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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Agora nossa conta, continuou Seixas desdobrando uma folha de papel. A senhora pagou-me cem mil cruzeiros; oitenta mil em um cheque do Banco do Brasil que lhe restituo intacto; e vinte mil em dinheiro, recebido há 330 dias. Ao juro de 6% essa quantia lhe rendeu Cr$ 1.084,71. Tenho pois de entregar-lhe Cr$ 21.084,71, além do cheque. Não é isto? 

Aurélia examinou a conta corrente; tomou uma pena e fez com facilidade o cálculo dos juros. 

- Está exato. 

Então Seixas abriu a carteira e tirou com o cheque vinte e um maços de notas, de mil cruzeiros cada um, além dos quebrados que depositou em cima da mesa:

- Tenha a bondade de contar. 

A moça com a fleuma de um negociante, abriu os maços um após o outro e contou as cédulas pausadamente. Quando acabou essa operação, voltou-se para Seixas e perguntoulhe como se falasse ao procurador incumbido de receber o dividendo de suas apólices.

- Está certo. Quer que lhe passe um recibo? 

- Não há necessidade. Basta que me restitua o papel da venda. 

- É verdade. Não me lembrava. 

Aurélia hesitou um instante. Parecia recordar-se do lugar onde havia guardado o papel; mas o verdadeiro motivo era outro. Consultava-se, receosa de revelar sua comoção, caso se levantasse. 

- Faça-me o favor de abrir aquela gaveta, a Segunda. Dentro há de estar um maço de papéis atado com uma fita azul... justamente!... Não conhece esta fita? Foi a primeira coisa que recebi de sua mão, com um ramo de violetas. Ah! Perdão; estamos negociando. Aqui tem seu título. 

A moça tirara do maço um papel e o deu a Seixas, que fechou-o na carteira. 

- Enfim partiu-se o vínculo que nos prendia. Reassumi a minha liberdade, e a posse de mim mesmo. Não sou mais seu marido. A senhora compreende a solenidade deste momento? 

- É o da nossa separação, confirmou Aurélia. 

- Talvez ainda nos encontremos neste mundo, mas como dois desconhecidos. 

- Creio que nunca mais, disse Aurélia com o tom de uma profunda convicção. 

- Em todo o caso, como esta é a última vez que lhe dirijo a palavra, quero dar-lhe agora uma explicação, que não me era lícita há onze meses na noite do nosso casamento. Então eu faria a figura de um coitado que arma à compaixão de uma senhora que pisava aos pés a minha probidade, não acreditaria uma palavra do que então lhe dissesse.

- A explicação é supérflua. 

- Ouça-me; desejo que em um dia remoto, quando refletir sobre este acontecimento, me restitua uma parte da sua estima; nada mais. A sociedade no seio da qual me eduquei, fez de mim um homem à sua feição; o luxo dourava-me os vícios, e eu não via através da fascinação o materialismo a que eles me arrastavam. Habituei-me a considerar a riqueza como a primeira força viva da existência, e os exemplos ensinavam-me que o casamento era meio tão legítimo de adquiri-la, como a herança e qualquer honesta especulação. Entretanto assim, a senhora me teria achado inacessível à tentação, se logo depois que seu tutor procurou-me, não surgisse uma situação que aterrou-me. Não somente vi-me ameaçado da pobreza, e o que mais me afligia, da pobreza endividado, como achei-me o causador, embora involuntário, da infelicidade de minha irmã cujas economias eu havia consumido, e que ia perder um casamento por falta de enxoval. Ao mesmo tempo minha mãe, privada dos módicos recursos que meu pai lhe deixara, e de que eu tinha disposto imprevidentemente pensando que os poderia refazer mais tarde!... Tudo isto abateu-me. Não me defendo; eu devia resistir e lutar; nada justifica a abdicação da dignidade. Hoje saberia afrontar a adversidade, e ser homem; naquele tempo não era mais do que um ator de sala; sucumbi. Mas a senhora regenerou-me e o instrumento foi esse dinheiro. Eu lhe agradeço. 

Aurélia ouviu imóvel. Seixas concluiu: 

- Eis o que pretendia dizer-lhe antes de separarmo-nos para sempre. 

- Também eu desejo que não leve de mim uma suspeita injusta. Como sua mulher, não me defenderia; desde porém que já não somos nada um para o outro, tenho o direito de reclamar o respeito devido a uma senhora. 

Aurélia referiu sucintamente o que Eduardo Abreu fizera quando falecera D. Emília, e a resolução que ela tomara de salvá-lo do suicídio. 

- Eis a razão, por que chamei esse moço a minha casa. Seu segredo não me pertencia; e entre mim e o senhor não existia a comunidade que faz de duas almas uma. 

Aurélia reuniu o cheque e os maços de dinheiro que estavam sobre a mesa. 

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