Por Aluísio Azevedo (1882)
O gatuno, uma vez senhor do seu cofre, atravessou obliquamente a gruta e embrenhou-se no mato pelo lado oposto àquele por onde havia entrado. Fazia um belo luar, mas a vegetação enredava-se por tal forma, que os raios da lua muito a espaço se coavam por entre a mole balsâmica da folhagem. Entreteciam-se os cipós e as parasitas, formando cortinas de verdura e como fechando aos forasteiros a passagem da mata. Se a viagem era difícil, também era perigosa, porque as cobras descem à noite dos seus covis, arrastando-se pelo morro à procura do que comer e beber.
Mas Pedro Ruivo, aguilhoado pelo medo, varava o mato que nem uma anta assustada.
Atravessou o morro e, depois de caminhar três horas seguidas, achou-se em um pântano sombreado de árvores. Palhoças esparsas branquejavam aqui e ali por entre o silêncio melancólico da noite. Percebia-se a vizinhança de algum arrabalde pelo longínquo barulho de cães, que ladravam à lua.
Pedro Ruivo continuou a andar. Estava em Catumbi. Em breve o paredão comprido do cemitério começou a estender-se diante de seus olhos como uma mortalha que se desdobra. O bairro modorrava deserto. Ouvia-se ao longe a cansada música de uma festa, e um burro inválido passeava silenciosamente pela estrada, a manquejar da perna.
O gatuno continuou a andar na direção do campo de Santana. Não se arreceava da polícia, porque já a conhecia de perto. Em certa altura da Cidade Nova parou defronte de uma casa, em cuja porta brilhava um miserável farol de folha com a seguinte inscrição "Hospedaria do Gato".
Pedro Ruivo tirou do bolso um pouco de dinheiro, que escamoteara do quarto de Gregório, e pôs-se a contá-lo.
— Chega, disse ele consigo. E bateu à porta da hospedaria.
Veio abrir um homem magro e macilento, com a camisa por fora das ceroulas e uma lanterna na mão.
— Ó Estica! Como vai essa força?
— Vai se rolando, e você?
— Mais morto que vivo! Ainda há lugar por aí?
— Sim, mas você já deve duas dormidas e sabe que...
— Ó, seu vinagre! Eu não lhe disse que queria fiado! — Também não é preciso zangar-se... Suba!
Pedro Ruivo caminho na frente, enquanto o Estica fechava a porta, e estendia depois a lanterna para iluminar a escada.
— Isto por cá está preto como o padre! gritou Pedro Ruivo, já em cima, dando um encontrão.
— Espere lá, criatura! Não faça barulho que pode acordar os hóspedes!
Daí a pouco se introduziam os dois por um estreito corredor formado de tapumes de madeira. E depois de uns trinta passos, chegaram ao quarto que o estalajadeiro destinava ao Ruivo.
— Pronto! disse o homem, pousando a lanterna no chão e procurando matar uma pulga que sentiu na. perna.
Pedro Ruivo tirou do bolso uma nota de dez tostões e passou-a ao outro, dizendo-lhe que pagasse as três dormidas e lhe trouxesse parati. Em seguida assentou-se na espécie de cama que havia no quarto e colocou ao lado de si o cofre.
O Estica, que se tinha afastado, voltou com um pequeno copo de aguardente e entregou-o ao Ruivo.
— O troco? reclamou este.
— Que troco?...
— Seis tostões do que eu devia, trezentos réis de hoje, três vinténs de parati; ainda tenho quarenta réis. Venha!
— Você sabe que depois da meia-noite o parati é um tostão!...
— Ladrões como ratos! resmungou Pedro Ruivo, tirando do bolso um pedaço de vela, que acendeu na lanterna do hospedeiro. — Boa noite! disse este, afastando-se.
Pedro Ruivo fechou a porta, acendeu o cachimbo e grudou a vela no chão com alguns pingos da mesma.
O quarto teria doze palmos sobre seis de largura. A cama, único objeto que lá se achava, além de um moringue esborcinado, era de ferro e sem lençóis.
Ruivo assentou-se no chão, abriu o cofre e, depois de beber um gole de aguardente, começou a examinar-lhe minuciosamente o conteúdo. Encontrou a declaração assinada pelo Portela, a carta em que este remetia o veneno à amante, e mais uma fotografia de cada um dos criminosos, completamente emolduradas.
— Ora! disse o gatuno quando se convenceu de que mais nada havia. Para tão pouca coisa não era preciso uma caixa deste tamanho! (E passou a ler com dificuldade os papéis, tendo examinado minuciosamente os retratos).
— Este deve ser daquele sujeito gordo do Passeio Público, considerou ele, procurando mentalmente comparar a fotografia do Portela com o original. E acrescentou, passando a examinar a de Teresa: — Esta outra não conheço, mas deve ser gente graúda, a julgar pelo luxo com que está vestida! Enfim, havemos de ver quanto tudo isto poderá dar!...
Em seguida, tirou um cordão do bolso e com ele fez um só pacote dos papéis e dos retratos.
— Amanhã temos tempo para tratar disso!
E meteu o pacote na algibeira do paletó, do qual fez uma rodilha e improvisou um travesseiro; em seguida deitou-se e adormeceu logo, porque estava muito cansado.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.