Por José de Alencar (1857)
Ernesto, Custódio, Teixeira, Júlia
Custódio (erguendo-se com o jornal na mão) — Isto é desaforo!... Como é que um governo se anima a praticar semelhantes coisas na capital do império?
(Teixeira e Júlia têm entrado enquanto fala Custódio).
Teixeira — Que é isto, compadre! Por que está tão zangado? (A Ernesto) Ernesto, como passaste a noite?
Ernesto — Bem, meu tio.
Custódio (mostrando o jornal) — Pois não leu? Criou-se uma nova repartição! Um bom modo de arranjar os afilhados! No meu tempo havia menos empregados e trabalhava-se mais. O Real Erário tinha dezessete, e fazia-se o serviço perfeitamente!
(Júlia senta-se na conversadeira).
Teixeira — Que quer, compadre? É o progresso.
Custódio — O progresso da imoralidade.
(Teixeira toma um jornal sobre a mesa; Custódio continua a ler; Ernesto aproximase de Júlia)
Ernesto — Um minuto!... Foi um minuto com privilégio de hora!
Júlia (sorrindo) — Acha que me demorei muito?
Ernesto — Inda pergunta! E agora aí está meu tio, não teremos um momento de liberdade!
Júlia — Sente-se! Podemos conversar.
Ernesto (sentando-se) — Preferia que conversássemos sem testemunhas!
Júlia — Tenha paciência, não é culpa minha.
Ernesto — É de quem é, Júlia? Se não se demorasse! (Entra Augusto).
CENA VII
Os mesmos, Augusto
Augusto (entrando) — Com licença!
Teixeira — Oh! Sr. Augusto!
Augusto (a Júlia) — Minha senhora! (a Ernesto e Custódio) Meus Srs.! (A Teixeira) Como passou de ontem, Sr. Teixeira? Peço desculpa da hora imprópria... (Ernesto levanta-se e passa ao outro lado).
Teixeira — Não tem de que. Estou sempre às suas ordens.
Augusto — Como me disse que talvez não fosse hoje à cidade...
Teixeira — Sim; por causa de meu sobrinho que embarca às onze horas.
Augusto — Assentei de passar por aqui, para saber o que decide sobre aquelas cem ações. Talvez hoje tenham subido, mas em todo o caso, não é bom fiar. Se quer o meu conselho — Estrada de Ferro — Estrada de Ferro — e largue o mais.
Rua do Cano, nem de graça! Seguros estão em completa oscilação.
Teixeira — O Sr. pode demorar-se cinco minutos?
Augusto — Como? Mais que o Sr. queira; apesar de que são quase dez horas, e às onze devo fechar uma transação importante. Mas temos tempo...
Teixeira — Pois então faça favor; passemos ao meu gabinete; quero incumbir-lhe de uns dois negócios que podem ser lucrativos.
Augusto — Vamos a isso! (cumprimentando) Minha Sra.! Meus Srs.! (A Teixeira, dirigindo-se ao gabinete) É sobre estradas de ferro? (Saem, Ernesto aproxima-se de Júlia).
CENA VIII
Ernesto, Custódio, Júlia
Custódio — Estrada de ferro! Outra mania! No meu tempo viajava-se perfeitamente daqui para Minas, e as estradas eram de terra. Agora querem de ferro! Naturalmente para estragar os cascos dos animais.
Ernesto — Tem razão, Sr. Custódio, tem toda a razão!
Júlia (a meia voz) — Vá, vá excitá-lo, depois não se queixe, quando armar uma das suas questões intermináveis.
Ernesto — É verdade! Mas fiquei tão contente, quando meu tio saiu, que não me lembrei que estávamos sós. (Senta-se). Diga-me uma coisa, prima; que profissão tem este Sr. Augusto?
Júlia — É um zangão!
Ernesto — Estou na mesma. Que emprego é esse?
Júlia (sorrindo) — Eu lhe explico. Quando passeávamos pelo jardim, não se lembra que às vezes parávamos diante dos cortiços de vidro que meu pai mandou preparar, e escondidos entre as folhas levávamos horas e horas a ver as abelhas fabricarem os seus favos?
Ernesto — Lembro-me; e por sinal que uma tarde uma abelha fez para mim um favo de mel mais doce do que o seu mel de flores. Tomou a sua face por uma rosa, quis mordê-la; a Sra. fugiu com o rosto, mas eu que nunca volto a cara ao perigo, não fugi... com os lábios.
Júlia (confusa) — Está bom, primo! Ninguém perguntou-lhe por esta história! Se quer que lhe acabe de contar, cale a boca.
Ernesto — Estou mudo como um governista. Vamos ao zangão!
Júlia — Enquanto estávamos embebidos a olhar aquele trabalho delicado, víamos um besouro parecido com uma abelha, que entrava disfarçado no cortiço; e em vez de trabalhar, chupava o mel já fabricado. Não via?
Ernesto — O que eu me recordo ter visto perfeitamente eram dois olhozinhos travessos...
Júlia
(batendo o pé) — Via sim; eu lhe mostrei muitas vezes.
(continua...)
ALENCAR, José de. Verso e Reverso. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16680 . Acesso em: 28 jan. 2026.