Por Aluísio Azevedo (1882)
Penetramos no gabinete, onde deixamos Gregório, assentado aos pés de Olímpia. Ela acaba de erguer-se e de afastar-se, abandonando o pobre rapaz estarrecido de pasmo sob a impressão daquela terrível frase: "Você é um idiota!" O álbum, que os dois folheavam, jaz estatelado no chão. Gregório permanecia estático no seu tamborete, e olha com espanto para a cortina da porta, que ainda treme com o repelão que lhe deu Olímpia ao sair.
O comendador, que acabava de fazer a sua sesta, aparecia então na sala de jantar. A filha correra para ele, alvoroçada, passara-lhe os braços em volta do pescoço, e dera-lhe um beijo na face.
O velho, meio perturbado pela efusão daquela caricia brusca, ia pedir explicação dela, quando a rapariga lhe cortou a palavra, perguntando em que dia saía o primeiro paquete para a Europa.
— Hein?! o primeiro paquete?! Queres viajar?!
— Quero; quando sai o primeiro vapor?
— Não sei ao certo; talvez só no princípio do mês que vem...
— Não me serve! Quero antes. Que viagem há por estes dias?
— Mas que resolução é essa?...
— Ó meu Deus! Sempre os mesmos espantos! Pois o médico, e o senhor mesmo, não têm aconselhado constantemente que faça viagens?!...
— Sim, mas tu mostravas uma tal repugnância!...
— Mas já não mostro, ora essa!
— Bem. Vamos tratar disso...
— Então seguimos no primeiro vapor que sair!
— Para onde?! perguntou o pai, assustado.
— Seja lá para onde. O destino do primeiro que sair!
— Isso é loucura!
— Pois então seja! Não viajo! Acabou-se!
E Olímpia afastou-se para o seu quarto, de mau humor.
O velho foi encontrar-se com Gregório na sala de visitas. Jacó acabava de acender o gás.
Depois dos cumprimentos, o comendador, que vinha ainda impressionado pelas palavras da filha, principiou logo a falar sobre o projeto da viagem.
— Ah! D. Olímpia quer viajar?... perguntou Gregório.
— Quer, e é sangria desatada; quer meter-se no primeiro vapor que sair!...
— E a causa dessa resolução?
— Ora! a causa! nervos! Tudo aquilo são os nervos que estão trabalhando. Eu só peço a Deus que me dê paciência, ao menos até vê-la completamente restabelecida.
E o paciente velho, depois de dar uma volta pela sala, acrescentou com um gesto de contrariedade:
— E logo agora é que não está aí o Dr. Roberto. Ao menos se o Dermeval aparecesse!...
— O comendador o que resolveu?
— Eu, já se sabe, faço-lhe a vontade. O doutor disse que a não contrariasse!...
— Então sempre seguem no primeiro vapor?...
— Não sei se no primeiro, mas se Olímpia não mudar de resolução, iremos quanto antes. É o diabo, porque eu até precisava estar aqui por este tempo à testa de umas tantas coisas; além de que muito me custa deixar a casa assim ao desamparo, como aliás ela se acha desde que Olímpia caiu doente.
E, depois de uma pausa em que ambos ficaram a pensar, o comendador acrescentou:
— Homem, o senhor é que podia vir conosco!...
— Eu, exclamou o rapaz. Impossível! Posso lá viajar!...
— Não! isso até lhe seria muito útil... O senhor está em excelente idade de conhecer a Europa. Olhe, para não ir com as mãos abanando, eu o encarregaria da minha correspondência, pagando-lhe o trabalho. Então? Que tal lhe parece a idéia?...
— Não, não é possível, respondeu Gregório, perturbado. Tenho muito desejo de visitar a Europa, mas não nessas condições...
— É que o senhor nunca encontrará ocasião melhor.
— Sim, mas...
— O senhor não tem aqui família que o prenda; seu emprego não depende do governo; que, pois, o poderia impedir de fazer-nos companhia?...
— Não há dúvida, balbuciava Gregório, sem ânimo de resistir; mas é que não sei se farei bem em aceitar o seu convite...
— Ora, deixe-se de histórias, Gregório! eu conto com o senhor! Não me diga que não!
— Mas...
— Não admito razões! Sei que será para seu bem!
— Ora esta!... disse consigo Gregório, logo que se afastou o comendador. Isto não é o demônio? Pois eu a fugir do perigo, e o próprio pai a empurrar-me cada vez mais ao lado da filha!...
E, tendo refletido por alguns instantes, resolveu aceitar a situação.
— Vou! concluiu ele; aconteça o que acontecer! Aquela mulher não me tornará a chamar idiota!
Mas daí a pouco, quando se servia o chá, o comendador disse à filha:
— Sabe, sinházinha? O Gregório vai conosco.
— Hein? perguntou ela, apertando os olhos. Conosco para onde?
— Ora essa! Já te não lembras? replicou o velho, rindo. Pois não estamos com uma viagem projetada?
— Ah! já nem pensava em semelhante coisa. E, se fossemos, eu não consentiria que esse senhor se incomodasse em acompanhar-nos...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.