Por Machado de Assis (1864)
Enfim, no dia seguinte, isto é, no dia em que Eduardo resolvera ir salvar a moça, aparecem, à porta de Almeida, Maria Luísa com sua mãe.
Sara recebeu a sua rival, ou antes a sua co-mártir, como se fora uma irmã querida, por quem se espera para morrer. Maria Luísa chorou muito; e, por uma inversão dolorosa dos papéis, era Sara quem consolava a viúva.
— Mas é por ti que eu choro, meu anjo! dizia Maria Luísa.
— Por mim?
— Sim, por ti, que não tens coragem, que te quebraste ao primeiro embate da vida...
— Não digas isso... Eu estou boa... Nada tenho... Sofri, é certo; mas passou... Olha, faço hoje anos... Hás de jantar comigo... Vou levantar-me logo... Verás... Verás... Senta-te... Maria Luísa olhou com olhos rasos de lágrimas para a pobre moça.
— Ainda bem, minha filha, disse Almeida procurando sorrir, ainda bem que te mostras assim. Isso é que eu quero. Não te importes com os males da vida; todos sofrem; mas faze como fazem muitos: fica sobranceira a tudo.
— Dezessete anos! murmurava a viúva... é a aurora da vida...
As duas conversaram largamente. A mãe de Maria Luísa e o pai de Sara deixaram o quarto; as duas podiam folgadamente falar do que as tornara infelizes. Era assim mais fácil a Maria Luísa inspirar a Sara os sentimentos de coragem e sobranceria a que ela própria devera não ter sucumbido. Chegou mesmo a aventurar uma idéia de vingança como satisfação do coração ofendido.
Mas aqueles dois corações, que concordavam em um ponto, não se entendiam naquele. Sara não era feita para resistir a uma comoção como a que a prostrara. Ouvia sorrindo Maria Luísa, mas abanava a cabeça a tudo. E quando a viúva, para decidi-la mais, lembrava-lhe que poderia sucumbir deveras, Sara respondia que estava perfeitamente boa e não podia inspirar cuidados a ninguém. Esta resistência aos que a chamavam à vida comovia ainda mais. Só havia um meio, talvez, de salvar Sara: era a presença e o amor de Eduardo.
Esta idéia passou rápida pelo espírito de Maria Luísa. A nobre mulher não discutiu consigo nem o ato, nem as conseqüências, nem o seu coração. Adotou o pensamento como se fora inspiração do céu.
Maria Luísa amava realmente Eduardo. Desiludida, sofreu muito, e só deveu ao orgulho e à energia do seu coração não ter, como Sara, sucumbido ao desespero. Mas os grandes sentimentos do seu coração não eram só o do amor e o do ciúme. O ato que ia praticar era de uma alma nobre, educada no culto do dever e do sacrifício. Naquele instante, ela via diante de si uma pobre menina que sofria, e morria por aquele mesmo que a fizera sofrer. Compreendia bem a medida desse sofrimento. A viúva procurou sondar o espírito da enferma:
— Ora, dize-me, se visses Eduardo, o que farias ?
— Se o visse? É impossível.
— Impossível, por quê?
— É impossível.
— Ora, não digas isso. Mas se o visses, se ele viesse agora, hoje, e te dissesse: Vive?
— Não vem e não diz...
— Por quê?
— Por que não me ama.
— Quem sabe?
— Oh! Nem me ama, nem te ama.
— Só por isso?
— E também porque nós o amamos.
— Eu não.
— Não?
— Não.
A moça abanou a cabeça murmurando: inútil.
Maria Luísa procurou meio de escrever a Eduardo; e conseguiu traçar à pressa, em um quarto de papel, as seguintes palavras:
Quer o perdão que me pede? Sara está às portas da morte; venha, diga-lhe que a ama, peça-a e case daqui a um mês. Está perdoado.
Maria Luísa.
O portador que levou este bilhete encontrou Eduardo na ponte das barcas da corte. Eduardo, ao ler o bilhete da viúva, sentiu-se humilhado. Enganara duas mulheres; uma morria de pesar, outra pedia-lhe que a salvasse, sacrificando-se; entre aquelas nobres almas, a alma de Eduardo sentia-se abatida. Não se deteve mais; tomou a barca, que partiu dali a cinco minutos.
Logo depois de partir o portador do bilhete, entrou o médico na casa da doente. Achou-a muito pior, e disse-o francamente à família.
Que fazer? Tudo o que foi preciso, fez-se. Maria Luísa, ajoelhada diante de um oratório, pedia a Deus duas coisas: que prolongasse a vida de Sara por algumas horas e apressasse a chegada de Eduardo.
Foi inútil. Sobreveio uma crise à enferma, e após a crise o médico desesperou. Entretanto, Sara, com o sorriso nos lábios e o olhar sereno, dizia alguma palavra em voz já muito fraca, mas com a segurança de quem está certa de ir para uma morada melhor. Maria Luísa pedia-lhe que vivesse; dizia-lhe que Eduardo não tardaria; o pai a um canto não tinha forças para ver, para pedir, nem chorar; estava atônito.
— Não, dizia ela, ele não vem. E que venha, sei que não me ama, e sem me amar não o quero.
O médico fez vir o sacerdote.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Questão de vaidade. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1864.