Por Aluísio Azevedo (1884)
Amâncio, porém, logo que foi novamente interrogado, negou: 1.º — Que conhecesse as duas testemunhas deponentes contra ele;2.º — Que em tempo algum houvesse sucedido o que elas afirmavam; 3.º — Que tivesse empregado violência contra Amélia; 4.º — Que fizesse promessa de casamento a quem quer que fosse e debaixo de quaisquer condições. E confirmou: 1.º —Que em a noite, não de 16, mas de 2o de julho daquele ano, estabelecera relações carnais com a queixosa; 2.º— Que nessa noite, permanecendo de pé o conchavo de uma entrevista combinada entre eles, Amélia, logo que a casa se achou de todo recolhida, apresentara-se-lhe no quarto e aí ficara até às cinco horas da manhã, sem mostrar durante esse tempo o menor indício de contrariedade, e parecendo, aliás, muito satisfeita e feliz com o que se dera, como se alcançara a realização do seu melhor desejo; 3.º— Que de tudo isso nada absolutamente terias sucedido, se Amélia não o perseguisse com os seus repetidos protestos amorosos, com as suas provocações de todo o instante, chegando um dia a surpreendê-lo à banca do trabalho com uma aluvião de beijos! Que não teria sucedido, se todos os de casa, todos!- o irmão, a cunhada, ela, o César, os fâmulos, não concorressem direta ou indiretamente para aquilo, armando situações, preparando conjunturas arriscadas para ambos, explanando ocasiões escorregadias, nas quais fora inevitável uma queda!
E Amâncio acrescentou, arrebatado pela correnteza de suas palavras:
— Nada disso teria acontecido, senhor Juiz, se me não desafiassem, se me não sobressaltassem os instintos, atirando-a a todo momento contra mim; se nos não empurrassem um para o outro, com insistência, com tenacidade, deixando-nos a sós horas e horas consecutivas, fazendo-a enfermeira ao lado de minha cama; pespegando-a todos os dias, todas as noites, diante de meus olhos, ao alcance de minhas mãos, — enfeitada, perfumada, preparada, como uma armadilha, com uma tentação viva e constante!
O delegado observou discretamente que Amâncio se excedia nas suas declarações; mas o auditório, na maior parte formado de estudantes, protestava, atraído por aquela setentrional verbosidade que enchia toda a sala.
Rebentavam já daqui e dali, algumas exclamações de aplauso. E a voz do nortista, irônica e crespa no seu sotaque provinciano, ainda se fez ouvir por alguns instantes, em meio do quente rumor que se alevantava.
— Ah! Por Deus! Por Deus, que bem longe estava ele de imaginar um fim tão dramático àquela comédia! Bem longe estava de imaginar que, depois de o escodearem por tantas maneiras; já o fazendo chefe de uma família que não era a sua; já lhe exigindo a compra de uma casa, exigindo vestidos, jóias, carros, dinheiro para despesas diárias, dinheiro para a botica, dinheiro para o açougue, para o médico, para tudo! — ainda se lembrassem de extorquir-lhe a coisa única que até aí não haviam cobiçado — seu nome! — o nome que herdara de seus pais! — Bravo! Bravo! Muito bem!
E a matinadas dos estudantes rebentou com entusiasmo, sufocando os novos protestos que apareciam. O delegado reclamava silêncio, e Amâncio, muito pálido, a resta luzente de suor, tinha os braços cruzados, a cabeça baixa, numa atitude dramática de altiva resignação.
Findo o inquérito e dada a queixa, o sumário caminhou sem mais incidente. Todavia, o provinciano, sempre que era interrogado, deixava-se arrebatar como da primeira vez.
As testemunhas, com mais ou menos tergiversação, reproduziam as suas patranhas; concederam-se os dias da lei ao indiciado, para que juntasse a sua defesa escrita e os seus documentos; e, afinal, subiram os autos à Relação, onde foi sustentada a pronúncia, e o processo esperou que designassem a sessão em que Amâncio teria de entrar em julgamento.
CAPÍTULO XX
O acidente de Amâncio causou enorme impressão nos seus conhecidos. Campos, ao receber a notícia, ficou fulminado e atirou-se no mesmo instante para a casa de correção, sem mais se lembrar de que nesse dia estava cheio de serviço até os olhos.
Seu primeiro ímpeto foi de repreender severamente o culpado, verberar-lhe com energia a “ação indigna” que acabava de praticar; mas pouco depois, veio-lhe uma grande comiseração. “Porque, enfim, coitado, o pobre moço era ainda uma criança...naturalmente fraco...e daí...Quem sabia lá o que teriam feito para o precipitar naquele crime?...
“Sem saber por que, afigurava-se-lhe que o papel de vítima cabia mais a Amâncio do que ao Coqueiro. Este surgia-lhe agora à imaginação, como um Satanás de mágica que deixou fugir de repente, pelo alçapão do teatro, a sua túnica de bom velho peregrino.
Seria até capaz de jurar que, a despeito do disfarce, já de muito lhe havia bispado a saliência dos cornos diabólicos por debaixo do religioso capuz. E pequeninos fastos, que até aí jaziam dispersos e abandonados no seu espírito , vinham, acordando de repente, justificar semelhante transformação.
— Sim! Já em certa época descobrira no Coqueiro tais e tais sintomas de hipocrisia; ouvira-lhe tais e tais frase que o fizeram desconfiar de seu caráter!... não tina que ver! - Já lá estavam as tais pontas diabólicas a espetar o capuz!
E arrependia-se de não haver em tempo desviado o pobre Amâncio daquele perigo: – Andara mal! Devia preveni-lo!...devia ter dado qualquer providência a esse respeito!...
E voltando-se contra si:
— Mas, onde diabo tinha eu esta cabeça, para não ver logo que um homem, — que se casa especulativamente com uma velha do feitio de Mme. Brizard; um homem que consentir à irmã receber presentes e mais presentes de um estranho; um homem que especula com tudo e com todos, um maroto! — Não se mostraria tão agarrado ao rapaz, senão com o propósito firme de lhe pregar alguma?!...Oh! andei mal! Andei mal, como um pedaço de asno!...
E apressou-se a socorrer a ‘Pobre vítima”.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.