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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

—Ainda se houvesse a hipótese de uma fiança...reconsiderava ele, já em caminho das detenção. — Mas qual! O Dr. Tavares, que lhe levara ao escritório a notícia do escândalo, dissera-lhe que ”o crime era inafiançável e que por conseguinte não se podia evitar a prisão ” Infeliz moço! Infeliz moço! Resmungava o Campos, quase chorando. — Antes nunca ele viesse ao Rio de Janeiro! — Que demônio hei de eu agora escrever à família?...E a pobre D.Ângela?! Coitada, como ficará, quando, em vez do filho, receber a notícia de tanta desgraça?!...Valha-me Deus!

E foi nesse estado que o Campos chegou à Rua do Conde.

Hortênsia não ficou menos impressionada; ao saber do caso empalideceu extraordinariamente e começou a tremer toda. Desde então se tornou apreensiva e nervosa de um modo lastimável; tinha pesadelos, ataques de choro, ameaças de febre e um fastio enorme.

Carlotinha, que se achava nessa ocasião de passeio em casa das Fonsecas de Catumbi, foi logo reclamada a lhe fazer companhia.

Em casa do negociante quase que se não falava de outra coisa que não fosse o processo de Amâncio; pareciam todos empenhados com o mesmo ardor na sorte do “pobre rapaz” Os caixeiros murmuravam pelos cantos do armazém e os criados, sempre desejosos de merecer a atenção dos amos, traziam da rua os cometrários que ouviam ou que inventavam sobre o fato.

E o escândalo, como um líquido derramado, ia escorrendo pelas ruas, pelos becos, penetrando por aqui e por ali, invadindo as repartições públicas, os escritórios comerciais, as redações das folhas e as casa particulares.

Os jornais começavam a explorá-lo.

Na Academia de Medicina e na Escola Politécnica levantavam-se partidos. João Coqueiro bem poucos colegas tinha se seu lado; nem só porque lhe cabia na questão o papel, sempre mais antipático, de agressor, com em virtude de seu gênio insociável e seco. Antigos ressentimentos, que pareciam esquecidos, ressurgiam agora, aproveitando a ocasião para tirar vinganças; daí, — opiniões mal – intencionadas; comentários atrevidos sobre a conduta de Amélia, sobre o caráter mercantil de Mme. Brizard, sobre as velhas brejeirices da Ruas do Resende. Uns se contentavam em fazer conjeturas, outros, porém, tiravam conclusões, e alguns iam ainda mais longe, contando fatos: “Em tal baile do Mozart”, dizia um quartanista de medicina, “estivera com a irmã do Coqueiro, dançara com ela duas valsas e desde então ficara sabendo de quer força era a tal bichinha!...”E seguiam-se pormenores degradantes e revelações descaradas.

Este, sustentava que o João Coqueiro sabia perfeitamente de tudo que lhe ia por casa e que era até o primeiro a mercadejar com a irmã, como seria capaz de fazer com a própria mulher, se houvesse um homem de bastante coragem para afrontar aquele dragão! Estouro, afirmava que lhe não se lamberia com a proteção do carola Teles de Moura, se não foram as legendária relações de Mme. Brizard com o falecido cônego Muniz, ex - redator de um jornal católico.

E choviam as insimulações, as denúncias “Coqueiro era um hipócrita, um jesuíta! — Fingia-se muito devoto na escola para agradar ao professor fulano; defendia a escravidão e a monarquia para lisonjear Beltrano; — Se entrava numa pândega com os companheiros, no outro dia punha-se a dizer que só ele não se embebedara e não fizera papel triste! — se lhe tocavam mulheres, o velhaco abaixava os olhos e ficava todo estomagado, e debaixo da capa de santarrão, ia fazendo das suas! — Era um cão! Um tartufo!

Toda essa má vontade contra o João o coqueiro redundava em benefício de Amâncio, por quem alguns estudantes pareciam sentir verdadeiro entusiasmo. Na faculdade de Medicina não se encontrava um sé rapaz em favor daquele; ao passo que este tinha por si quase toda a Politécnica. Nas duas escolas falava-se muito em “exploração, em roubo, em piratagem”. A cifra dos bens de Amâncio, à medida que passava de boca em boca, ia tomando proporções fabulosas, faziam-na de mil, quatro mil, dez mil contos de réis. O Paiva era agora requestado pelos colegas, como um boletim sanitário que traz os últimos telegramas da guerra. Por saberem de sua intimidade com o réu e das visitas cotidianas que ele fazia à casa de correção, não o largavam um só instante; cercavam-no, cobriam-no de perguntas “Como estava Amâncio, se triste, abatido, desesperançado, ou se alegre, indiferente, risonho?!...E a tal Amelinha dos camarões?...que fazia/ como se portava no negócio? — ia visitar o amante? Escrevia-lhe? aparecia a algum! Comprazia-se com desdita do preso ou era solidária nos sofrimentos dele?”

Paiva respondia para todos os lados, não tina mãos a medir; os espíritos, porém, longe de se acalmarem com isso, mais se sofregavam e acendiam. A impaciência tomava o lugar da curiosidade; um sobressalto febril, de jogo, preava o coração dos estudantes; os ânimos palpitavam na expectativa de um, desfecho escandaloso. Previam-se, com arrepios de gozo antecipado, o impudico espetáculo dos depoimentos , as brutais declarações dos médicos e todo o cortejo descomposto de um, júri de desfloramento.

O artigo 222 do Código Criminal lá estava pairando nos ares, cínico e espetaculoso como o flammeum de Nero no banquete de Tigelino.

* * *

(continua...)

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