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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

– Não lhe atire, ó tio Patarro! É um velho, coitado! Não lhe vê os cabelos brancos? Aquele homem não se deve matar. Ele vai morrer afogado antes de chegar à outra banda. Verá. Que raio de amizade ele tem à espada! Aquilo é que é!

A meio do rio, onde a veia de água resvalava mais impetuosa, deixou-se derivar sem esforço de natação. Mal bracejava. Depois, o Ave espraiava-se em murmúrios de lago dormente, muito barrento, e deixava-se apegar. O alferes, com a água pela cinta, desatascou-se dos lamaçais de além; e, horas depois, repassando o Ave na Ponte da Lagoncinha, e, vencidas duas léguas de chafurdeiros e barrocas, entrava na sua casa das Lamelas, bebia um grande trago de genebra, e, floreando a espada, bradava:

Depois, sobreveio-lhe um reumatismo articular, e ficou tolhido.

Sete anos passados, quando todas as aldeias do Minho conclamavam D. Miguel, ele ainda vivia, mas entrevado num carrinho, e chorava, em impotentes arquejos do corpo paralítico, porque não podia amolar a lâmina da espada nos ossos dos malhados.

Tinha-a diante dos olhos pendurada numa escápula com o boldrié e a banda. As vezes, depois de beber, punha-se a olhar para ela com os olhos envidraçados de lágrimas, e pedia que a metessem na sua sepultura, que o enterrassem com ela. E enterraram. Espera-se que o esqueleto deste legitimista, com as falanges esburgadas e recurvas no punho azevrado da espada, ressuscite, ao ulular da trombeta, na ressurreição geral das Legitimidades. Ponto é que a Rússia se mova – como dizia o frade de Barrimau.

IV

Do Alto Minho continuavam as noticias alegremente agitadoras. O Cristóvão Bezerra, ex-capitão-mor de Santa Marta de Bouro, escreveu ao seu parente de Barrimau. Dizia-lhe que constava que o Sr. D. Miguel estava no seu reino, e – o que mais era – muito perto dali. Que não se podia explicar mais pelo claro sem ter a certeza de que seu primo entendia a cifra de comunicação entre os membros da Ordem de S. Miguel da Ala, instituída pelo Sr. D. Afonso Henriques e renovada ultimamente pelo monarca legitimo – explicava. O major Bezerra era comendador da ordem e conhecia a cifra: – que escrevesse francamente. E, desconfiando do correio, mandou a Santa Marta de Bouro o afilhado, o filho do alferes Gaspar, com uma carta muito importante. O pedreiro, a impar de soberba por tal mensagem, posto que não participasse do segredo do padrinho, que era discreto, disse ao pai:

– Ou eu me engano, ou o Sr. D. Miguel está por aí, não tarda...

O alferes sentiu uma descarga eléctrica na coluna vertebral e convulsionou-se extraordinariamente. Fazia lembrar fenómenos que se contam de movimento galvânico nos paralíticos, colhidos de improviso pelo terror ou pela exultação; mas o Gaspar, como só tinha o esófago desimpedido, bebeu, com a escorrência absorvente de um olhomarinho, muita aguardente, e desatou a berrar o Rei-chegou.

O filho, com a discrição própria de um agente secreto da restauração realista, zangou-se com o berreiro cívico do pai e perguntou-lhe se estava bêbedo. O velho entusiasta, ferido no seu coração de vassalo e de progenitor. teve um honrado intervalo lúcido, quando lhe replicou:

– Se eu não estivesse aqui tolhido, respondia-te, malandro!

Deitou o albardão à égua e partiu para terras de Bouro o Zeferino. Quando passava defronte da casa do Simeão, em Prazins, olhou de esguelha, por debaixo da aba do chapéu, para o lavrador que estava apondo os bois ao carro, e regougou um arrastado pigarro de goelas encatarroadas; e, dando de espora à andadeira, deixou cair o pau ferrado ao longo da perna. , azia de si consigo, ladeando a besta em corcovos chibantes. O Simeão, quando o perdeu de vista, murmurou: – Valha-te o Diabo, banabóia!

O ex-capitão-mor de Santa Marta respondeu às perguntas do primo de Barrimau; e, como o portador se recomendou na qualidade de afilhado do fidalgo e filho de um alferes que comandara o ataque de 1838 sobre Santo urso, o Cristóvão Bezerra tratou-o muito bem e pediu-lhe notícias desse ataque a Santo Tirso que ele não conhecia.

O pedreiro contou a façanha do pai, a nadar, com a espada nos dentes; e o fidalgo, quando soube que ele estava entrevado, disse pungidamente: Mal empregado! – que um general romano fizera o mesmo e que o levasse às Caldas de Vizela à bomba quente.

(continua...)

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