Por José de Alencar (1878)
— Devo dizer-lhe que a principio também inquietou-me aquele estado; busquei um pretexto para tocar nesse ponto delicado. Carlos compreendeu-me logo e respondeu com franqueza: "É verdade; há ocasiões em que sinto Julieta perto de mim, e em que vivo com ela, como outrora. É a sua alma que me acompanha, ou é a minha lembrança que a tem sempre viva e presente ao meu espírito? Seja o que for, isso me consola e me restitui a felicidade que perdi. Que necessidade tenho eu de investigar este mistério ou dissipar esta ilusão? Não há maior mistério e maior ilusão do que a vida; e nós vivemos sem conhecer, nem a nossa origem, nem a realidade de nossa existência". Eis as palavras que ele me disse, e com a maior simplicidade e placidez de ânimo. A razão e a ciência não teriam outra linguagem; e quer a senhora que eu qualifique de mania essa plenitude de consciência?
Capítulo 6
No dia seguinte à partida, pelo fim da tarde, a família Veiga achava-se reunida como de costume na varanda, que ficava à esquerda, no centro do edifício.
Tinham-se levantado da mesa de jantar e tomavam café gozando da fresca.
D. Felícia conversava com o marido acerca do Dr. Henrique Teixeira. Tinha ela notado o interesse e atenção que a filha mostrara ao médico, a quem vira na véspera pela primeira vez, assim como a rápida intimidade que se estabelecera entre ambos.
Talvez que esse impulso da moça tão volúvel e caprichosa sempre com os outros, e ainda mais com os seus apaixonados, fosse o indício de uma inclinação nascente. O Sr. Veiga acolhia pressuroso essa esperança, felicitando-se com a mulher pela realização do seu mais ardente desejo e, como homem positivo, pensava já nos meios práticos de efetuar o negócio:
— Amanhã mesmo vou tirar informações, disse ele, e acrescentou logo: por cautela! Mas estou convencido de que hão de ser das melhores. Pareceu-me homem sério.
Enquanto os pais, a meia voz, se ocupavam do seu futuro, Amália percorria a varanda, repetindo de memória, somezzo, a sua parte do dueto, cantado na véspera. Avivava assim a recordação dos aplausos que a tinham saudado nos trechos mais lindos; e ao mesmo tempo apreciava severamente a sua execução, para corrigi-la e dar-lhe maior realce.
Aproximava-se às vezes do balaústre onde colocara a taça de porcelana e molhava no café já frio os lábios, que ela sugava depois com um gesto gracioso para continuar os seus exercícios de vocalização.
Em uma dessas ocasiões seus olhos caíram sobre a casa vizinha, que muitas outras vezes lhe tinha da mesma forma interceptado a vista, sem que excitasse o menor reparo de sua parte. Era um edifício como qualquer de tantos que povoavam a rua por todos os lados.
Nesse momento, porém, seu espírito recebeu uma expressão mais definida. Lembrou-se de que era aquela a habitação desse Carlos, de quem na véspera lhe falara com tanta amizade e calor o Henrique Teixeira.
Todas as particularidades de sua conversação com o médico lhe acudiram à mente. Esquecendo o dueto, repassou de memória as palavras que ouvira acerca do viúvo e então, como já não estava dominada do sestro de motejar e meter a ridículo tudo quanto era sentimental, compenetrou-se mais das observações do doutor e dos fatos por ele referidos.
Quando absorta nestes pensamentos olhava o edifício meio oculto pelos bambus e avermelhado pelo arrebol, viu Hermano que passava entre as árvores, e aproximava-se do banco favorito.
A moça, disfarçando a sua curiosidade, recolheu o airoso busto na penumbra da coluna, para observar o solitário passeador, que se sentara a pequena distância do muro da chácara, em lugar onde ela o via perfeitamente por entre a folhagem.
Impressionada pela narração de Teixeira, examinou a fisionomia, e notou que ela não tinha nesse momento a expressão de recolhimento e abstração própria do homem que está só. O seu olhar não era de contemplação; animava-o o raio do espírito em comunicação com outro espírito: não era o olhar que vê, mas o olhar que fala, que transmite a impressão em vez de recebê-la.
Uma vez Hermano ergueu-se; foi até a platibanda, colheu uma flor, um lírio, e tornando a seu lugar, conservou-o na mão com o gesto expressivo de quem o mostrasse a outrem sentado à sua direita.
Então operou-se em Amália um fenômeno psicológico, estranho para ela que vivia unicamente no presente, porém em si mui natural e freqüente. Assim como na tela de um transparente as figuras assomam de repente quando as colocam a contraluz, da mesma forma na memória da moça desenharam-se cenas da infância esquecidas por tantos anos.
Pareceu-lhe que via como outrora os dois noivos sentados no mesmo banco à sombra dos bambus. Uma tarde, Hermano tinha colhido a mais linda flor do lírio e a apresentara à mulher dizendo-lhe:
— É a tua imagem.
— Então guarda-a, respondeu a mulher; e inclinando-se sobre a flor, bafejou-a com o hálito. Dei-lhe um pouco de minha alma.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.