Por Aluísio Azevedo (1884)
Mas, ao voltar, encontrou Amélia no mesmo estado. E a questão reapareceu à noite, reapareceu na manhã seguinte, e todos os dias, tomando um caráter de rezinga permanente.
Amâncio perdeu de todo a paciência.
— Era demais! Sebo! Ele, no fim de contas, não tinha obrigação nenhuma de aturar semelhante gaita nos ouvidos! Que mastigação! Arre! Amélia que fosse atenazar o pai!
Ela respondeu possessa, deixando escapar palavrões, “Supunha ter encontrado um homem, mas encontrara um quidam, um canalha, um desfrutador!”
— Desfrutadores são vocês todos! Percebes tu?! Berrou ele, colérico.– Desfrutadores — é teu irmão, — é tua madrasta e és tu! Que só faltam me arrancar a pele! Súcia de filantes!
E lembrou o que até aí gastara com eles, o que lhes dera, o que comprara e o que lhe desaparecia dos algibeiras.
— Não me estás de graça, não! exclamou, saindo afinal do quarto como da outra vez.
Desta, porém, quando voltou à casa, vinha com o ar mais despreocupado que se pode desejar. E, logo que Amélia lhe falou na questão da viagem, ele respondeu tranqüilamente que já não havia nada a esse respeito. “Resolvera ficar.”
A rapariga compreendeu o disfarce e, no dia seguinte, tratou de prevenir o irmão de que abrisse os olhos, se não queria ver o Sr. Amâncio escapar-lhe por entre os dedos.
João Coqueiro ficou de orelha em pé.
CAPÍTULO XIX
A pequena tinha toda a razão; Amâncio, se parecia resolvido a desistir da viagem, era porque nessa mesma tarde encontrara o Paiva e, na sua necessidade de expansão, levou-o para o fundo de um café e abriu-se com ele. Contou-lhe as dificuldades que o afligiam, e pediu-lhe conselhos.
— Não há que saber!...disse o consultado. — Não há que saber!...Aí só vejo dois partidos a tomar: — Ser tolo — ou — não ser tolo!
E, como o outro fizesse um trejeito de má compreensão:
— Tolo, se ficares e — não tolo — se te puseres ao fresco!
— Mas, Paiva, você então que devo ir?...perguntou Amâncio, hesitando, a morder as unhas.
— Homem! volveu aquele, — se precisas ir ao Norte, prepara-te caladinho e vai! Que necessidade tens tu de que a gente do Coqueiro saiba disso?...Deves-lhe satisfação de teus atos?...Se não deves, é aprontar as malas e...por aqui é o caminho! Olha! Deixa-lhe uma carta, muito delicada, já se vê, muito cheia de promessas. “Que voltas, que hás de fazer, que hás de acontecer!” E, no entanto, vai-te raspando...Porque estas coisas, filho, assim é que se decidem. E, quanto aos arranjos da viagem...cá estou eu para te ajudar!...
Calaram-se por alguns instantes. Paiva Rocha pediu um novo cherry – cobler e prosseguiu enquanto o amigo, muito pensativo, fitava o mármore da mesa:
— Agora, se estás tão embeiçado pela sujeita, que não tenhas ânimo de a deixar, isso é outra coisa!...Neste caso, o melhor é escrever à velha, dizendo-lhe que venha, arranjar um novo advogado de confiança que se encarregue de teus negócios no Maranhão, — e faze a vontade à pequena — casa-te!
Amâncio torceu o nariz com enfado:
— Qual!
— Então, filho, que esperas?...É perder o amor aos objetos que lá tens, e fazer o que já te disse!
— Mas o Coqueiro não poderá toma r alguma vingança?...
— Não sejas parvo! Resmungou o outro, bebendo de um trago o que ainda tinha no copo; e ergueu-se disposto a sair. — Amanhã, às mesmas horas, cá estou! Traze o cobre e deixa o resto por minha conta!
Separaram-se concordes de que no dia seguinte ficariam depositados na república do Paiva os apetrechos da fuga.
Em casa do Coqueiro. Todos, à semelhança de Amelinha, nem de leve mostravam suspeitar de coisa alguma; pareciam até mais tranqüilos e satisfeitos.
Nem um gesto de ressentimento, nem uma palavra indiscreta que os denunciasse. Tudo era paz e bem-aventurança.
Reapareceram as primitivas noites de amor, como boa estação que volta carregada de flores. Os dois amantes nunca se possuíram tão satisfeitos um do outro e nunca se patentearam tão convictos da mesma felicidade. No empenho comum de se enganarem, cada qual redobrava de carinhos e meiguices; enquanto por dentro os corações lhes bocejavam, aborrecidos e fatigados.
O dia da viagem chegou sem novidade alguma. Amâncio levantou-se como das outras vezes, apenas um pouco mais cedo. Olhou por um momento Amélia que ainda dormia, toda sumida nos lençóis, vestiu-se cautelosamente para não a acordar; depois foi varanda, bebeu café e saiu em ar de passeio.
No Largo do Machado tomou um carro e bateu para a república do Paiva.
Não encontrou o colega, havia já saído. — Devia estar à sua espera com a bagagem, no cais Pharoux.
Amâncio mandou tocar o carro para lá. E, à proporção que se aproximava do mar, crescia-lhe por dentro um vago sobressalto de impaciência e de medo.
— Anda! Gritou ao cocheiro, espiando repetidas vezes pela portinhola e apalpando de instante a instante o bilhete da passagem que tinha no bolso.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.