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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Pois bem, senhor doutor! Exclamou o outro, puxando com ambas as mãos, contra o peito, o seu chapéu de feltro. — Pois bem! Essa menina, que era todo o meu orgulho, que era como o documento vivo do bom cumprimento de meu dever...essa menina, que eduquei sob os maiores sacrifícios...essa pobre menina... — Que fez? Perguntou o velho muito calmo. — Arribou de casa?...

Não senho, acaba de ser vítima da maior traição, da mais degradante maldade, que...

— Mas, afinal, o que houve?...interrogou o doutor, fugindo às preliminares.

— Foi desvirtuada por um rapaz, um colega meu, que , há coisa de um ano, hospedei, por amizade, debaixo de minhas telhas!...

— E ele? Perguntou o advogado, sem se comover.

— Ele já está de passagem comprada para o Maranhão e foge amanhã mesmo, se não houver uma alma reta e caridosa que lhe embargue a viagem.

— Ela ficou pejada?

— Não senhor.

— É menor?

— Tem vinte e três anos, respondeu o queixoso, triste porque sua irmã não tinha menor idade.

— Está o diabo!...Resmungou a raposa; espetando os dentes com o palito. — E ele?

— Ele tem vinte e um. — Feitos?

— Feitos, sim senhor. — Bem.

E acendeu um cigarro que levara a preparar lentamente.

— É o diabo!...repisava. — Não se pode fazer nada, sem a verificação do fato...É o diabo!!

E calaram-se ambos. O velho a pensar; o outro, de cabeça baixa, o aspecto infeliz, a choramingar baixinho.

— Ele tem recurso? Perguntou aquele afinal.

— É rico, bastante rico, respondeu o Coqueiro, sem tirara os olhos do chão.

— Emancipado?...

— Totalmente. órfão de pai! É até sócio comanditário de uma importante casa comercial. Tem para mais de quatrocentos contos de réis.

— Bem. Arranja-se a queixa – crime. Olhe! Deixe-me aí o seu nome, o dele, o da vítima, o dos competentes pais, se os tiverem, as respectivas moradas, profissões, etc., etc. Enfim a substância da queixa...

— O senhor doutor acha então que...

— Veremos! Veremos o que se pode fazer!...Não perca tempo — escreva.

Coqueiro escreveu prontamente, interrompendo-se de vez em quando o para pedir informações.

— Está direito! Sussurrou o advogado, correndo os olhinhos pelas folha de papel que o outro lhe acabava de passar. — Pode ir descansado. Vá.

E seu todo impaciente estava a despedir a visita. Esta, porém, fazia não dar por isso e desejava mais esclarecimentos; queria saber ao certo o tempo que deitaria aquela questão. “Se era de esperar que Amâncio cassasse com a vítima; se havia recursos na lei para o perseguir, etc., etc. ”

O velho palitou os dentes mais vivamente. — “Que diabo! Um processo era um processo! Tinha de percorrer todos os competentes sacramentos! Não se chegava ao fim, sem passar pelos meios!...Amâncio podia furtar-se à citação, esconder-se; os oficiais de justiça eram tão fáceis de ser comprados!...tão ordinários!...vendiam-se por qualquer lambujem, por um relógio, por um pouco de dinheiro!...”

E principiou a encarecer a causa, grupando termos jurídicos, apontando dificuldades. Sua voz transformava-se ao sabor daquela terminologia especial. “Em primeiro lugar tinham de apresentar uma queixa perante o Juiz de Direito do distrito criminal. Deferida a petição, intimar-se-ia o indiciado para a audiência que se designasse”. — E os interrogatórios? E a pronúncia? E os recursos?...Enfim havia de se fazer o que fosse possível!...

— E por enquanto...acrescentou o chicanista, consultando apressado o relógio — não tenho de meu nem mais um segundo!

E despedindo o outro com um aperto de mão:

— Olhe! Procure-me logo mais na polícia, ao meio-dia. Estou lá à sua espera. — Pode ir descansado. Adeus!

E empurrando-o brandamente:

— Não deixe de ir, hein?...Meio-dia em ponto! Adeus! Desculpe!

Coqueiro saiu, mastigando agradecimentos.

Estava agora mais tranqüilo; — a fama do Dr. Teles de Moura enchia-o de esperanças radiosas. “Sua causa não podia cair em melhores mãos!”

* * *

E a verdade é que ele, industriado pela raposa velha, obteve um mandado de notificação, obrigando Amâncio a comparecer na polícia, imediatamente, para investigações policiais, e peitou o oficial de justiça e arranjou dois secretas e, afinal, o amante da irmã foi conduzido à presença do delegado de semana e daí levado à detenção, donde só sairia para responder ao primeiro interrogatório..

O advogado requereu corpo de delito na ofendida e, para a seguinte audiência, o comparecimento dos outros dois inquilinos que, por ocasião do crime, moravam na casa de pensão, — O Dr. Tavares e o guarda-livros.

(continua...)

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