Por Camilo Castelo Branco (1882)
O administrador, um bacharel, de cabeleira à Saint-Simon, era discursivo e não perdia lanço de eloquência em casos de um romanesco medonho. A torrente do rio rugia quebrada pelo triângulo dos pegões. Uma rica e fúnebre paisagem, cortada de um lado pelos cata-ventos que rangiam nas cristas das torres do mosteiro, e do outro pela mata verde-negra, eriçada de pinheiros gementes. Um pitoresco cheio de sugestões, de uma palpitação ciclópica. Depois o enorme auditório, trezentas cabeças, flutuando com as bocas muito escancaradas numa bestialidade feramente espasmódica de lobos espantados por um archote aceso. O meio era demosténico, inspirativo. Borbotou-lhe a golfos um palavreado discreto, aconselhando a turba a retirar-se aos seus apriscos, à honrada labutação dos seus mesteres, e a não perturbarem com demagogias a pacificação dos ânimos e a sacratíssima inviolabilidade das instituições. Quando o funcionário fechou a parlenda, um dos mais bêbedos. quer por chalaça, quer por insuficiente compreensão dos princípios políticos da autoridade, atirou o chapéu ao ar e exclamou: .
A autoridade ia replicar; mas a gritaria abafou-o. Ele voltou as costas à canalha, e foi-se com bons exemplos de oradores antigos. Os liberais, logo que o viram retroceder, entraram na ponte de madeira com um sonoro estrondo de marcha cadenciada.
Capitaneava-os um escrivão de direito, dos 7500, cavaleiro da Torre e Espada, o Lobato, que pedira baixa de tenente no fim da campanha.
Outro bravo, o ex-sargento Lopes, que era guarda-chefe dos tabacos, tinha pedido vinte homens, e atravessara com eles o Ave, na revolta do rio, sem ser visto, na bateira do José Pinto Soares. Ele não podia levar a bem que aqueles pategos se retirassem sem uma sova pela retaguarda e outra pela frente. Contava com a debandada pela ladeira das matas, e prometia, lá do alto, escorraçá-los de modo que eles se espetassem entre dois fogos. Os seus vinte homens eram soldados com baixa, guardas do tabaco, e sócios aposentados das quadrilhas de 1834 – um misto de políticos, de ladrões e mártires das enxovias.
Os quatro facínoras da horda do alferes, quando viram a marcha firme e solene dos de Santo Tirso – é agora, rapazes! – exclamaram, desfechando as espingardas. Os populares que as tinham, descarregaram as suas, e avançaram, ponte dentro, numa arremetida impetuosamente esbandalhada, de rodilhão. Uma das balas prostrara um arneiro da primeira fila dos liberais; havia mais alguns feridos que se amparavam gementes as guardas da ponte. O bravo do Mindelo viu cair morto o seu homem, e, contendo a fúria das fileiras numa disciplina rigorosa, deu a voz da descarga à primeira, e mandou abrir passagem à imediata, que sustentava o fogo enquanto a outra carregava as armas.
Os pelouros cortavam fundo pelas carnes da populaça. Viam-se homens que fugiam a coxearem, atiravamse às ribanceiras, escabujando em arrancos de morte. Os que não tinham espingardas e ainda os que as tinham sem cartuchame pegavam dos tamancos e galgavam socalcos, buscando o refúgio dos pinhais e carvalheiras.
O alferes sentiu um choque duro de coisa que lhe contundia as costas e lhe apertava o pescoço. Era o Retrinca de Santiago de Antas, o mais feroz da sua malta, que se amparava nele, quando caía varado por um pelouro. Este espectáculo trivial não aterrava o soldado de Ponte Ferreira, das Antas e da Asseiceira; mas dava-lhe as antigas pernas que o serviram nessas gloriosas batalhas. Tinha cinquenta anos, e fugia ganhando a dianteira aos garotos do seu bando destroçado. Porém, quando ele escalava a ladeira barrenta que se precipita ao sopé do monte, desciam em saltos de bezerros mordidos por vespereiros os seus homens, num turbilhão, acossados pelo tiroteio da companhia do ex-sargento Lopes – uns barbaçudos que pareciam gigantes no topo da colina, e davam uns berros clangorosos imitantes a mugidos de bois. O dia de juízo!
O Gaspar arrepiou carreira e desfilou por uma várzea alagada que ia esbeiçar com o rio. Como a banda do alferes vermelhava ao longe, e a espada a prumo no punho lhe dava uma caracterização jeitosa e provocante para alvejar as espingardas, as balas sibilavam-lhe por perto, chofrando nos pântanos. Alguns homens perseguiam-no chapinando no lameiral, porque o chefe dos tabacos, o Lopes, dizia-lhes: Os mais veleiros levavam-no esfalfado, cambaleando, atortemelado, quando o viram desaparecer de súbito entre uma espessa moita de plátanos. Daí a instantes, abeirando-se à ourela do rio, viram a barretina e a niza de saragoça sobre uns cômoros ervecidos; e, a distância de dez varas, aquele bêbedo imortal atravessava o rio a nado, numa tarde de Dezembro, com a espada nos dentes, e a banda a tiracolo.
– Ó alma do Diabo! – dizia o Patarro de Monte Córdova, cevando a arma com zagalotes para lhe atirar. – Vou matar aquele pato bravo!
E o mais novo dos quatro, um imberbe que tinha pai:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.