Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Seixas dera alguns passos automaticamente pela sala adentro. 

- Não foi hoje à repartição? perguntou Aurélia para disfarçar a confusão dos dois, o marido e o hóspede. 

- Voltei à procura de um papel que me esqueceu. Com licença! 

Seixas aproveitara o primeiro ensejo para fugir desse lugar, onde temia representar alguma cena ridícula ou medonha. Fazendo um cumprimento a esmo, retirou-se apressado na direção de seus aposentos. 

Se até ali tinha necessidade de dinheiro, agora mais do que nunca. Foi direto à sua secretária; abriu a gaveta onde guardava os seus papéis antigos; espalhou-os pelo tapete de mistura com outros objetos, e encontrando afinal a cautela que procurava, saiu precipitadamente pela escada particular. 

Parou na porta para deixar passar o Abreu que descia; quando o viu de longe, meteuse no tílburi e voltou à cidade. 

Aurélia logo que o marido retirou-se, estendeu  a mão a Abreu dizendo-lhe: 

- Não tem o direito de recusar, e espero que não me prive desta satisfação. Adeus, seja feliz. 

O mancebo apertou comovido a mão gentil que lhe era oferecida com tanta sinceridade e balbuciando expressões de reconhecimento, despediu-se. 

Apenas ele desapareceu na escada, Aurélia dirigiu-se ao gabinete do marido. Bateu à porta, e chamou-o; não recebendo resposta, entrou. A primeira coisa que viu foi a gaveta da secretária escancarada, e a ruma de papéis atirada sobre o pavimento. 

A moça certificou-se que Seixas não estava em casa; adivinhou que saíra pela escada particular  cuja porta fechara levando a chave. 

Lançando um olhar aos papéis esparsos e resistindo à ânsia de conhecer aquelas relíquias de um passado, que não lhe pertencia, encaminhava-se à porta para sair. Eis que descobriu entre os maços de cartas, um trabalho de tapeçaria. 

Apanhou-o para examinar, com simples curiosidade artística. Era uma fita de marcar folha de livro. Tinha bordados a fio de ouro, de um lado a palavra amor; do outro lado em semicírculo o nome Rodrigues de Seixas; no centro do qual estava um monograma composto de um F e um A entrelaçados. 

Esta prenda de Adelaide Amaral, e a alusão ao próprio casamento feita na comunidade do apelido, não diziam novidade a Aurélia. Ela sabia coisas talvez mais pungentes para seu amor; porém o tempo já as tinha expungido da memória. Eram a cicatriz que essa lembrança crua veio reabrir e ulcerar. 

Todo aquele passado doloroso, de que mal começava a desprender-se, surgiu de novo ante ela, como um espetro implacável. Curtiu novamente em uma hora imóvel todas as aflições e angústias, que havia sofrido durante dois anos. Esta fita escarlate queimava-lhe os olhos e os dedos como uma lâmina em brasa, e ela não tinha forças para retirar a vista e a mão das letras de ouro e púrpura, que entrelaçavam com o nome de seu marido, o nome de outra mulher. 

Afinal prorrompeu a indignação. A seda rangiu entre as mãozinhas crispadas, que debalde tentaram espedaçá-la. Não conseguindo seu intento, a moça levou à boa a fita; num soberbo ímpeto de cólera, cortou com os dentes os fios que teciam as letras, e dilacerou a prenda de sua rival. 

Atirou então de si com asco os fragmentos, mas em lugar onde não escapassem à vista do marido, e foi encerrar-se em seu toucador. 

Seixas entrou à hora habitual. De ordinário passava pela saleta, onde sempre encontrava a mulher, que já vestida para a tarde, vinha esperá-lo. Trocavam algumas palavras, depois do que ele ia ao seu quarto preparar-se para o jantar. 

Nesse dia subiu pela escada particular. Já estava senhor de si; mas quis evitar o encontro, naturalmente porque necessitava daqueles momentos. 

Efetivamente, logo que chegou ao gabinete, sem dar-se ao trabalho de apanhar os papéis que jaziam pelo chão, nem aperceber-se dos fragmentos da fita que estavam em cima da secretária, abriu uma gaveta de segredo, tirou um livrinho de notas, de que extraiu alguns algarismos. Sobre estes começou uma série de cálculos e operações que o absorveram até o momento de chamá-lo o criado para jantar. 

Aurélia não podia ocultar sua irritação. Crivou o marido de remoques e epigramas. 

Nem a inofensiva D. Firmina escapou a essa veia sarcástica; mas o alvo principal foi Adelaide, sobre quem choveram as alusões. 

Seixas mostrou-se indiferente às provocações. Deixou passar os motejos sem redargüir; mas sua fisionomia desdenhosa e sobranceira opunha à exacerbação da moça fria e surda resistência que ainda mais a irritava. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...9899100101102...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →