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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

O Campos, entretanto, não podia descansar com a idéia daquela desgraça. Abandonava tudo, esquecia os próprios interesses para correr às bancas dos advogados, consultando, propondo defesas; mais tonto, mais aflito do que se tratasse de salvar um filho.

A situação relacionara com o Dr. Tavares. O qual, um pouco em represália ao Coqueiro por havê-lo despedido de casa, sem as explicações devidas ao seu alto merecimento, e um, pouco talvez na esperança de lucros pecuniários, mostrava-se ferozmente empenhado na questão. Nunca esteve tão verboso, tão cheio de entusiasmo e tão fecundo em citações latinas. Viam-no, a cada passo, em todos os grupos da Rua do Ouvidor, berrando., gesticulando sobre o assunto, como se tudo aquilo lhe trocasse diretamente.

— É incontestável, exclamava ele a quem lhe caía nas garras, — é incontestável que Amâncio foi vítima de uma arbitrariedade esse delegado das dúzias que, sem mais nem menos, o mandou recolher à prisão, – prevaricou! Prevaricou, principalmente porque Amâncio nada mais fez do que desflorar mulher virgem maior de dezessete anos, o que, perante a nossa lei, não constitui crime! Por cons3efguinte, a prisão preventiva não devia ser efetuada!

E a sua voz, aguda e sistemática, repetindo a palavra friamente obscena da lei, causavas no auditório o efeito vexativo que nos produz um cadáver nu.

Hortênsia já se escondia no quarto, quando o maçante se lhe pespegava em casa.

— Ah! Ele havia de mostrar a esses advogadozinhos de meia- tigela, os quais, mal surge um processo andam se oferecendo como protetores de qualquer uma das partes e comprometendo a causa!- Ele havia de mostrar o que é dignidade e retidão na justiça! E, se não tivesse outro meio, escreveria uma série de artigos, que os poria a todos na rua da amargura! Campos havia de ver!

E, chegando-se para este, em atitude misteriosa:

— Mas o senho, justamente, é que me podia ajudar se quisesse!...

— Ajudá-lo?

— Sim! Nós dois, brincando, dávamos cabo da panelinha do Coqueiro! Que julga? Sei de tudo! — Vi com estes olhos! Sei, melhor que ninguém, como se arrumou a cilada ao pobre moço!

Campos declarou que , em benefício de Amâncio, estava pronto a fazer o que fosse preciso.

— Encarrega-se da publicação dos artigos?! Exclamou o advogado.

— Pago-os até quem os fizer...disse o Campos — contanto que isso aproveitar ao rapaz! Todo o meu desejo é livrá-lo o mais depressa possível! É uma questão de consciência!

— Pois então, meu caro amigo, pode escrever que, ou o seu protegido não sofrerá menor desgosto ou leva o diabo a caranguejola desta justiça de borra! Sou eu quem o afirma! amanhã mesmo trago-lhe o primeiro artigo! Verá! — Está dito!

Mas, nesse mesmo dia, quando o Campos se dispunha a sair de casa, para se entender com o Saldanha Marinho, que parecia resolvido a tomar a causa de Amâncio, entregaram-lhe uma carta.

Era o Coqueiro e dizia simplesmente: “Para que V. S. ª não continue iludido e não se sacrifique por quem não lhe merece mais do que o desprezo, junto remetolhe um documento que nos torna quase companheiros de infortúnio e que lhe dará uma idéia justa do caráter desse moço perverso, cuja intenção aso lado de sua família era desonrá-la como desonrou a minha!”

O negociante desdobrou, a tremer, o papel que vinha incluso, e leu aquela célebre carta subtraída por Amélia, alguns tempos antes.

Não quis logo acreditar no que via escrito. Uma nuvem passara-lhe diante dos olhos. “Mas não havia dúvida! Era a letra de Amâncio, era a letra daquele miserável, por quem ele ultimamente passara dias tão penoso!

— Que ingratidão! E o Campos que o tinha na conta de um rapaz

honesto!...Como vivera iludido!...Agora, dava toda a razão ao Coqueiro! Calculava já o que não teria feito o biltre na casa de pensão!

As tais pontas de Mefistófeles iam desaparecendo da cabeça do irmão de Amélia para se revelarem na cabeça de Amâncio.

— E Hortênsia?! Gritou-lhe de surpresa o coração.

— Ah! por esse lado estava tranqüilo!...Por ela meteria a mão no fogo!— Demais, o teor da carta bem claro mostrava que o infame não conseguira seus lúbricos desígnios! — no desespero brutal daquelas palavras via-se indubitavelmente que a “virtuosa senhora” fechara ouvidos ao malvado!

Mas, como se podia conceber tanta perversidade e tanta hipocrisia em uma criatura de vinte anos?!...E lembrar-se o Campos de que, ainda naquela manhã, nem conseguira almoçar direito, de tão preocupado que estava com o destino de semelhante cachorro!...

Agora, nem de longe queria ouvir falar de Amâncio ou do que a estie se referisse. As sua boas intenções sobre o rapaz fugiram de um só vôo e o coração esvaziou-se-lhe de repente, como um pombal abandonado.

(continua...)

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