Por Aluísio Azevedo (1882)
João Rosa por conseguinte começou a procurar os tais documentos com toda a calma e toda segurança; e, com tanto jeito e minuciosidade mexeu e remexeu nas gavetas e nos segredos do patrão, que, em vez de achar o objeto procurado,
achou coisa muito melhor; achou um pequeno cofre de ferro, que jazia cuidadosamente oculto num esconderijo, feito de propósito para isso na parede, por detrás da burra.
O cofre pesava e tinha um segredo na fechadura. João Rosa não descansou enquanto o não abriu.
Estava cheio de libras esterlinas. Ninguém sabia a procedência desse dinheiro, nem o destino que o comendador lhe tencionava dar. Não constava dele em nenhum dos livros de sua escrituração e em nenhuma das notas esparsas.
João Rosa teve uma tentação diabólica. O comendador só mais tarde poderia dar por falta do cofre, e aquele dinheiro representava perfeitamente a independência do caixeiro. Lembrou-se de tomar passagem no primeiro vapor e fugir do Brasil com o seu tesouro, mas reconsiderou: Para que fugir?... Aquele dinheiro estava por tal forma bem escondido, que o comendador não poderia imaginar que alguém desse por ele... e dai, quem sabia lá se o próprio comendador tinha ciência de semelhante coisa?... se aquele belo segredo não existia ali antes dele tomar conta da casa?... De qualquer forma, concluiu o velhaco: não era preciso fugir; tudo se poderia arranjar limpamente, sem espalhafatos de viagens.
E adotadas estas reflexões, João Rosa procurou o Figueiredo, pediu a sua conta e deu-se por despedido. Só lhe faltava pôr em dia o exíguo trabalho que estava a seu cargo e esperar pelo comendador, para se despedir deste também por sua vez.
Portela, sempre que o via, lhe perguntava logo pelo resultado daquilo que os dois haviam combinado entre si. O outro se desculpava; não descobria os tais documentos, mas que Portela podia ficar descansado, que, se estivessem eles em casa do comendador, lhe haviam de chegar às mãos.
Dias depois o encontrou por acaso. Esteve quase a fazer que o não via, tão pouca importância ligava ele agora a semelhante bagatela. Mas uma súbita idéia de especulação, fê-lo apoderar-se dos documentos e guardá-los cuidadosamente consigo.
O comendador chegou nesse dia, sem ser esperado. Vinha aflito; a filha estava pior, o Dr. Roberto acompanhava-os, prevendo qualquer capricho da moléstia. Receava a paralisia, o idiotismo e até a morte.
João Rosa declarou que não podia continuar ao serviço do comendador, disse que já não estava em casa do Figueiredo e precisava tratar-se dos pulmões em Barbacena. O velho aborreceu-se muito com isso. Pois o caixeiro queria abandoná-lo naquela situação? O Dr. Roberto entendia que o João Rosa não tinha necessidade de partir com tanta pressa. Mas o rapaz insistiu, queixou-se de que estava muito mal, tossiu, disse que já expectorava sangue, e dois dias depois recebeu o saldo que lhe tocava e entregou em dia o trabalho ao seu substituto.
Constou-lhe no dia seguinte que o comendador ia chamá-lo ainda para pedir algumas explicações sobre o trabalho; João Rosa, a quem não convinha entrar em mais esclarecimentos, apressou a viagem e partiu na primeira madrugada, sem ter entregue os papéis a Portela, a quem escreveu um bilhete com as seguintes palavras: "Pode ficar tranqüilo; acha-se tudo em meu poder. Em breve estarão com o senhor".
Portela não se satisfez com isso e foi ao encontro de João Rosa. Já não o alcançou e retrocedeu para a Corte porque tinha de fazer a viagem de que falamos.
Decorreu um ano, Olímpia não tinha melhoras, o comendador continuava sobressaltado.
João Rosa voltou cautelosamente à capital, hospedou-se no Hotel do Caboclo e tratou logo de procurar Portela.
Encontraram-se na rua e seguiram juntos para o Passeio Público, porque aí conversariam mais à vontade.
O que se segue já o leitor sabe. Pedro Ruivo, que fingia dormir em um banco do Passeio, ouviu a conversa dos dois e empregou meios e modos de furtar os documentos do Portela; depois foi dar consigo na Avenida Estrela, donde afinal saiu, ameaçado e perseguido, para se esconder na gruta com o fruto do seu roubo.
Pois bem; acompanhemos o gatuno e vejamos o que fez ele dos papéis. Pedro Ruivo, logo que retomou o cofre na gruta, ganhou o mato e desapareceu por entre as folhas, como a ligeira cotia, quando sente perto de si algum rumor estranho.
É preciso observar que a gruta do Rio Comprido se estende por todo o sopé do monte e abre várias gargantas, oferecendo diversos caminhos, uns mais curtos e às vezes mais difíceis, outros longos e naturalmente mais pitorescos e agradáveis.
Olímpia, Gregório e Augusto, naquele passeio que descrevemos, foram pelo caminho mais comprido e pitoresco, e penetraram na gruta justamente pelo lugar onde esta principia. Pedro Ruivo ao contrário, chegou lá pelo caminho mais curto e entrou por uma das gargantas laterais, que abrem obscuramente para as borlas da floresta.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.