Por José de Alencar (1870)
Conheceram afinal que era impossível levar sua avante pelos meios ordinários. Foi então laçado o animal pela garupa em um dos corcovos, e jungido ou antes, enrolado ao moirão. Preso assim da cabeça e dos quadris, ficou tolhido de todo o movimento; mas um tremor convulso percorria-lhe o corpo, e a polpa da narina trepidava com as baforadas do hálito ardente, que se coalhavam na fria temperatura da manhã como frocos de fumaça.
Em um ápice estava a égua arreada. Eram a cincha, o peitoral e as rédeas, feitos de couro cru, que lá chamam guasca, e depois de seco resiste ao aço.
— Quem vai, gente? perguntou um da roda.
Ninguém respondeu.
— Esfriou-lhes a gana! Exclamou o chileno com riso motejador.
— Eu cá estava à espera dos senhores para não dizerem que lhes tomava a mão, disse afinal o paraguaio. Visto ninguém querer, vamos nós bailar, rapariga.
— Nada, o amigo que primeiro apostou, deve ter a dianteira. Não é, senhores?
— Pois decerto.
— Então, perguntou o paraguaio dirigindo-se ao chileno: o animal é de quem montar. Está dito?
— E escrito.
— Não há mais arrepender?
— Palavra de um guasca. Arrebenta, mas não arrepende.
— Bravo! exclamaram em roda.
Para ter jeito de montar, afrouxou o paraguaio o laço que prendia os quartos do animal ao tronco; e ajustando as rédeas, pôs o pé na soleira do estribo.
Imediatamente aos olhos dos campeiros atônitos passou uma coisa subitânea, confusa e estrepitosa; uma espécie de turbilhão para o qual só há um termo próprio. Foi uma erupção.
Abolara-se a égua, como a serpente quando se enrosca para arremessar o bote. Retraiu-se o flanco sobre os quadris agachados, enquanto a tábua do pescoço arqueou dobrando a cabeça ao peito intumescido. De súbito, esse corpo que se fizera bomba, estourou. Espedaçados, voaram os arreios pelos ares e o paraguaio, arremessado pelos cascos do animal, rolava no chão.
— Irra! gritou o invernista.
Viram os campeiros desenvolver-se daquele turbilhão de pó uma forma elegante e nervosa que relanceou por diante deles estupefatos. A égua desaparecera; mas ouvia-se ainda o estrépito cadente do rápido galope.
VI
A BAIA
Calmo na aparência, mas abalado no ânimo, assistira o brasileiro à cena anterior, encostado à pilastra do alpendre.
— Que eguazinha, hein, Manuel Canho? disse o dono da pousada aproximando-se.
Respondeu o rio-grandense com um sorriso, levantando os ombros desdenhosamente.
— Não sabem levá-la.
Chegava no entanto o chileno, muito contente de si, a galhofar com a roda dos companheiros, entre os quais vinha derreado e coberto de poeira o gabola do paraguaio. Manuel caminhou direito a D. Romero.
— Tenho dez moedas nesta guaiaca, disse ele erguendo a aba do ponche, quer o senhor recebê-las pela égua?
— Por dinheiro algum a vendo; mas se tanto a cobiça o amigo, por que não a leva de graça? Basta montá-la, retorquiu o chileno com ironia.
— Então sustenta a aposta?
— Está entendido.
— Mande tocar o animal, Perez, disse o brasileiro voltando-se para o dono da locanda.
Os outros olharam surpresos para Manuel Canho; embora não conhecessem qual a habilidade do brasileiro na gineta, era tal a façanha, que todos à uma duvidaram do bom resultado. Pasmos com o arrojo do gaúcho, e ainda mais com a confiança e singeleza de seu modo, se preparavam para assistir a segundo trambolhão, e rir à custa do rio-grandense, como tinham rido à custa do paraguaio.
Posto cerco ao animal, os peões conseguiram depois de alguns esforços, tocá-lo para o gramado.
— Basta, disse Manuel, agora deixem a moça comigo.
Tinha a baia parado a alguma distância e vibrava o olhar cintilante sobre a gente reunida então perto do alpendre. Suspensa na ponta dos rijos cascos, longos e delgados, de cabeça levantada, cruzando a ponta das orelhas finas e canutadas, com o pêlo erriçado e a cauda opulenta a espasmar-se pelos rins, parecia o animal prestes a desferir a corrida veloz.
O Canho adiantou-se alguns passos, cravando o olhar na pupila brilhante da baia, ao passo que soltava dos lábios um murmurejo semelhante ao rincho débil do poldrinho recém-nascido, quando busca a teta materna. No semblante rude e enérgico do moço gaúcho se derramava um eflúvio de ternura.
Ao doce murmurejo, as orelhas do animal titilaram com ligeiro estremecimento, enroscando-se como uma concha, para colher algum som remoto, esparso no ar. Fita no semblante de Manuel a vista ardente e sôfrega, dir-se-ia que a inteligente égua interrogava o pensamento do homem e queria compreendê-lo.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.