Por Lima Barreto (1921)
São intrigas de serralho, mas às quais ninguém escapa, quer como paciente, quer como agente, quer como agente paciente.
Alvim não é assim, tem no jornal um procedimento à parte, procede retamente, limpamente, e constitui por isso um exemplar excepcional de homem de jornal.
Secretário deste jornal, ele o foi por si mesmo, sem cabala, nem comadriagem devido unicamente a seu esforço, à sua capacidade de encher tiras e mais tiras, quase sem uma hesitação, sem uma emenda, tendo feito muito rapidamente, uma segurança de estilo, de julgamento, de quem veio para o jornal já seguro dos instrumentos de que a arte de escrever exige se tenha.
É assim o Alvim. Ele faz anos hoje; que o faça muitas vezes. Correio da Noite, Rio, 18-1-1915.
AS ENCHENTES
As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas. Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.
De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.
Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.
O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares , dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral.
Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha!
Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão.
O Prefeito Passos , que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.
Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações.
Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social.
Correio da Noite, Rio, 19-1-1915.
E O TAL BALÁZIO?
Ontem, o Instituto Histórico e outras pessoas conspícuas foram ali pelas bandas do Pão de Açúcar e inauguraram um marco comemorativo da fundação da cidade do Rio de Janeiro.
Nada mais justo e ato não há mais digno de encômios.
O senhor Vieira Fazenda , com aquela sua secura de alfarrabista, com aquele seu amor a datas e às controvérsias, leu um discurso sisudo, muito adstricto ao fato, sem associações de outros fatos próximos e remotos.
A fundação do Rio de Janeiro é, para ele, um simples pretexto de alvarás, cartas régias, foros e sesmarias. O senhor Fazenda não vê nada além dos secos documentos oficiais; não vê as consequências econômicas, as sociais, os encadeamentos de grandes e pequenos acontecimentos, que o ato de Estácio de Sá deu causa, foi gerador, sem que estivessem no seu ou no pensamento dos companheiros dele.
Não nego ao senhor Fazenda méritos de historiógrafo, de paciente pesquisador, de rebuscador de documentos, mas falta-lhe a adivinhação, de que falava Renan , a imaginação criadora necessária para recompor os acontecimentos históricos.
Quero falar, porém, do monumento e não do senhor Vieira Fazenda, pessoa por todos os feitios respeitável, cujo termítico labor em condensar documentos que interessem à história da cidade, me merece a mais intensa admiração.
O tal monumento é a coisa mais “estrambótica” que se possa imaginar.
Deixou de ter a singeleza que era de esperar tivesse, para ser uma coisa cerebrina de uma agulha de granito ponteada com uma bala de canhão moderno, simbolizando assim as lutas que se travaram na fundação da cidade.
Se essa simbolização fosse necessária, creio eu que melhor seriam arcos, flechas, tacapes, mosquetes, arcabuzes, balas esféricas dos velhos canhões de retrocarga, que esse balázio cilindrocônico que é quase de anteontem.
Estamos sempre dispostos a ver no passado lutas; porque não havemos de ver solidariedade?
Porque só um dos aspectos do sucesso há ser relembrado com um produto do
Krupp?
A fundação de uma cidade é, antes de tudo, um desejo de comunhão, de associação.
Na cidade, todos colaboram, todos concorrem com o seu quinhão, com o seu pequeno esforço para o culto do seu deus – como é então que os senhores do instituto só viram luta e luta com canhões alemães, a despejar projetis cilindrocônios pelos meados do século XVI?
Correio da Noite, Rio. 21-1-1915.
AO SENHOR LUCAS DO PRADO
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.