Por Aluísio Azevedo (1882)
— Quem?! exclamou o Moreira esquentando-se. Um rapaz que eu cá sei!...
— O senhor está gracejando!... observou ela.
— Por Deus que falo a sério!
— E esse rapaz quem é?
— A senhora o conhece...
— Pode ser, mas eu conheço tanta gente!...
— Ele não está longe daqui...
— Não entendo...
— Um pobre farmacêutico, chamado Moreira; não é rico, nem tem dotes físicos, mas passa por boa pessoa...
— O senhor?! perguntou ela, franzindo as sobrancelhas.
— Sim, minha querida Januária, respondeu ele procurando segurar-lhe uma das mãos. Há muito tempo que estou doido por dizer-te isto, mas...
— Mas como, se o senhor é casado?!
— E que tem isso?... Acaso, por ser casado, não posso tomar conta de uma mulher a quem ame?...
A viúva afastou-se tranqüilamente, sem um gesto de indignação, e, quando chegou à entrada do seu quarto, voltou-se e disse ao Moreira com toda a calma:
— O senhor pode retirar-se e tenha a bondade de não voltar aqui, porque não o receberei. Diga a sua mulher que o vestido de fustão está pronto, e que me desculpe não lhe aparecer mais em casa para ir buscar as outras encomendas.
E fechou-se no quarto.
O farmacêutico ficou a olhar um instante para a porta fechada.
— Ora esta! disse ele afinal e ganhou a rua, aborrecido com aquela decepção, mas instintivamente penetrado de respeito pelo caráter da viúva; o que aliás não impediu que, daí por diante, nem só não lhe desse mais trabalho e não lhe comprasse o fio, como também ainda se empenhasse com alguns seus conhecidos para que fizessem outro tanto.
O resultado foi que a viúva, ao fim de pouco tempo, se achava a braços com um milhão de dificuldades e via, aflita, chegar o momento terrível em que fosse preciso um pedaço de pão para matar a fome, e não houvesse.
Então resolveu alugar-se como criada em casa de alguma respeitável família. Apareceu-lhe arranjo. Era uma gente que morava para além do campo de Santana, nesse tempo ainda muito pouco concorrido.
A princípio custou-lhe bastante afazer-se ao seu novo estado, mas o desejo de viver honestamente, a necessidade ingênita de conservar-se virtuosa, triunfaram de todos os obstáculos, e Januária conseguiu passar alguns anos a servir, sem nunca relaxar os seus princípios de peregrina austeridade.
Quando lhe principiaram a secar as faces, e os lábios começaram a empobrecer de frescura e rubor, foi solicitada por D. Henriqueta dos Santos (aquela com quem se casou Leão Vermelho) para ajudá-la no serviço da sua casa de pensão.
Só a morte da mãe de Clorinda conseguiu separá-las. As duas, como já sabe o leitor, se tinham feito muito amigas. Januária possuía o segredo de viver bem com uma pessoa do seu sexo, o que aliás é muito raro entre mulheres. Era muito condescendente, asseada, ativa, amiga de servir e agradar. Ninguém lhe ouvia uma frase de cólera, ninguém lhe surpreendia um momento de mau humor. O sorriso parecia fazer parte intrínseca de seus lábios; seus olhos eram doces e transparentes como os olhos de uma criança. Naquela fisionomia, calma e cheia de bondade, não havia ressaibo de ressentimento ou de ódio; nela tudo respirava resignação e paciência. As necessidades mortificadoras da sua triste vida não lograram azedarlhe o sangue e derramar-lhe bílis no coração.
Como não seria bom o homem que nascesse dessa mulher. Como não seria feliz a criatura que fosse em pequenina aquecida nas asas daquele anjo! E ela, que possuía todas as sutilezas da ternura, todos os mistérios do amor legítimo e fecundo; ela, que parecia ter vindo à terra só para cumprir um destino de sacrifícios e de abnegação; ela, como não saberia ser mãe! como não saberia dar-se toda ao entezinho querido que lhe saísse das entranhas!
Entretanto Januária nunca desfrutou essa ventura; e quando nasceu Clorinda, ela deu à filha da amiga, à sua afilhadinha, todo o farto tesouro de ternura maternal que lhe enchia o coração.
Não precisa o leitor de que lhe lembremos os sucessos determinados pelo casamento de Leão Vermelho, e sabe decerto, tão bem como nós, que, depois da morte de Henriqueta, a pequenina Clorinda ficou entregue aos cuidados da madrinha, enquanto o desventurado pai fugia para a pátria, desesperado e perseguido.
Foi pouco depois disso que o farmacêutico, já então viúvo e adiantado em anos, vendo-se na contingência de retirar Matilde do colégio e confiá-la a alguma senhora verdadeiramente honesta, se lembrou de procurar a velha Januária e lhe pedir que tomasse conta da abastada órfã.
D. Januária aceitou; o que mais tarde abriu lugar ao namoro de Portela com Matilde.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.