios de obter cobres, e o senhor terá à sua disposição os artistas que quiser!”
E nisto tinha o velho toda a razão, pensava Amâncio. Acho apenas que devia estender a sua teoria até o estudo de certas ciências...como a Medicina...Sim! porque, afinal, com o dinheiro também obtemos os médicos de que precisamos, e não vale a pena, por conseguinte, gramar seis anos de academia e curtir as maçadas que estou suportando, sabe Deus como!
— Mas ,neste caso, a questão muda muito de figura! dizia-lhe em resposta uma voz que vinha de dentro de seu próprio raciocínio Não se trata aqui de fazer um “médico”, trata-se de fazer um “doutor”, seja ele do que bem quiser!Não se trata de ganhar uma “profissão”, trata-se de obter um “título”. Tu não precisas de meios de vida, precisas é de uma posição na sociedade.
— Visto isso, porém, objetava Amâncio, — quero crer que o mais acertado seria comprar uma carta na Bélgica ou na Alemanha ,e mandar ao diabo, uma vez por todas, aquela peste de Medicina!
Ora, Medicina, Medicina servia para algum moço pobre que precisasse viver da clínica; ele não estava nessa circunstâncias. Era rico! só com o que lhe tocava por parte materna, podia passar o resto da vida sem se fatigar!...Por que, pois, sofrer aquelas apoquentações do estudo? Por que razão havia de ficar preso aos livros, entre quatro paredes, quando dispunha de todos os elementos para estar lá fora, em liberdade, a se divertir e a gozar?!...
Mais uma idéia sustinha-lhe o vôo do pensamento; o vulto angélico de sua mãe vinha colocar-se defronte dele, abrindo os braços, como se o quisesse proteger de um abismo.
Ah! quanto empenho não fazia a pobre velha em vê-lo formado às direitas, numa faculdade do Brasil! ... Vê-lo doutor!...
— Doutor, hein?! repetia Amâncio, meio animado com o prestígio que ao nome lhe daria o título.
E ligava-os mentalmente, para ver o efeito que juntos produziam:
— Doutor Amâncio! Doutor Amâncio de Vasconcelos! Não fica mal! não fica! A mãe tinha razão: — Era preciso ser doutor!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.