Por Aluísio Azevedo (1884)
— Homem! dizia-lhe o negociante. — Você só aparece aqui por fruta, e faz visitinhas de médico! Não há meios de apanhá-lo lá em cima! Neném até já se queixou!
Amâncio defendia-se com os seus estudos e com os sobressaltos em que andava depois das últimas cartas do Norte.
— Por quê? Há alguma novidade?!... perguntou o amigo cheio de solicitude.
— A velha não está boa!... explicou o rapaz. — Desde que morreu meu pai, a pobre de Cristo ainda não levantou a cabeça! Confesso-lhe que tenho meus receios, tenho!...
E quedava-se abstrato, a fitar o chão, com a fisionomia paralisada por uma tristeza vidente e ao mesmo tempo irresoluta.
O outro não sem animava a interromper aquele silêncio doloroso e respeitável, mas, por fim, lembrou discretamente, com delicadeza, que não seria má uma viagem à província; talvez com isso se evitasse um desgosto maior.. Amâncio era a menina dos olhos de D. Ângela...bem podia ser que, só com a presença dele, a pobre senhora melhorasse!...
O estudante mostrou-lhe a última carta da mãe; e os dois, tendo ainda conversado com o mesmo recolhimento, vieram a concordar em que era indispensável um passeio ao Maranhão; Amâncio retirou-se, fazendo já os planos da viagem.
— Oh! exclamava ele por dentro. — Vou! Não tem que ver! Vou
definitivamente! E provo àquela mulher que não ligo a menor importância ao que ela me fez! Hei de provar-lhe que o seu procedimento em nada me alterou. Que até sigo muito satisfeito e muito satisfeito e muito senhor de mim.
E via-se já na ocasião da despedidas — frio, indiferente, sorrindo às lágrimas de Hortênsia . e sua fantasia, gozando do efeito desses devaneios, armava-lhe, ao sabor da vaidade, cenas muito espetaculosas, nas quais representava ele sempre o papel mais brilhante e mais elevado.
Via Hortênsia a seus pés, lacrimosa e mísera, suplicando-lhe por piedade que não se fosse, que a perdoasse, que se compadecesse de tamanho desespero. “Ela ali estava submissa e arrependida, pronta a cumpri de olhos fechados as ordens de seu querido Amâncio, do seu senhor, do seu Deus, do seu tudo!”
Ele, então, com um riso cruel, voltando-lhe o rosto e acendendo um charuto:
“Não , filha, tem paciência! E se insistes, vai tudo às mãos do Campos!...”
Hortênsia, ao ouvir estas palavras, estorcia-se numa aflição teatral, e logo que Amâncio se dispunha a partir, desabava de costa, quase morta, justamente como as heroínas dos romances que ele devorara aos quinze anos.
Mas a terrível concupiscência do nortista, sobrepujando logo a fantasia do vaidoso, não resistia à tentação de possuir, ao menos em sonho, aquele belo corpo desfalecido e, como dantes, começava mentalmente a despi-lo, peça por peça, até deixá-lo em pleno escândalo da carne.
* * *
Entrou em casa resolvido a levantar o vôo, custasse o que custasse.
— Sim, era preciso ir! Por Hortênsia, por sua mãe, por Amélia, por mera distração, por tudo! Precisava afastar-se daquele inferno, onde duas mulheres, como duas sombras, o torturavam; uma fugindo e a outra o perseguindo. Desde que recebeu a tremenda resposta de Hortênsia, sentia-se muito nervoso e irascível; Amélia suportava-o, sabe Deus como, fazendo milagres de paciência para não se afastar dos conselhos que lhe dera o irmão. Quase que já se não podiam sofrer um ao outro. Além disso, as cartas de Ângela repetiam-se agora desesperadamente. “Estaria a pobre mãe com efeito em risco de vida?...”pensava Amâncio. “Dependeria dele o salvá-la? ... E os seus interesses que havia tanto tempo o reclamavam?... E as saudades da pátria? E os prazeres que encontraria à volta do primeiro ano acadêmico?”
Os prazeres, sim, que Amâncio, pelo derradeiro paquete, recebera em uma das principais folhas diárias de sua província a seguinte notícia:
“Maranhense Distinto. Acaba de fazer brilhantemente o primeiro ano de seu curso na Escola de Medicina na Corte o nosso talentoso comprovinciano Amâncio da Silva Bastos e Vasconcelos, filho de há pouco falecido e sempre chorado Comendador Manoel Pedro de Vasconcelos, um dos mais estimados negociantes que foi desta praça, enquanto não podemos pessoalmente abraçar o digno jovem e esperançoso discípulo de Hipócrates, apressamo-nos a enviar-lhe daqui os nossos sinceros parabéns, futurando em S.S, a mais uma glória legítima para a nossa
Atenas, já tão rica, aliás, em talentos privilegiados!”
Ninguém poderá imaginar o efeito que produziram tais palavras no espírito presunçoso de Amâncio. era a primeira vez que ele via o seu nome em letra redonda, seguido de alguns adjetivos laudatórios.
Por detrás daquela notícia pressentia o rapaz um paraíso de novas considerações que o esperava na província; antevia o sorriso das damas, a reverência dos pais de família e a inveja dos ex-colegas do Liceu.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.