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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

- Em primeiro lugar — disse-me ele — vou contar-lhe com toda a franqueza a minha história, sem o que não poderia o senhor capacitar-se de que não sou precisamente um doudo: Nasci na cidade de Campinas, e, segundo me consta, meu pai, a quem não tive o gosto de conhecer, era um sujeito honrado e de bons costumes, o que aliás não lhe impediu de sucumbir a uma indigestão de lagostas, justamente quando minha mãe estava em vésperas de dar-me ao mundo. A morte de meu pobre pai precipitou um pouco este vulgaríssimo fenômeno fisiológico, obrigando minha desgraçada mãe a pagar com a própria existência o meu direito de fazer parte dessa cousa que se chama humanidade e a um lugar neste mesquinho inferno que se chama o mundo. Por conseguinte, apenas com um dia de vida já recebia eu os primeiros couces da fortuna, achando-me completamente desamparado e sem ter ao menos uma teta que me garantisse a subsistência. Foi então que um pobre cocheiro se compadeceu de mim e carregou-me para casa. O cocheiro era casado e sua mulher entregava-se ao modesto e honrado mister de criar bodes e cabras. Foi uma cabra a única ama-de-leite que eu conheci, e tal amor tomei desde então a esse benfazejo animal, que ainda hoje, quando por acaso o encontro na rua ou em qualquer parte, a vontade que tenho é de ferrar-lhe um abraço.

- Nada mais justo... — considerei eu.

- Mas — continuou o narrador — a desdita não quis que o meu protetor levasse ao cabo a obra de caridade que me estava reservada e fê-lo sucumbir, pouco depois da mulher e quando eu ainda não tinha mais do que cinco anos de idade.

“Passei então para as mãos de um tipo, o melhor dos que tenho conhecido no mundo, e que foi ao mesmo tempo o meu salvador e a minha perdição.” - A sua perdição?

“ — Sim. Eu me explico: Pedro Melindroso, o homem que substituiu ao meu lado o cocheiro, era um filósofo, cujas teorias abstratas e metafísicas entraram muito profundamente pelo vasto terreno da loucura.

“ Foi justamente por isso que ele me recolheu. Um dia viu-me chorando abraçado à cabra que me amamentara e escondeu-se para me espreitar.

“ Eu, que me supunha a sós com a minha doce companheira de infância, exclamava deveras comovido à orelha do bicho: “Bebé! Bebé! (era este o tratamento que eu lhe dava) minha querida Bebé, não imaginas quanto te quero bem e quanto gosto mais de ti do que de todo o mundo!”

“ O filósofo, saindo do seu esconderijo, veio ter comigo e perguntou-me se era verdade o que ouvira de minha boca.

“ Eu, meio perturbado com a presença dele, respondi que sim e que não trocaria a minha querida Bebé por ninguém.

“ - Quem é seu pai? — perguntou-me ele depois. “ - Não cheguei a conhecê-lo — respondi “ - E sua mãe?

“ - Morreu quando me pôs no mundo.

“ - E com quem você vive agora?

“ - Com ninguém.

“ - Você não tem casa?

“ - Não.

“ - Onde dorme?

“ - Quase sempre no curral do Zé Coxo.

“ - Onde come?

“ - Onde encontro o que comer. E quando não encontro, peço.

“ - E quando não lhe dão?

“ - Roubo.

“ - E não se vexa de roubar?

“ - Não, porque não faço por maldade semelhante cousa, mas sim por não haver outro remédio.

“ - E por que você não se mata?

“ - Porque não quero.

“ - E que espera você da vida?

“ - Nada, não sei.

“ - Quer vir comigo. para minha casa?

“ - Vou, se me deixar levar Bebé.

“ - Pois então acompanhe-me com ela.

“ Desde esse dia principiei a ter de novo uma cama, um talher certo à mesa do filósofo e roupa lavada e engomada.

“ - Você quer ser uma besta ou um homem instruído? — perguntou-me o Melindroso, meses depois de me haver tomado à sua conta. - Mas, desde já o previno de uma cousa - acrescentou ele. - Eu não admito meio-termo em questões de ilustração. Você no caso que não queira ser uma besta, há de ser um sábio. Escolha.

“ - Quero ser um sábio.

“ - Mas, veja bem, rapaz. Para ser um sábio é necessário que você tenha talento, paciência e coragem. Consulte o seu espírito e veja se pode contar com essas três qualidades.

“ - Posso, sim senhor.

“ - Tu tens talento? - volveu o filósofo, passando a tratar- me por tu, o que nele significava bom humor.

“ - Tenho.

“ - Pois então responde ao que te vou perguntar.

“ - Pronto.

“ - Que farias tu a um cão que te mordesse?

“ - Dava-lhe com uma pedra.

“ - E a um que te lambesse os pés?

“ - Nada.

“ - Bem. Vejamos agora se tens coragem. Dá-me um soco.

“ Eu não esperei segunda ordem e ferrei-lhe um murro na barriga.

“ - Bom — disse o filósofo. — Estou satisfeito e, quanto às provas de paciência reservo-as para mais tarde. Amanhã principiarás a estudar comigo. E daqui a alguns anos saberás tudo que é dado alcançar ao* conhecimento humano.

* No original, o.

“ No dia seguinte o meu protetor começou a ensinar- me simultaneamente as seguintes matérias. Gramática Portuguesa, Francesa, Latina e Grega; Aritmética, Geografia, Física e Astronômica, Música, Desenho e Ginástica.

“ É inútil dizer que de tudo isso só me ficara na cabeça uma confusão diabólica, o que aliás não desanimara o meu singularíssimo professor, nem o fazia retirar de mim a progressiva confiança que eu lhe inspirava.

“ E todos os dias apresentava-me um novo livro e dizia-me:

(continua...)

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