Por Aluísio Azevedo (1882)
— Como?! Do noivo?!
— Sim.
— Oh! nesse caso, entre!
E a pessoa gritou logo para os que estavam na sala de jantar:
— Temos notícias do noivo!
Júlia foi conduzida para a alcova de Clorinda, enquanto os outros curtiam de fora a mais impaciente e viva curiosidade. Ao encarar a noiva do amante, sentiu a viúva percorrer-lhe no corpo um vivo estremecimento de ódio, mas a idéia do perigo em que estava Gregório, acalmou-lhe o sangue.
Clorinda, entretanto, a quem disseram que a recém-chegada trazia notícias de seu noivo, precipitou-se ao encontro de Júlia, exclamando aflita:
— Que sucedeu com Gregório?! Diga-me por piedade!
— Como?! Pois já sabe que lhe ia suceder alguma coisa?!...
— Mas o que é?! Diga! diga depressa!
— Ele então não está cá?!...
— Não! Ainda não apareceu!
— Não apareceu?! exclamou a viúva, empalidecendo. Oh! Nada consegui evitar! Foi preso!
Quem?! interrogou a noiva. Quem? Gregório?! Gregório preso! mas por quê, senhora?! Explique-se! explique-se, por amor de Deus!
E Clorinda, vendo o abatimento em que caía a outra, sacudiu-a com força:
— Então, senhora?! Que há?! Diga!
Mas a viúva continuava na sua prostração e repetia como num delírio:
— Preso! Nada consegui!
— Ó senhora! explique-se por uma vez! Não vê o estado em que me acho? Não vê que tenho olhos cheios d’água? não vê como tremo? não vê como sofro?!
— E que me importa a mim o seu sofrimento?! também eu sofro e já padeci bastante! Sua mágoa tem saída; a minha não. Se Gregório voltar, é para os seus braços e não para os meus!... Que vale por conseguinte a sua tristeza de criança, comparada à dor enorme que neste momento me dilacera o coração?!
— Eu não a compreendo! observou a noiva.
— Nem se pode compreender nada disto na sua idade, como também na sua idade ainda não se pode avaliar a força indominável e fatal de um verdadeiro amor! Criança! O amor nos quinze anos é pouco mais que o último folguedo da meninice, atrás dele não existe um passado, existe quando muito uma boneca!
— Senhora!
— Oh! Não vim cá para disputar seu noivo; vim com a intenção de salvá-lo; nada consegui. Paciência! Volto resignada com a vontade de Deus!
Clorinda segurou-a pelo braço.
— Mas, por piedade, explique-me o que há? diga-me o que foi feito de Gregório!
— E acusado de roubo e assassinato! declarou a viúva, finalmente.
— Ah! gritou a outra, como se só esperasse por aquela frase para ter a confirmação de uma terrível suspeita.
E caiu de costas.
O quarto encheu-se logo. Todos queriam saber o que havia. D. Januária correu a apoderar-se da filha, e os mais: principiaram a cruzar entre si olhares interrogativos e desconfiados.
Júlia, sem dar mostras do que se passava em torno de si, afastou-se distraidamente e saiu a dizer entre dentes:
— Preso e acusado! Preso talvez para sempre!
E ao entrar no carro que a esperava na porta, abriu a soluçar com desespero.
Recolheu-se a casa, mas não pôde sossegar. A dúvida sobre o destino de Gregório trazia-lhe o espírito em doido sobressalto. Era urgente obter notícias dele naquela mesma noite, fosse de quem fosse, custasse o que custasse, contanto que Júlia soubesse o que era feito do seu Gregório!
E nesta impaciência percorria toda casa; ora ia à janela, ora de um quarto para outro. Chamou duas vezes a criada para mandar à polícia, mas, receando complicar ainda mais a situação, resolveu nada fazer. Afinal pediu a capa e o chapéu, e deliberou sair. Eram já oito horas da noite.
— Lá embaixo talvez conseguisse saber alguma coisa a respeito de Gregório... calculava a viúva, descendo comovida a escadinha do chalé. Mas ao chegar ao jardim, soltou um grito: pareceu-lhe haver distinguido, encostado ao muro e meio escondido na sombra, o vulto de um homem que a observava atentamente. — Ângela! bradou ela para dentro da casa. Ângela! traze luz!
E não pôde acrescentar mais nada, porque as pernas lhe tremiam já e a voz se lhe embaraçava na garganta.
A criada, também, já possuída de susto, apareceu com uma lanterna.
Júlia não se havia enganado. Escondido nas moitas do jardim, estava um homem, que logo se dirigiu humildemente para ela, com o chapéu na mão.
— Ah! Interjeicionou a viúva, recuando aterrada.
— Não se assuste, minha senhora, disse o desconhecido, com muita brandura. Eu não faço mal a ninguém... Sou um pobre velho inofensivo...
E Júlia, ainda não de todo acalmada, viu-lhe com efeito as longas barbas e os cabelos brancos.
— Mas o que fazia você aí? perguntou ela com dificuldade. Fiquei sobressaltada deste modo!...
— Perdoe, minha senhora, foi sem sequer.... respondeu o velho.
— Mas, enfim, que deseja?
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.