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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

O testamento do comendador Ferreira causou muita impressão; era um testamento original. O pobre homem fora surpreendido pela morte, justamente na ocasião em que reunia os seus papéis e formulava as suas disposições. Encontraram um aglomerado de notas e declarações.

Havia várias referências. O falecido deserdava a mulher, porque se casara com escritura de separação perpétua de bens. Referia-se o testador a uma declaração de Luiz Portela, a qual não apareceu no lugar indicado; havia também uma referência acerca de certo cofre de ferro, contendo cinco mil libras esterlinas, que o falecido legava à sua filha Olímpia. O cofre não apareceu igualmente.

Deram-se logo as providências para se proceder a inquérito no empregado que se encarregara da escrita do comendador e no pessoal da casa. João Rosa estava ausente.

Constava ainda, nas disposições do morto, de um legado de vinte contos destinados ao advogado que se quisesse encarregar de proceder contra Portela. E, no caso que esse dinheiro não pudesse ter semelhante aplicação, deveria reverter, no fim de dez anos, em beneficio do Gabinete Português de Leitura. Isso mesmo dizia o falecido em uma carta dirigida à redação do Jornal do Comércio.

O mais eram disposições sobre bens móveis e imóveis.

Portela achou muito prudente ir à Europa buscar um novo sortimento de vinhos. Mas um amigo seu, entendido em tricas do foro, afiançou-lhe que as declarações do comendador não faziam fé perante a lei.

E Portela que estivesse descansado: não lhe poderia suceder por aí violência alguma.

O homem, porém, não se tranqüilizou com isso, e deu de velas para Portugal. O que ele temia não era precisamente ter de cumprir com as determinações do defunto, mas era cair no ridículo e desmoralizar-se aos olhos da mulher a quem pretendia para esposa: aquela agregada da casa de D. Januária, de quem vamos agora tornar a falar.

Chamava-se Matilde.

Não conhecera os pais. O tutor havia três anos, quando ela tinha quinze, retirou-a do colégio para a confiar aos cuidados da velha Januária.

Esse tutor era um velho farmacêutico, que enriquecera a curar feridas de mau caráter a cinco mil réis por cabeça. Homem de inalterável economia e de uma saúde inquebrantável. Poucas pessoas, raríssimas, o conheceram mais moço. Há vinte anos era aquilo mesmo que se via agora.

Cabelos curtos, grisalhos, cara toda raspada, boca seca, dentes magníficos, ombros largos, pouca barriga e pouca estatura. Enviuvara aos quarenta anos para nunca mais casar. Agora tinha setenta. A esposa não lhe deixara filhos, mas ele arranjara dois naturais, um dos quais trabalhava em sua companhia na farmácia; o outro nunca tomara caminho, caíra na vagabundagem e era de vez em quando recolhido à estação de polícia, bêbedo.

O velho chegara-lhe ao pêlo por várias vezes uma bengala de cana da Índia, que trazia sempre consigo. Mas da última o peralta ganhara a rua, gritando ao pai que, em vez de lhe abrir feridas nas costelas, melhor seria que as fosse fechar aos fregueses! E nunca mais apareceu.

O farmacêutico também não queria ouvir falar em semelhante biltre: "Que o leve o diabo!" resmungava ele, quando alguém lhe levava notícias do filho. "O governo é que há muito tempo lhe devia ter pregado o côvado e meio de cano às costas. Para não ser ruim! Peste de um vadio!"

O farmacêutico era muito excêntrico, era um tipão: não tirava da cabeça o seu grande chapéu de pêlo de seda, cuidadosamente alisado. Às seis horas da manhã já estava de pé ao balcão da botica, a curar feridas, a despachar receitas, a misturar ungüentos e embolar pílulas; às nove horas subia para almoçar, e mal terminado o almoço, voltava ao trabalho, sem nunca descobrir a cabeça. O jantar era justamente a mesma coisa que o almoço, com a diferença das horas. De resto não ia a teatros, não visitava ninguém que estivesse de saúde, e o tiro das nove da noite já o encontrava dormindo, não de chapéu, mas de barrete de algodão; o outro, o seu companheiro de todo o dia, o chapéu, esse descansava então ao lado da cama, dentro de uma caixa de couro.

Era muito popular, muito conhecido, se bem que pouco estimado. Contavam dele algumas anedotas engraçadas e pequeninos fatos de grande miséria.

As circunstâncias que fizeram dele tutor de Matilde, não podem interessar a ninguém. A rapariga era filha de um sujeito, outrora seu caixeiro, e que lhe pedira na hora da sua morte tomasse conta da pequenita. Como o agonizante deixava para aí fortuna superior a quatrocentos contos, o farmacêutico encarregou-se da tutoria, chegando-se mais tarde a dizer até, pela boca pequena, que ele especulava com os bens da órfã.

Contos largos! O certo é que Moreira, tal se chamava o farmacêutico, por mais de uma vez dera aos demônios semelhante massada, e jurara, sem tirar o chapéu da cabeça, que nunca mais cairia na esparrela de se fazer tutor de ninguém!

"Nem de meu próprio pai, que se apresentasse!" bradava ele cheio de indignação.

Entretanto Matilde bem pouco lhe poderia dar que fazer, porque era de seu natural não exigente e sumamente dócil.

(continua...)

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