Por José de Alencar (1875)
- Não, senhor; nada de exagerações. Só tem licença para afirmar que a noiva não é velha nem feia.
- Quer preparar a surpresa.
- Talvez. Os termos da proposta...
- Com licença! Desde que deseja conservar o incógnito, não devo aparecer? Aurélia refletiu um instante.
- Não quero que isto passe do senhor. Caso ele o reconheça como meu tio e tutor, não poderia o senhor convencê-lo que eu não tenho nisso a mínima parte? Que é um negócio da família ou dos parentes?
- Bem lembrado! Eu cá me arranjo; não tenha cuidado.
- Os termos da propostas devem ser estas; atenda bem. A família da tal moça misteriosa deseja casá-la com separação de bens, dando ao noivo a quantia de cem mil cruzeiros de dote. Se não bastarem cem mil e ele exigir mais, será o dote de duzentos mil...
- Hão de bastar. Não tenha dúvida.
- Em todo o caso quero que o senhor compreenda bem meu pensamento. Desejo
como é natural obter o que pretendo, o mais barato possível; mas o essencial é obter; e portanto até metade do que possuo, não faço questão de preço. É a minha felicidade que vou comprar.
Estas últimas palavras, a moça proferiu-as com uma indefinível expressão.
- Não será caro?
- Oh! Exclamou Aurélia, eu daria por ela toda a minha riqueza. Outras a têm de graça, que lhes vem diretamente do céu. Mas não me posso queixar, pois negando-me esse bem, Deus compadeceu-se de mim, e enviou-me quando menos esperava tamanha herança para que eu possa realizar a aspiração de minha vida. Não dizem que o dinheiro traz todas as venturas?
- A maior ventura que dá o dinheiro é possuí-lo; as outras são secundárias, disse o Lemos como entendido na matéria.
Aurélia, que um instante se deixara arrebatar pelo sentimento, voltava ao tom frio e refletido com que havia discutido até ali a questão de seu futuro.
- Falta-me ainda, meu tio, recomendar-lhe um ponto. A palavra, além de esquecer, está sujeita a equívocos. Não seria possível tratar este negócio por escrito?
- Passar o sujeito um papel?... Certamente; mas se ele roer a corda, não há meios de obrigá-lo a casar.
- Não importa. Eu prefiro confiar-me à honra dessa pessoa, antes do que aos tribunais. Com uma obrigação em que ele empenhe sua palavra ficarei tranqüila.
- Há de se arranjar.
- Eis o que espero de sua amizade, meu tio.
O Lemos deixou passar a ironia que acentuara a palavra amizade, e esticou a prumo diante dos olhos e contra a luz, a folha de papel em que tomara as notas.
- Vejamos!... Tavares do Amaral, empregado da alfândega... a filha D. Adelaide, trinta mil cruzeiros... O Dr. Torquato Ribeiro... garantir cinqüenta mil... O outro... de cem até duzentos mil. Só me falta o nome.
Aurélia tirou da carteirinha o bilhete de visita e apresentou-o ao tutor. Como este se preparasse para repetir em alta voz o nome, ela o atalhou com a palavra breve e imperativa que às vezes lhe crispava os lábios.
- Escreva!
O velhinho copiou as indicações que havia no cartão e o restituiu.
- Nada mais?
- Nada, senão repetir-lhe ainda uma vez que entreguei em suas mãos a única felicidade que Deus me reserva neste mundo.
A moça proferiu estas palavras com um tom de profunda convicção que penetrou o bonacho cepticismo do velho.
- Há de ser muito feliz, eu lhe garanto.
- Dê-me esta felicidade, que eu tanto invejo; eu lhe darei da que me sobra.
- Conte comigo, Aurélia.
O velhinho apertou a mão da moça, que lhe tocara o coração com a última promessa e retirou-se.
Quando chegou à casa, ainda o Lemos não estava de todo restabelecido do atordoamento que sofrera.
V
Havia à rua do Hospício, próximo ao campo, uma casa que desapareceu com as últimas reconstruções.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.