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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Não! não podia deixar de ir. O Maranhão, naquele momento, e por todos os motivos, representava para ele uma necessidade urgente. — Havia de meter a cabeça e varar por quantos obstáculos se lhe antepusessem.

* * *

Amélia ficou estonteada quando o amante lhe deu parte dos seus projetos de viagem, tão calmo e resoluto foi o tom em que o fez; mas, voltando do primeiro choque, rompeu num grande pranto e atirou-se de bruços na cama, soluçando muito aflita. “Que era uma desgraçada! Que Amâncio a queria abandonar, depois de a ter desonrado e perdido!”

—Eu volto, filha! Disse ele, procurando fazer-se meigo. — Vou tratar de meus interesses, ver minha mãe, e volto para o teu lado! Não tenhas receio de que te engane! Eu ainda se quisesse, não podia ficar por lá, já não digo por ti, mas, que diabo! Pelos meus estudos. Pois acreditas que eu cairia na asneira de abandonálos, agora que estou tão bem encaminhado?...

— Não sei! Respondeu a rapariga, erguendo-se rapidamente, com as feições sumidas na vermelhidão do choro. — Você, é impossível que não tenha no Maranhão alguém à sua espera!... E essa com certeza não há de ser pobre como eu, não terá a boa-fé que eu tive!...com essa você não porá dúvidas nenhuma para casar!...

E voltaram-lhe os soluços, como um temporal que recresce.

— Estás a dizer tolices, filha! Dou-te a minha palavra de honra em como nunca me esquecerei de ti! Que mais queres?!

— Pois então casemo-nos e partirás depois!...

— Isso é impossível! Já te disse um milhão de vezes! Oh! – Minha mãe espera-me há quatro vapores seguidos! Imagina tu como não estará ela, coitada, com a morte do velho! não hei de agora, em vez de minha pessoa, lhe apresentar uma carta pedindo licença para casar!... Que espécie de filho seria eu nesse caso?! Enquanto a pobre viúva se desfaz em lágrimas; enquanto na família tudo é luto e desgosto, o bom do filho pensa em casamento e, sem dúvida, prepara as festas do noivado!” Não! gritou ele energicamente. — Isso não faria eu, nem se me cosessem a facadas! Pelo menos, enquanto estiver com esta roupa sobre o corpo...

E sacudiu com força a aba de seu fraque de lustrina.

— Enquanto estiver com esta roupa, não penso em mulher! nada! antes de tudo, sou filho! Percebes?! Antes de tudo, tenho de olhar por minha pobre mãe, que é muito capaz de morrer se não me ver ao seu lado!

E foi, cheio de excitação, debruçar-se no peitoril da janela, fitando as plantas do jardim, a roer as unhas.

Houve um silêncio. Amélia já não chorava; imóvel, apoiando-se ao espaldar da cama, entontecia a vista contra as ramagens cruas do tapete.

— Nesse caso, ele que venha ter contigo... disse, afinal, sem erguer os olhos.

— Ora! Resmungou Amâncio, voltando-se vivamente na janela.

— Ou então iremos nós... acrescentou a rapariga, fazendo um biquinho de enfado. E depois, com pieguice: — Tenho muito medo das maranhenses!...

O estudante não respondeu, foi ter com ela, tomou-lhe meigamente a cabeça entre as mãos.

— Esta cabecinha!... — disse — esta cabecinha não sei quando terá juízo!...

E, passando a falar em tom sério, protestou que era até injustiça supô-lo capaz de cometer uma perfídia daquela ordem! Amélia já devia estar perfeitamente convencida de que ele a amava deveras; de que ele não seria tão mau que a abandonasse, depois de receber tantos carinhos. Ela que não estivesse a descobrir perigos, onde nem sombras disso havia!... A tal viagem ao Norte, no fim de contas, era uma questão de dois ou três meses, e ele deixaria uma mesada regular e escreveria por todos os vapores!...

— Não acreditas ainda que te estou falando com sinceridade?... concluiu, a beijá-la nos olhos. — Que precisão tinha eu de te enganar?...

— Sim, creio, creio que por ora assim seja, não há dúvida! Mas também estou persuadida de que, logo que passes a barra, tudo muda de figura!... Nos primeiros dias ainda te lembrarás da infeliz que aqui deixaste, mas depois... com a presença de outras, com os novos passatempos que te esperam... até hás de perguntar aos teus botões “como foi que em algum dia chegaste a pensar a sério neste casamento?...”

— Bem se vê que não me conheces!... retorquiu o rapaz.

— Não! não! não irás! Sustentou Amélia. — Adoro-te, és meu, não te quero perder! Ora essa!

— Mas, filha, observou Amâncio impacientando-se, — lembra-te de que é mais decente fazermos a coisa por bons modos... afinal, tu não me podes constranger a ficar, e, eu, em vez de ir, deixando um compromisso de cavalheiro, sou capaz de ir, sem deixar coisa alguma! Ora aí tens!

— Hein?! Bradou ela, transformando-se a contragosto.— Cai nessa!

Experimenta só, para veres o gosto que lhe achas!

Amâncio respondeu com um gesto desabrido, enterrou o chapéu na cabeça, e saiu à toa, sem destino, com uma fúria surda a espezinhar-lhe o coração.

* * *

(continua...)

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