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#Comédias#Literatura Brasileira

Verso e Reverso

Por José de Alencar (1857)

Ernesto — Está bom! Já, que deseja, confesso que via; via com seus olhos!

Júlia — Pois suponha que a Praça do Comércio é uma colmeia: e que o dinheiro é um favo de mel. Este sujeito que saiu daqui é o besouro disfarçado, o zangão. Os corretores arranjam as transações, dispõem os negócios; vem o zangão e atravessa os lucros.

Ernesto — Compreendo agora o que é o zangão; é uma excelente profissão para quem não tem nada que fazer, e demais bastante útil para a sociedade.

Júlia — Útil em quê?

Ernesto — Oh! Se não fosse ele, ficaríamos sós? Se não fosse ele, meu tio estaria ainda aqui, querendo por força provar-me que a desgraça dos fluminenses provém de não haver mais trovoadas! Querendo convencer-me que as maravilhas do Rio de Janeiro são a laranja seleta, o badejete, a farinha de Suruí e a água da Carioca! Sim! É uma profissão muito útil! Aconselharei a todos os meus amigos que desejarem seguir o comércio, se façam zangãos da praça!...

Júlia — Então é nisso que está a grande utilidade...

Ernesto — Mas seriamente, prima; essa profissão fácil e lucrativa é uma carreira aberta à mocidade, que pretenda seguir a vida comercial.

Custódio — Vou até a cidade! Já passaria o ônibus das dez?

Júlia — Não sei, Sr. Custódio; mas o senhor não almoça conosco?

Custódio (erguendo-se) — Almoçar a esta hora! Obrigado!. Sr. Ernesto, boa viagem!

Ernesto (apertando-lhe a mão) — Adeus, Sr. Custódio.

Custódio — Dê-nos notícias suas. Sem mais. . . D. Júlia! (Sai).



CENA IX

Ernesto, Júlia

(Ernesto vem sentar-se na conversadeira junto da Júlia; ambos estão confusos).

Júlia (erguendo a cabeça) — Então, meu primo, ainda não me disse se leva saudades do Rio de Janeiro?

Ernesto — É preciso que lhe diga, Júlia!

Júlia — Naturalmente não sente deixar a corte; não achou aqui atrativos que o prendessem; viu uma grande cidade, é verdade; muita gente, muita casa, muita lama.

Ernesto — Sim, mas no meio desse vasto montão de edifícios, encontra-se aqui e ali um oásis magnífico, onde a vida é um sonho, um idílio; onde nada falta para a comodidade da existência e o gozo do espírito; onde apenas se forma um desejo, ele é logo satisfeito. Vi alguns desses paraísos terrestres, minha prima, e vivi três meses em um deles, aqui nas Laranjeiras, nesta casa...

Júlia — Não exagere, não é tanto assim; há algumas casas bonitas, com efeito, mas a cidade em si é insuportável; não se pode andar pelas ruas sem ver-se incomodado a cada momento pelas carroças, pelos empurrões dos que passam.

Ernesto — Que tem isso? Essa mesma confusão tira a monotonia do passeio. Demais, quando se anda pela Rua do Ouvidor, como andamos tantas vezes, todos esses contratempos são prazeres. O susto de um carro faz com que a moça que nos dá o braço se recline sobre nós; um sujeito que impede a passagem dá um pretexto para que se pare e se torne o passeio mais longo.

Júlia — Ao menos não negará uma coisa; e é que temos uma verdadeira praga aqui no Rio de Janeiro.

Ernesto — Qual, prima?... Não sei.

Júlia — Os benefícios.

Ernesto — Não diga isso, Júlia. Que coisa mais bela, do que as pessoas que vivem na abastança protegerem divertindo-se aqueles que necessitam e são pobres! O prazer eleva-se à nobreza da virtude; o dinheiro que o rico esperdiça para satisfazer os seus caprichos, transforma-se em oferta generosa, mas nobremente disfarçada, que anima o talento do artista e alivia o sofrimento do enfermo; a caridade evangélica torna-se uma instituição social. Não; não tem razão, prima! Esses benefícios, que a Sra. censura, formam um dos mais belos títulos do Rio de Janeiro, o título de cidade generosa e hospitaleira.

Júlia — Não sei por que, meu primo, o Sr. vê tudo, agora, de bons olhos. Por mim, confesso-lhe que, apesar de ser filha daqui, não acho na corte nada que me agrade.

O meu sonho é viver no campo; a corte não tem seduções que me prendam.

Ernesto Ora, Júlia, pois realmente não há no Rio de Janeiro nada que lhe agrade?

Júlia — Nada absolutamente. Os passeios nos arrabaldes são um banho de poeira; os bailes, uma estufa; os teatros, uma sensaboril.

Ernesto — Como se diz isto, meu Deus! Pode haver coisa mais linda do que um passeio ao Corcovado, donde se vê toda esta cidade, que merece bem o nome que lhe deram de princesa do vale? Pode haver nada de mais encantador do que um baile no Clube? Que noites divertidas não se passa no Teatro Lírico, e mesmo no Ginásio, onde fomos tantas vezes?

Júlia — Fui por comprazer, e não por gostar. Acho tudo isto tão insípido! Mesmo as moças do Rio de Janeiro...

Ernesto — Que têm?

(continua...)

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