Por Aluísio Azevedo (1884)
— É que é duro ficar a gente assim desempregado de um momento para o outro, quando aliás...
— Eu recomendar-te-ei aos meus amigos. Não ficarás desamparado. E se te vires em algum aperto, procura-me...
— É duro! insistia Manuel. — É muito duro! Ah! mas vosmecê me despede porque lhe foram encher os ouvidos a meu respeito!
— Homem, rapaz, é melhor que te vás logo e não me estejas a causticar a paciência. Se te despeço é porque assim o entendo, sebo!
— Qual o que! vosmecê despede-me a mandado da patroa!
— Ó seu mariola! gritou o amo. — Ponha-se já na rua!
— Isto é uma casa de S. Gonçalo... principiou ainda o criado, quando o Borges, perdendo de todo a paciência, saltou sobre ele, e tê-lo-ia rachado com um pontapé, se o respondão não tratasse de ganhar a porta da rua.
— Atrevido! rosnou o Borges. — Insolente! Faltar-me ao respeito! A mim!
No dia seguinte, principiou a escolha do novo pessoal. O Borges, já bastante importunado com ter de suportar comida de hotel, viu-se tonto no meio da chusma de cozinheiros, copeiros, jardineiros, serventes de ambos os sexos e de todas as nacionalidades, que choviam de sul e norte, entre uma algazarra infernal.
A coisa durou dias. Filomena vacilava na escolha — queria gente especial, fora do comum e pronta a cumprir estritamente os seus caprichos, sem tugir nem mugir; ainda que com isso custasse muito mais caro.
Para a cozinha preferia um chim; para o serviço da copa um inglês, um groom legitimo, e para sua criada grave alguma coisa de francesa ou russa ou espanhola, uma criada, enfim, que não fosse de cor, nem tivesse a menor sombra de portuguesa.
— Oh! os portugueses eram incompatíveis com a sua fantasia!
Mas não encontrou gente nessas condições, e, enquanto esperava por ela, resignou-se a tomar para seu serviço uma Cecília, tão brasileira como um Roberto, que foi substituir o Manuel e também como o novo jardineiro, e como o novo copeiro, e como o novo cozinheiro. — Uma lástima! — todos brasileiros!
— Está agora mais satisfeitinha com seu marido?!... perguntou-lhe o Borges meigamente.
— Sim, respondeu ela, deixando-o beijar-lhe a mão. Vais muito bem. Continua, continua dessa forma, que um dia, talvez... consigas captar-me a estima.
— Ora!... balbuciou o mestre de obras, já meio desanimado. — É só "continua! continua!" e as coisas é que vão continuando na mesma!...
E o bom homem, no desespero de merecer as graças da esposa, transformava-se pouco a pouco.
O Guterres, indo visitá-lo, três meses depois do casamento, soltou um grito de estupefação e abriu grandes olhos espantados:
— Que! Pois é o João Borges?!... que metamorfose, meu Deus! que mudança!
E contemplando-o de alto a baixo. Sim senhor! sim senhor! — Está moço e bonito! Onde foi você, seu maganão, arranjar esses bigodes tão pretos e tão petulantes?!
— É que aquela barba por debaixo do queixo principiava a incomodar-me... respondeu o marido de Filomena, abaixando os olhos e enrubescendo.
— Mas agora reparo! tornou o outro. — Fraque à inglesa! colarinho da moda! prastron! meias de cor! polainas! sapatos de verniz! flor à gola! — Bravo! seu João! Bravo! Não há como uma mulherzinha bonita para fazer desses milagres!
E vendo o amigo acender um charuto. — Também fuma?!... Ó senhores! estou maravilhado!
— É... gaguejou o janota à força; — o rapé ultimamente, não me fazia bem...
Dou-me muito melhor com o charuto!...
— E digam mal do casamento!... considerou o Guterres. — Queria que se mirassem neste espelho!
E em resposta a um gesto de impaciência do Borges:
— Não, meu amigo, isto tenha paciência! Em três vidas que você vivesse não me pagaria o serviço que lhe prestei, levando-o à casa da defunta D. Clementina!
— Sim, sim... respondeu o outro, cortando a conversa. — Mas que ordena afinal, o meu amigo?
O Guterres, mudando logo de aspecto, disse então o motivo de sua visita; — se o outro lhe pudesse adiantar ainda uns duzentos mil réis, seria um grande favor...
O Borges coçou a cabeça. — Era o diabo!... As coisas não iam lá muito bem... O casamento trouxera despesas consideráveis!... Agora o negócio fiava mais fino; tinha de pensar no futuro!... os filhos não tardariam por aí...
— Bom, senhor! retorquiu o Guterres, transformando-se de novo. — Bom! Eu também não exijo sacrifícios!...
E deixando escapar aos poucos como o vapor comprimido de uma caldeira, a raiva que se lhe desenvolvia por dentro.
— Desculpe! Desculpe! — Pensei que você fosse o mesmo homem!... ou que pelo menos o fosse para mim... a quem... digo-lhe então!... devia trazer nas palminhas, se... se soubesse ser mais reconhecido!
— Ora, vá plantar batatas! exclamou o Borges, contendo a custo o que tinha para dizer a respeito dos tais favores do Guterres. — Não esteja ai a dizer barbaridades!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.