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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Quase todos eles têm na sua vida um fato, uma época, uma coisa extraordinária, para contar: um, apresenta a honra de lhe haver morrido nos braços tal homem célebre; outro, diz que foi amante da senhora condessa de tal; outro afiança e jura ser o verdadeiro , se bem que obscuro, promotor e tal acontecimento histórico; outro, revela um romance de amor que lhe cortou a carreira, mas que o imortalizará em vendo a luz da publicidade; outro, confia numa invenção, “é o seu segredo”, um projeto mecânico, ou industrial ou econômico — político; outro, não aceita emprego nenhum do atual governo, e espera a ocasião de “pegar numa espingarda e fuzilar as velhas instituições de seu miserando país”; outro, enfim, ( e são os menos raros) têm apenas para exibir em honra própria a circunstância de algum parentesco ilustre.

Ah! Não se encontram aí notabilidades de nenhuma espécie, mas sim

parentes. Este , é sobrinho de tal poeta ilustre; aquele ,é irmão do ministro tal, que deu o nome a tal rua; estoutro, cunhado ou primo em terneiro grau do glorioso artista Fulano dos anzóis.

E os tipos, quando lhe tocam nisso, enchem-se de orgulho, como se participassem das glórias do festejado parente; pelo menos, ninguém os apresenta a qualquer pessoa, sem acrescentar logo, com assombro: “Ó senhor! Por quem é...não me confunda!...”

É também desses viveiros sombrios e malcheirosos que surgem certas figuras que, às vezes, nos espantam na rua, — tossicar dentro de um sobretudo enorme, um xale — manta em volta do pescoço, um bengalão entre os dedos e na fisionomia um ar melancólico e ao mesmo tempo irritado.

É daí, desses quartos silenciosos, úmidos e tristonhos, como sepulturas vazias, que surgem com o seu passo inalterável e pousado os sinistros aranhões, que vemos passear estranhamente pelos jardinas públicos, ao sol das boas manhãs de inverno.

Coitados! São em geral homens sem meios de vida, protegidos por algum figurão qualquer, de quem, ou foram colegas na academia, ou ainda continuam a ser parentes com a mais cruel pertinácia. Quando falam desse protetor feliz e rico não se animam a dizer mal, mas à sua fisionomia acode invencível sorriso cheio de velha bílis acumulada e sôfrega por transbordar. Uns vão regularmente comer a certas casas comerciais, outros se arranjam pelas impossíveis casas de pasto da Cidade – Nova, os “fregues”, onde as refeições não passam de duzentos réis. Alguns têm o almoço seguro à mesa de um velho amigo de melhores tempos, o jantar em casa doutro; às sextas – feiras são infalíveis nas comezainas gratuitas dos frades de São Bento. Uns, passam a noite na jogatina, percorrendo espeluncas, tomando café nos quiosques às quatro e meia da manhã e então, durante o dia seguinte, dormem a fartar; outros, recebem donativos de alguma irmandade religiosa, à qual se filiaram em épocas de prosperidade.

São sempre vistos, em horas determinadas, no jardim do Rocio, no Passeio Público, assentados nos bancos de pedra, lendo jornais à sombra das amendoeiras, às vezes têm ao lado a botina que descalçaram por amor dos calos; são vistos igualmente nos edifícios públicos em construção, acompanhando as obras com interesse, como se estivessem encarregados disso, fazendo perguntas, ralhando com os operários, numa necessidade irresistível de aplicar, seja como for, a sua atividade desocupada e vadia. Não há motim, não há incinere de rua, por mais ligeiro, em que eles não intervenham, tomando logo a parte principal na coisa, repreendendo o agressor, conciliando o agredido, fazendo enfim acreditar que ali está uma autoridade civil em pleno exercício de suas funções.

São violentos quando lhes falam de política e só se referem aos homens do poder com palavrões brutais e desabridos; a alguns nomeiam sempre com alcunhas determinadas e todos os outros, que ainda não receberam o batismo de sua cólera invejosa, são indistintamente “os ladrões, os patoteiros, os vis, os traidores, os capachos do rei”! Através dos cerrados negrumes daquela miséria e daquele ressentimento, nada enxergam de bom e de legítimo

O Coqueiro, não obstante, se mostrava satisfeito com os seus inquilinos e dizia ter encontrado no Damião o “homem que lhe convinha”.

Aparecia por lá constantemente; gostava de ver como ia o prédio, gostava de dar uma vista de olhos pelos cantos da casa, em silêncio, de mãos no bolso, e sentia um verdadeiro prazer sempre que encontrava alguma coisinha par consertar, — algum pedaço de papel solto da parede, alguma régua despregada, alguma tábua fora do lugar.

A existência nunca lhe parecera tão corredia e tão fácil; só faltava, para complemento das ventura, que o maçante do colega desembuchasse por uma vez com aquele maldito casamento.

— Ah! então é que seriam elas!...

* * *

Mas o “maçante do colega” estava bem longe de pensar em casamento; todo ele era pouco para sofrer a cáustica impassibilidade de Hortênsia.

A caprichosa continuava no seu terrível sistema de não aviar nem desaviar. Amâncio fizera-lhe ir ter às mãos uma segunda cópia da carta subtraída, e ela em resposta aconselhou-o a que não escrevesse outra, sob pena de entregá-la ao marido.

— Pois que vá para o diabo que a carregue! Pensou o estudante, furioso, e resolveu dar o negócio por acabado.

Com efeito, durante um mês inteiro, nas poucas vezes em que teve de falar ao Campos sobre questões de interesses materiais, não passou do escritório.

(continua...)

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