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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Oh! minha senhora, disse Gregório levantando-se; eu teria o maior prazer em...

— Sim, mas eu, repito, é que não consentiria!

E, quando ela ficou só com o pai, lhe perguntou logo que idéia extravagante era aquela de convidar um estranho para a viagem.

— Estranho é o que estás dizendo, menina? É a primeira vez que te vejo falar assim desse pobre moço. Tu te mostravas tão amiga dele; ficavas tão satisfeita quando ele te aparecia; sempre achavas bem escolhidos os livros, os jornais e as gravuras que ele te ofertava, e agora chamas extravagância convidá-lo para nos fazer companhia! Pensei até que, convidando-o te fosse eu muito agradável; além de que, eu e o Jacó nem sempre poderíamos em viagem estar ao teu lado, conversar contigo, e o Gregório coitado, parecia-me excelente para isso; mas, uma vez que já não pensas em viajar, nem precisamos estar aqui a falar ainda em semelhante coisa!...

— Não. Eu estou disposta a fazer a viagem; ainda há pouco disse aquilo para não ter de declarar francamente que não aceitava a companhia de Gregório.

— Isso agora é que é o diabo! resmungou o comendador; já convidei o rapaz, ele não queria ir; insisti, afinal aceitou. Ora, com que cara vou eu dizer-lhe que fica o dito por não dito?! que diabo de desculpa lhe posso eu dar?!

— Pois então não dê desculpa nenhuma! não se fará a viagem!

— Mas tu tens alguma razão de queixa do Gregório?...

— Eu não tenho razão de queixa de ninguém!

— Mas então por que não queres que ele vá, minha filha? Se a tua viagem é um pretexto de distração, que mal faz mais um companheiro?

— Temos outra! disse ela. Pode o senhor provar quantas vezes quiser que será melhor levarmos o Gregório em nossa companhia, eu entendo que não e declaro que não estou disposta a ser contrariada!

— Está bom, não te zangues, minha filha; Gregório não irá conosco! Eu retirarei o convite que fiz.

No dia seguinte, com efeito, o comendador remeteu ao moço uma carta muito atenciosa, dizendo que havia pensado bem no sacrifício que exigira dele e estava agora resolvido a não o aceitar.

Gregório compreendeu tudo, mas dissimulou. À noite apareceu em casa do comendador e Olímpia o recebeu friamente. Durante o serão não lhe dirigiu a caprichosa uma só vez a palavra.

O rapaz voltou dessa visita muito contrariado e triste.

Não pôde dormir; a imagem de Olímpia não lhe saía da cabeça.

— Sou mesmo um idiota! repetia ele, a voltar-se de um para outro lado da cama. Sou um idiota! ela tem toda a razão! Pois se a desejo, se a adoro e se me não posso fazer seu marido, porque a repeli tão asnaticamente?

No dia imediato apresentou-se de novo em casa do comendador, às mesmas horas do célebre episódio do álbum. O velho, como então, fazia a sua sesta; Olímpia passava os olhos por um livro, assentada no jardim, debaixo de um caramanchão.

Gregório entrou sem ser sentido, encaminhou-se para ela, pé ante pé, e, quando a teve ao seu alcance, deu um salto para a frente e surpreendeu-a com um beijo na boca.

Pela noite desse mesmo dia, quando Gregório se retirou da casa do comendador, Olímpia disse ao pai que já estava resolvida a consentir na viagem em companhia do rapaz.

— Então para que me obrigaste a destruir o meu convite?... Ora aí está uma dessas coisas com que deveras me aborreço!

— Mudei de resolução! respondeu Olímpia, sem erguer os olhos.

— Tanto pior para ti, replicou o pai, porque agora o passo está dado! Eu não hei de voltar atrás ainda uma vez! Havia de parecer caçoada; além do que, ele com certeza não aceitaria!...

— Encarrego-me eu do convite, disse Olímpia, sem se perturbar.

— Estou pressentindo é que acabarás por me fazeres ridículo aos olhos daquele moço.

No dia seguinte estavam de mudança para Botafogo. A viagem ficara resolvida para a primeira quarta-feira. Iriam para Lisboa em um paquete francês que havia de sair nesse dia.

Não fizeram itinerário. Demorar-se-iam em cada lugar o tempo que lhes apetecesse. Se Olímpia aproveitasse com a viagem, eles seguiriam adiante, iriam a Paris, talvez chegassem à Inglaterra. Não sabiam ainda se teriam de demorar meses ou anos.

A casa de Botafogo ficara em uma grande desordem. Durante os poucos dias que precediam à viagem, o comendador não podia descansar um instante. Era preciso ordenar seus negócios, escrever cartas para a direita e para a esquerda, passar procurações, fechar o testamento e deixá-lo em poder do Figueiredo.

Quatro dias era muito pouco tempo para tanta coisa. Mas o velho não descansava.

(continua...)

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