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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

EDUARDO - Eu te digo: acabas de dar-me uma prova do teu discernimento; o que vou dizer-te será uma lição. Os moços, ainda os mais tímidos como eu, minha irmã, sentem quando entram na vida uma necessidade de gozar desses amores que duram alguns dias e que passam deixando o desgosto n'alma! Eu fui fascinado pela mesma miragem; depois quis esquecer Henriqueta e procurei nos olhares e nos sorrisos das mulheres um bálsamo para o que eu sofria. Ilusão! O amor vivia, e nas minhas extravagâncias o que eu esquecia é que tinha uma irmã inocente confiada à minha guarda. Imprudente eu abrigava no seio de minha família, no meu lar doméstico, a testemunha e o mensageiro de minhas loucuras: alimentava o verme que podia crestar a flor de tua alma. Sim, minha irmã! Tu cometeste uma falta; eu cometi um crime!

CARLOTINHA - Não se acuse, mano; é severo demais para uma coisa que ordinariamente fazem os moços na sua idade!

EDUARDO - Porque não refletem!... Se eles conhecessem o fel que encobrem essas rosas do prazer deixá-las-iam murchar, sem sentir-lhes o perfume! Há certos objetos tão sagrados que não se devem manchar nem mesmo com a sombra de um mau exemplo! A reputação de uma moça é um deles. O homem que tem uma família está obrigado a respeitar em todas as mulheres a inocência de sua irmã, a honra de sua esposa e a virtude de sua mãe. Ninguém deve dar direito a que suas ações justifiquem uma suspeita ou uma calúnia.

CARLOTINHA - Está bom, não vá agora ficar triste e pensativo por isso. Já lhe disse tudo, já lhe dei a carta; prometo-lhe não pensar mais nele. Duvida de mim?

EDUARDO - Não. Agradeço a tua confiança e acredita que saberei usar dela. Já volto.

CARLOTINHA - Que vai fazer?

EDUARDO - Escrever uma carta; ou antes, responder à que recebeste.

CARLOTINHA - Como, Eduardo!

EDUARDO - Logo saberás.

CARLOTINHA - Mas não se zangue com ele; sim?

EDUARDO - Tranqüiliza-te; ele te interessa, é um título para que eu o respeite.


CENA VII

CARLOTINHA, HENRIQUETA


HENRIQUETA (fora) - Carlotinha!...

CARLOTINHA - Henriqueta! - Ah! Eu te esperava! 

HENRIQUETA - E tinhas razão... Mas antes de tudo... É verdade?... O que me escreveste?

CARLOTINHA - Sim; ele te ama e te amou sempre! Um engano, uma fatalidade...

HENRIQUETA - Bem cruel!... Eu perdoaria de bom grado à sorte todas as minhas lágrimas, mas não lhe perdôo o fazer-me mulher de outro!

CARLOTINHA - Então, está decidido!

HENRIQUETA - Eu não te disse! Sou sua noiva! Meu pai deu-lhe a sua palavra. Ele me acompanha já com direito de senhor. Por sua causa estive quase não vindo...

CARLOTINHA - Como assim? Ele recusaria...

HENRIQUETA - Não; mas meu pai convidou-o para acompanhar-nos, e eu lembrei-me que Eduardo sofreria tanto vendo-me junto desse homem, que um momento fiquei indecisa!

CARLOTINHA - Por quê? Ele sabe que tu não o amas.

HENRIQUETA - Não importa.

CARLOTINHA - Mas enfim vieste. Fizeste bem!

HENRIQUETA - Não sei se fiz bem. Fui arrastada! Creio que aos pés do altar, se ele me chamasse, eu ainda me voltaria para dizer-lhe, enquanto sou livre, que o amo e que só amarei a ele!


CENA VIII

Os mesmos, VASCONCELOS, D. MARIA, AZEVEDO


VASCONCELOS - Onde está o nosso Doutor? Não há mais quem o veja.

CARLOTINHA - Subiu ao seu quarto, já volta.

VASCONCELOS - Oh! D. Carlotinha! Como está?!... Apresento-lhe meu genro. O Sr. Azevedo. (A AZEVEDO) É a mais íntima amiga de Henriqueta.

AZEVEDO - E eu o mais íntimo amigo de seu irmão! Há, portanto, dois motivos bastante fortes para o meu respeito e consideração.

CARLOTINHA - Muito obrigada! (A HENRIQUETA) Vai-te sentar; estás toda trêmula!

HENRIQUETA (baixo) - E ele, por que não vem?

CARLOTINHA - Não tarda! (Afastam-se.)

VASCONCELOS (a D. MARIA) - Parece-me um excelente moço, e estou certo que há de fazer a felicidade de minha filha.

D. MARIA - É o que desejo; tenho muita amizade à sua menina e estimo que seu marido reúna todas as qualidades.

VASCONCELOS - Para mim, se quer que lhe diga a verdade, só lhe noto um pequeno defeito.

D. MARIA - Qual? É jogador?

VASCONCELOS - Não; o jogo já não é um defeito, segundo dizem; tornou-se um divertimento de bom-tom. O que noto em meu genro, e que desejo corrigir-lhe, é o mau costume de falar metade em francês e metade em português, de modo que ninguém o pode entender! D. MARIA - Ah! Não observei ainda!

VASCONCELOS - É uma mania que eles trazem de Paris e que os torna sofrivelmente ridículos. Mas não se querem convencer!

AZEVEDO - Tem um belo jardim, minha senhora, um verdadeiro bosquet. Oh! c'est charmant! Não perdôo, porém, a meu amigo Eduardo não ter aproveitado para fazer um kiosque. Ficaria magnífico!

VASCONCELOS - Então, entendeu?

D. MARIA - Não, absolutamente nada!

VASCONCELOS - O mesmo me sucede! Tanto que às vezes ainda duvido que realmente ele me tenha pedido a mão de Henriqueta!

D. MARIA - Ora! É demais! (Sobem.)

AZEVEDO (a CARLOTINHA) - Aqui passa V. Ex.a naturalmente as tardes, conversando com as suas flores, em doce e suave réverie!

CARLOTINHA - Não tenho o costume de sonhar acordada; isso é bom para as naturezas poéticas.

AZEVEDO - Les hommes sont poètes; les femmes sont la poésie, disse um distinto escritor. Oh!

Eis a flor clássica da beleza.

CARLOTINHA - A camélia?

(continua...)

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