Por José de Alencar (1857)
PEDRO - Ora, moço pode gostar de três moças ao mesmo tempo. Esse bicho que se chama amor, está nos olhos, nos ouvidos e no coração: moço gosta de mulher bonita só para ver, de mulher de teatro só para ouvir cantar e de mulher de casamento para pensar nela todo o dia!
CARLOTINHA - Não sejas tolo! A gente só deve gostar de uma pessoa! Aposto que o tal Sr. Alfredo é desses!
PEDRO - Qual! Sr. Alfredo é só de nhanhã; mas é preciso responder a ele.
CARLOTINHA - Já não te disse a resposta? Por que não deste?
PEDRO - Homem não gosta dessa resposta de boca, diz que é mentira. Gosta de papelinho para guardar na carteira, lembrando-se do anjinho que escreveu.
CARLOTINHA - Escrever, nunca; não tenho ânimo!...
PEDRO - Pois, olhe, nhanhã tira duas violetas; põe uma nos cabelos, manda outra a ele! Isto de flor!... Hum!... Faz cócegas no coração.
CARLOTINHA - Deste modo... sim... eu podia...
PEDRO - Então vá buscar a flor já! Pedro leva!
CARLOTINHA - Não, não quero!
PEDRO - Eu vou ver!
CARLOTINHA - Não é preciso! Eu tenho!...
PEDRO - Ah! Nhanhã já tem!
CARLOTINHA - Estão aqui. (No seio.)
PEDRO - Melhor! Dê cá, nhanhã.
CARLOTINHA - Mas olha!... Não!
PEDRO (tomando) - Hi!... Sr. Alfredo vai comer esta violeta de beijo só, quando souber que esteve no seio de nhanhã!
CARLOTINHA - Dá-me! Não quero!
CENA VI
CARLOTINHA, EDUARDO
CARLOTINHA - Meu Deus! Ah! Mano!
EDUARDO - Já soube tudo, uma malignidade de Pedro. É a conseqüência de abrigarmos em nosso seio esses reptis venenosos, que quando menos esperamos nos mordem no coração! Mas, enfim, ainda se pode reparar. Escreveste a Henriqueta?
CARLOTINHA - Sim; a resposta não deve tardar!
EDUARDO - Tu és um anjo, Carlotinha!
CARLOTINHA - Como se engana, mano!
EDUARDO - Que queres dizer?
CARLOTINHA - Nada! Eu devia lhe contar! Mas...
EDUARDO - Tens alguma coisa a dizer-me? Por que não falas?
CARLOTINHA - Tenho medo!
EDUARDO - De teu irmão! Não tens razão!
CARLOTINHA - Mesmo por ser meu irmão, não gostará...
EDUARDO - Mais um motivo. Um irmão, Carlotinha, é para sua irmã menos do que uma mãe, porém mais do que um pai; tem menos ternura do que uma, e inspira menos respeito do que o outro. Quando Deus o colocou na família a par dessas almas puras e inocentes como a tua, deu-lhe uma missão bem delicada; ordenou-lhe que moderasse para sua irmã a excessiva austeridade de seu pai e a ternura muitas vezes exagerada de sua mãe; ele é homem e moço, conhece o mundo, porém também compreende o coração de uma menina, que é sempre um mito para os velhos já esquecidos de sua mocidade. Portanto, a quem melhor podes contar um segredo do que a mim?
CARLOTINHA - É verdade, suas palavras me decidem. Você é meu irmão, e o chefe da nossa família, desde que perdemos nosso pai. Devo dizer-lhe tudo; tem o direito de repreender-me!
EDUARDO - Cometeste alguma falta?
CARLOTINHA - Creio que sim. Uma falta bem grave!
EDUARDO - Minha irmã... Acaso terás esquecido!...
CARLOTINHA - Oh! Se toma esse ar severo, não terei ânimo de dizer-lhe!
EDUARDO (com esforço) - Estou calmo, mana, não vês? Fala!
CARLOTINHA - Sim ! Sim! É que me custa a dizer!... Não faz idéia!
EDUARDO - Vamos! Coragem!
CARLOTINHA - Conhece um moço, que às vezes lhe vem procurar... chama-se Alfredo!...
EDUARDO - Que tem!...
CARLOTINHA - Pois esse moço... ama-me, e...
EDUARDO - E que fizeste?
CARLOTINHA (atirando-se ao peito de EDUARDO) - Mandei-lhe uma flor!... Mas uma só!
EDUARDO - Ah! Assim é esta a falta que cometeste? A primeira e a única!
CARLOTINHA - Não!... Devo dizer-lhe tudo! Li esta carta. Tome, ela queima-me o seio.
EDUARDO (lendo) - Quem te entregou?
CARLOTINHA - Pedro deitou no meu bolso sem que o percebesse.
EDUARDO - Oh! Eu adivinhava! E respondeste?
CARLOTINHA - Pois a violeta foi a resposta! Não queria dar. Mas lembrei-me que assim como Henriqueta lhe amava, também eu podia amá-lo!...
EDUARDO - Tens razão, minha irmã. Cometeste uma falta, mas te arrependeste a tempo. Não te envergonhes disto; és moça e inexperiente, a culpa foi minha, e minha só.
CARLOTINHA - Sua, mano! Como?
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.