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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Estava comovido, principiava a sentir pena de deixar a Corte; apareciam-lhe saudades das boas noites com Amélia, das patuscadas com os amigos. E um mundo de recordações formava-se e transformava-se atrás dele, fugindo, desaparecendo como sombras que se esbatem.

Para disfarçar a impressão desagradável de tais mágoas, procurava embriagar-se com a idéia das aventuras que o esperavam na província, grupando na fantasia tudo aquilo que o pudesse interessar de qualquer modo; e compunha, e construía, inventava episódios, cenas, dramas inteiros, nos quais lhe cabia sempre a principal figura. E, depois de bem mergulhado nos seus devaneios, depois de bem envolvido na alacridade de seus sonhos de glória, o Maranhão aparecia-lhe risonho e brilhante como a última expressão do que há de melhor sobre a terra

Mas, na ocasião em que se apeava, um tipo mal – encarado, olhando por cima dos óculos, a barba grisalha, um tom geral de porcaria no seu velho fato de pano preto, nas sua botas alcacanhadas, no seu chapéu de pêlo cheio de manchas amarelas, aproximou-se dele e, com voz enxuta e morfanha, intimou-o “a comparecer imediatamente em presença do delegado de semana na secretaria de polícia”. Era um oficial de justiça.

— Mas que desejam de mim?...perguntou o estudante, empalidecendo e procurando o Paiva com os olhos.

— Eu não tenho nada com a polícia!

E recuou dois passos.

— O senhor está intimado! Repetiu secamente o outro, e, em voz baixa, disse a dois sujeitos que se haviam adiantado: - Cerca! Cerca o homem!

Então aqueles avançaram logo, jogando o corpo num pé só, o chapéu para trás, um grosso porrete na mão.

— Comigo é onze! Exclamou um deles, muito canalha, a cuspilhar para os lados.

— Mas por que me prendem?!...perguntou o estudante, sentindo-se tolhido. — São coisas!... responderam-lhe, fazendo-o entrar no carro.

Amâncio ainda procurou descobrir o Paiva; depois, azoinado pela gentalha que se reunia em torno dele, saltou para a almofada, perseguido sempre pelos três sujeitos.

O oficial segredou alguma coisa ao cocheiro, e o carro deu volta e rodou em sentido contrário aso cais.

Amâncio cobriu o rosto com o lenço e principiou a soluçar.

* * *

Coqueiro, desde a prevenção que lhe fez a irmã, não se descuidou mais um instante de vigiar a sua presa: segui-lhe os passos, farejando, até o momento em que Amâncio tomou o bilhete de passagem para o Norte.

Então, correu para à casa do Dr. Teles de Moura.

O Teles era um advogado velho, muito respeitado no foro; não pelo caráter, que o não mostrava nunca, nem pela sua ciência, que a não tinha; nem tampouco pelos seus cabelos brancos, que a estes nem ele próprio respeitava, invertendo-lhes a cor; mas sim pela sua proverbial sagacidade, pelas suas manhas de chicanista, pela sua terrível figura de raposa velha, pelos sues olhinhos irrequietos e matreiros, pelo seu nariz à bico de pássaro e pela sua boca sem lábios, donde a palavra saía seca e penetrante como uma bala.

O passado do Teles era toda uma legenda de vitórias judiciais; atribuíam-lhe anedotas mais antigas de que ele; muito processo se anulou naquelas unhas aduncas e tamanduá; muito criminoso escapou às penas da lei por entre as malhas das sua astúcia; muito inocente foi parar à cadeia ensarilhado nas pontas de seus sofismas.

Para ele não havia causas más; em suas mãos qualquer processo se enformava ao capricho dos dedos como uma bola de miolo de pão.

E o irmão de Amélia sabia de tudo isso perfeitamente quando lhe foi bater à porta.

Seriam então nove horas da manhã, a raposas almoçava.

Coqueiro esperou um instante e, só terminado o barulho dos pratos, animouse a tocar a campainha.

Apareceu um moleque, tomou o recado no corredor e pouco depois trouxe a resposta. “O amo estava muito cheio de ocupações naquele dia, não falava com pessoa alguma. Coqueiro que voltasse noutra ocasião.”

Mas Coqueiro recalcitrou. “Esperaria...Tinha que falar ao Dr. Teles, custasse o que custasse. Tratava-se de uma causa importantíssima!”

Veio afinal o doutor, palitando os dentes, o ar muito ocupado, os movimentos de quem tem pressa.

— Que era? O que desejavam?

Coqueiro, com a voz alterada, os gestos dramaticamente desesperados, disse que ia ali buscar proteção e justiça. “Era pobre, sim, mas estudioso e trabalhador. Sua vida aí estava, — limpa! Podia até servir de modelo! — Casara-se na idade em que os rapazes em geral só pensam nos prazeres e nas loucuras!...Adorava a família; sim! adorava, porque a família era o bem único de que ele dispunha na terra!

Tinha uma irmã, inocente e indefesa, a quem até aí servira de pai e de tutor...” O advogado deixou escapar uma tossezinha de impaciência.

(continua...)

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