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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Olímpia parecia reanimada com os sobressaltos daquela viagem. Vivia alegre, esperta, falava com vivacidade, preparava-se com muito interesse, consultava os guias de viajantes, estudava mapas da Europa, discutia sobre as roupas que mais convinha levar. À mesa não se tratava doutra coisa; imaginavam-se peripécias, calculavam-se os episódios que haveriam de surgir quando se afastassem do Brasil.

Dois dias antes da saída do vapor, o comendador passara a manhã todo ocupado no seu gabinete. Interrompeu o trabalho para almoçar, porém mal sorveu o último gole de chá, recolheu-se de novo, fechando a porta sobre si, depois de recomendar que o não interrompessem.

Gregório ficou à mesa com Olímpia. Não disseram palavras por alguns segundos, mas quedaram-se a olhar um para o outro, embevecidos, enamorados.

— Tu gostas muito de mim?... murmurou ele afinal, segurando-lhe uma das mãos.

— Se gosto!... respondeu ela, ameigando os olhos.

Mas tiveram logo de mudar de atitude, porque o copeiro apareceu para levantar a mesa.

Olímpia propôs que se passassem para a sala de trabalho. Gregório acompanhou-a.

— Sabes de uma coisa? segredou-lhe a filha do comendador, assim que se viu a sós com ele. Tu ainda és muito tolo!...

— Por quê? perguntou Gregório, tomando-a pela cintura.

— Por muitas coisas... respondeu ela, com a voz alterada... Às vezes tenho receio do futuro! Tu és muito criança!...

— Que tem isso, se te adoro, minha Olímpia?

— Tenho medo das conseqüências! Quando me lembro do modo austero pelo qual eu própria acusava as mulheres levianas.. fico envergonhada, acredita!

— Não penses nisso!...

— Não posso deixar de pensar. É tão bonito uma mulher conservar-se honesta!...

— Não penses nisso, repetiu Gregório, procurando chamá-la ao amor.

Olímpia ia abandonar-se, quando um barulho surdo, de corpo que cai no soalho, a sobressaltou.

— Que é isto?! exclamou ela, correndo para a porta, trêmula.

Jacó e os outros servos haviam já acudido ao estranho ruído. O choque partira do quarto do comendador. Jacó começou a bater na porta do gabinete. Ninguém respondia.

— Que sucedeu a meu pai?! gritou Olímpia, já muito pálida, sem poder dar mais um passo, porque o corpo lhe tremia todo.

Ouviram-se então uns roncos guturais dentro do gabinete.

— Ai! gritou Olímpia, perdendo os sentidos e estrebuchando. Gregório apoderou-se dela, enquanto os criados arrombavam a porta do quarto do comendador.

Encontraram-no estendido no chão, roxo, com os olhos no branco, a boca aberta, a língua inchada, e os membros contraídos. A burra estava afastada do seu lugar, via-se o segredo da parede aberto e vazio. Sobre a mesa papéis revoltos. O quarto em desordem, denunciava que pouco antes houvera ali a busca desesperada de qualquer objeto.

CAPÍTULO XXVIII

PERPÉTUAS, VIOLETAS E CAMÉLIAS

A casa ficou logo numa grande atrapalhação. Olímpia foi conduzida em gritos para o seu quarto. Dois criados correram a chamar o primeiro médico que encontrassem, e Jacó ajoelhou-se soluçando ao lado do amo.

Ninguém mais se entendia. Figueiredo, que fora prevenido da catástrofe, apresentou-se esbaforido, a perguntar o que sucedera naquela casa. Ninguém sabia explicar o que era.

Chegou afinal o médico. O comendador passou carregado para a alcova, e o seu ex-sócio, com o bom senso prático de que dispunha, tratou logo, inalteravelmente, de vedar a quem quer que fosse a entrada no gabinete.

Mais tarde apareceram outros facultativos e começaram logo a chegar visitas de amizade.

Olímpia ficou prostrada de febre; as crises repetiam-se-lhe quase sem intermitência. O Dr. Dermeval não lhe abandonava a cabeceira.

O comendador expirara à meia-noite, depois de esgotados todos os recursos da medicina; e, como não pudessem contar com a filha, que continuava sem dar acordo de si, o subdelegado da freguesia, acompanhado de competente escrivão, mandou proceder à aposição dos selos nas portas do gabinete em que se achava o incompleto testamento do morto.

Só dois dias depois, quando alcançaram cinco testemunhas, a mesma autoridade tornou a abrir as portas, para se formar o testamento nuncupativo.

Olímpia por esse tempo havia sido conduzida já para a casa do Figueiredo.

Não lhe disseram que o pai deixara de existir.

O enterro saiu às cinco horas da tarde do dia imediato ao falecimento do comendador. Foi muito concorrido. O comércio abalou-se; os carros formaram uma serpente negra, que se estendia por toda a praia de Botafogo. Um poeta da época, amigo de algum dos caixeiros do Figueiredo, recitou uma poesia, de que se falou depois, entre negociantes, com muito agrado, e o Jornal do Comércio publicou, na sua parte ineditorial, um artigo sério a respeito do falecido, pondo-lhe em relevo as qualidades práticas, as suas virtudes de pai de família e os serviços que ele em vida prestara ao Brasil, como sócio benemérito de várias instituições filantrópicas.

(continua...)

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