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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Só daí a três dias conseguiu encontrar-se com o Portela. Este, que já vivia desesperado com o sumiço dos documentos, e supunha que João Rosa pretendia especular com eles, ficou muito satisfeito com as primeiras palavras do Ruivo.

— Está tudo aqui! disse o gatuno, mostrando o pacote. Se quiser fazer negócio, é questão decidida!...

— Eu dou-lhe uma boa gorjeta...

— De quanto? perguntou o gatuno.

— Deixe estar que por isso não havemos de brigar...

E apresentou uma nota de cem mil réis.

— O que é lá isso!... Um conto dava o senhor ao outro!

— Pois você imaginou que eu seria capaz de lhe dar um conto de réis?

— Foi o senhor mesmo quem marcou o preço, lá no Passeio Público.

— Sim, mas isso era para descontar o que me deve aquele sujeito. Com você o caso muda de figura. Tenho de pagar em dinheiro!

— Pois eu só entrego os papéis por um conto de réis.

— Não! dessa forma não quero.

— Bom, nesse caso farei deles o que bem entender. Já sei quem mos há de comprar...

— Não ,seja tolo, porque esses papéis não têm valor para mais ninguém.

— Paciência! Ficarão comigo. Eu também gosto de fotografias...

— Quer duzentos mil réis?

— Nem quatrocentos.

— Pois então faça o que entender!

— Adeus, disse Ruivo, afastando-se.

— Olhe! volveu o outro. Dou-lhe quinhentos...

— Não vai nada! respondeu o Ruivo. Quer dar o conto ou não quer?

— Ora, vá pentear monos! exclamou Portela certo de que o gatuno havia de voltar, quando se convencesse de que não alcançaria maior pagamento.

Mas Pedro Ruivo não voltou, e Portela, que por essa época havia tomado a seu serviço o Talha-certo, encarregou a este tratante de alcançar os papéis das mãos do súcio.

— Nem é preciso dar-lhe nada! afirmou o capanga com ar de quem confia muito em si. Pode ficar descansado, patrão, que os papéis hão de aqui chegar, quer aquele bisborria queira, quer não queira!

A coisa, porém, não era assim tão fácil. Talha-certo não conseguiu, como supunha, alcançar imediatamente os papéis do poder de Pedro Ruivo. E Portela, poucos dias depois, ao passar pela rua dos Ourives, teve que esconder-se no primeiro corredor, porque o gatuno, logo que o viu principiou a gritar-lhe com as mãos nas cadeiras:

— Então, comendador, seu capanga está encarregado de arrancar-me os seus documentos, bem?! Quer ver se pilha a coisa sem puxar pela bolsa! Está enganado, meu amigo, ou o senhor cai com o cobre, ou tudo aquilo vai publicadinho no jornal. E escolher!

E, desde então, o Pedro Ruivo se converteu para o negociante de vinhos em uma sombra perseguidora. Portela já estava resolvido a dar-lhe o conto de réis, ou mais, contanto que se visse livre dele por uma vez; porém, temia agora entrar em qualquer ajuste, porque o maldito se punha aí a gritar e a fazer escândalos.

Talha-certo ofereceu-se ainda para o despachar com uma boa navalhada.

— Isso é pior! respondeu o Portela; você não lhe dava cabo da pele e o homem afinal ficava mais assanhado! Além do que não me convém assassinar pessoa alguma... O melhor é dar-lhe o dinheiro e ficarmos livres por uma vez dessa massada.

E assim resolveram. Talha-certo começou a procurar Pedro Ruivo; mas este não aparecia. Ninguém sabia dar notícias dele.

Pedro Ruivo não era encontrado na capital pelo simples fato de haver partido poucos dias antes para S. Paulo, à sombra de um fazendeiro de boa fé, que se deixou comover pelas lábias do velhaco. O aventureiro ainda possuía o talento de impressionar, quando estava de maré para jogar com a fisionomia. O Portela é que não podia ficar tranqüilo, enquanto não estivesse senhor dos documentos, e recomendava sem cessar ao seu capanga que se não descuidasse nas pesquisas.

Mas deixemos tudo isso de parte. Tenha a bondade o leitor de unir os pés, encolher os braços, dobrar ligeiramente as pernas e dar ao corpo o impulso necessário para um novo salto. Vamos pular por cima dos episódios, que medeiam desde as cenas da Avenida Estrela até àquela critica situação em que deixamos Gregório ao lado de Olímpia no pequenino chalé da Tijuca.

Não precisa empregar o leitor toda a sua força de músculos, porque o salto, se comporta muitas cenas, não abrange todavia muito tempo.

Pronto! Estamos novamente em casa do comendador Ferreira. O Dr. Roberto segue viagem para o norte. Olímpia parecia lá consolada da morte de Scott, e o velho Jacó acompanha fielmente aos amos.

São sete horas da tarde. O sol mergulhou no horizonte, ensangüentando o céu. A natureza envolve-se no crepúsculo da noite para adormecer. O canto da cigarra vai amortecendo, a proporção que recrudesce no fundo dos vales o coaxar das rãs.

Na rua acendem-se os lampiões, os bondes passam de um quarto em um quarto de hora, e um piano da vizinhança soluça o Spirito gentil da Favorita.

(continua...)

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