Por Machado de Assis (1864)
Quando este chegou, Sara, com os olhos fitos, como que vendo já abrir-se-lhe o céu, pediu a Maria Luísa que lhe desse a rosa seca que estava sobre a mesa. Maria Luísa deu-lha.
— Desejo esta flor, porque me lembra o amor que eu supunha ter achado; é o homem de ontem que eu choro! é por ele que morro; o de hoje não é senão a sepultura do de outrora, que morreu.
Houve um silêncio.
Almeida chegou-se à filha, a fim de prepará-la para a confissão.
Sara estremeceu.
Depois, voltando-se para Almeida, disse:
— Meu pai, abençoe-me. E tu também minha irmã.
Depois, estava no céu.
VIII
Meia hora depois entrava Eduardo à porta de Almeida. Viu tudo fechado; correu-lhe um calafrio por todo o corpo. Será tarde? perguntava ele. Vacilou; entraria ou não? Se entrasse e achasse tudo perdido? Enfim, fazendo um esforço, Eduardo passou o portão que se achava perto. Atravessou a alameda das roseiras, onde pela primeira vez falara de amor à pobre Sara. O remorso começou então a aguilhoá-lo. Aquele silêncio, aquele ar fúnebre, que a casa e o jardim respiravam, incutiam-lhe certo terror. Chegou à porta e bateu.
Veio abri-la o pai de Sara.
— Sara? perguntou ele.
— Sara morreu!
O moço tornou-se lívido. Sentiu uma vertigem; os olhos se lhe escureceram, ia cair. Segurou-se a uma cadeira.
O pai de Sara olhava fixo para Eduardo. Este não podia suportar-lhe o olhar, e baixava os olhos. Naquele momento, o pai de Sara era o remorso vivo.
Depois de um pequeno silêncio, Almeida falou:
— Era inútil tê-la salvado do mar há quatro meses, para matá-la agora. Se tal devia ser o desenlace destas coisas, melhor fora que a minha pobre filha tivesse sucumbido à primeira vez; iria assim para o outro mundo sem conhecer as misérias deste...
— Oh! basta! interrompeu Eduardo. Sei quanto sou culpado, não aumente a minha angústia com as suas exprobrações, aliás justas.
O velho sorriu-se tristemente, como quem ouvia duvidoso as palavras do outro. Depois:
— Vem dar-me os pêsames, não é? continuou ele; muito obrigado.
E foi sentar se no sofá, derramando silenciosas lágrimas.
Eduardo esteve alguns momentos contemplando aquela dor muda e respeitável. Depois, dirigiu os olhos para a porta do quarto mortuário. Ouviu que partiam de dentro soluços abafados. Dirigiu-se para a porta.
Maria Luísa ajoelhada aos pés da cama, contemplava, chorando, o cadáver de Sara. A morta parecia sorrir ainda: dissera-se que sonhava um sonho cor-de-rosa. Eduardo sentiu rebentarem-lhe dos olhos as lágrimas. Ajoelhou-se silenciosamente ao pé da porta e olhou para Maria Luísa.
Não lhe viu o rosto, mas conheceu-a.
Durou muitos minutos esta cena muda. Finalmente, Eduardo levantou-se e dirigiu-se para o leito da finada. Aí, com os olhos rasos de lágrimas, disse para o cadáver:
— Perdoa-me! Adeus!
E saiu da casa, louco, desesperado.
IX
Eduardo andou muitas horas sem saber de si. Acompanhava-o o espectro de Sara. Ouvia-lhe as palavras; parecia vê-la morrer, esperando embalde por ele. De um triste jogo, em que a sua vaidade entrara por muito, resultaram tão funestas conseqüências. Sua dor era sincera; seu terror verdadeiro. Até ali, de seus caprichos dom-juanescos só resultaram, quando muito, desgostos passageiros que o tempo ou outras circunstâncias atenuavam e faziam desaparecer. Mas no dia em que se deitara a amar deveras, ou antes, no dia em que desejou amar, as vítimas do seu capricho sucumbiram. Via-se autor de uma morte; e os espíritos da ordem de Eduardo podem cometer todas as ações covardes, mas não resistem a um espetáculo destes. Fazer perder-se uma donzela ou separar um casal, é uma façanha mais ou menos celebrada, mais ou menos aceita; mas impelir para a sepultura um ente a quem se enganou, eis o que faz estremecer os audazes. Eduardo, preso de remorso, apreciava toda a extensão do abismo em que caíra.
Os sentimentos vivos da dor e do remorso, as idéias tumultuárias e cruéis, encheram por longo tempo o espírito e o coração de Eduardo. Ora parecia-lhe dever fugir à vida e ir alcançar a donzela no caminho da eternidade, para pedir-lhe perdão. Ora julgava que devia ficar neste mundo, para purgar em longo sofrimento o crime que cometera.
Nesta incerteza, neste suplício moral, andou até que se achou diante do mar. Sentou-se pensativo em uma pedra. Era quase noite. Muita gente que o viu supô-lo doido. Estava ali, havia já alguns longos minutos, quando um homem parou e procurou descobrir-lhe as feições. Eduardo tinha o rosto fechado nas mãos. Depois de alguns instantes o homem exclamou:
— Eduardo!
— Que é? disse o moço, estremecendo.
Voltou e reconheceu o interlocutor;
— Pedro Elói!
Eduardo caiu-lhe nos braços.
Depois de alguns momentos, Pedro Elói perguntou;
— Que há?
— Sara morreu!
— A donzela?
— Sim!
— Desgraçado! É obra tua!
(continua...)
ASSIS, Machado de. Questão de vaidade. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1864.