Por Coelho Neto (1898)
Vendo-os, o Gama, que vinha escarmentado do que com outros já lhe havia succedido ao longo d'aquellas praias africanas, quiz que os homens baixassem á terra precavidos e assim communicaram sem receio fazendo trocas com os incolas que pareciam hospitaleiros e trataveis, tanto que se chegavam jocundamente, bailando ao som de estridulos anafís e de atabales.
Tão bem pareceram aos navegantes aquelles homens que, folgando nos seus bandos, se puzeram em alegria com elles ; o mesmo Gama, despindo a sua sisuda gravidade, entre elles bailou honrando os trebelhos dos barbaros, caso que fez espanto á sua gente. Mas, desejando o capitão haver um boi dos muitos que por aquellas hervas engordavam, ordenou a Martim Affonso que se chegasse aos negros propondo-lhes tomar o gado em troca de manilhas, mas os perfidos já imaginavam uma traição, o que, percebendo o Gama astuto, mandou sair á terra gente armada. Vendo luzir o espiculo das lanças abalou a negrada espavorida.
Não querendo o capitão deter-se em contendas inuteis, não só para que d'elle não ficasse fama de cruel que em muito podia prejudical-o como, principalmente, para poupar os poucos homens que levava, chamou ás naus os combatentes despejando em terra, como por despedida e exemplo do seu poder, dois estrondosos disparos de bombardas.
Aos estouros os negros, com as mãos nos ouvidos e bramando, embrenharam-se no arvoredo esquecendo na praia, abandonadas, as pelles mosqueadas que lhes serviam de resguardo e adorno.
Para assignalarem o sitio erigiram os portuguezes um cruzeiro que bem dizia ser demareantes porque era armado com uma naezena e, n'um comoro, puzeram um dos padrões que traziam com as armas reaes e o lemma « Do senhorio de Portugal reino de christãos». Tanto, porém, que as naus se foram alargando no mar os negros desceram á praia em chusma e, com vozerio selvagem, derribaram o cruzeiro e o padrão tripudiando barbaramente no sitio em que haviam estado os symbolos da religião e da patria dos exploradores.
Depois de haver de novo chegado á terra, pouco adiante da angra que teve o nome de S. Braz, indo as naus por mar grosso, assaltou-as tão temerosa tempestade que os homens, desanimados, tiveram por certa a morte, pensando que jamais haviam de avistar lindes de salvamento porque, desde que do rio patrio se haviam amarado, ventos tão fortes nunca os acossara nem tão volumoso oceano os envolvêra.
A agua era tanta a bordo, rolando, com fragor, no bojo fundo, que não lhe davam vasão todas as bombas; rôto o panno, desfeitos varios cabos, ninguem mais se occupava com a manobra entendendo que era perder esforço em vão serviço; já o desanimo abatia os mais intrepidos quando se foram abonançando as aguas sendo de novo vista a nau de Nicoláo Coelho que se havia desgarrado.
Por sobre mares, de então por diante favoraveis, seguio a frota escalavrada avistando, de bem longe, os chamados Ilhéos Chãos e pouco além o Ilhéo da Cruz onde deixara Bartholomeu Dias o seu padrão derradeiro. N'esse ponto algum tempo demoraram e, descendo á terra, foram alguns procurando indicios dos que por alli haviam passado e, como na frota seguiam varios homens dos que tinham servido ao dobrador do Cabo, foram esses narrando aos mais as peripecias do primeiro desembarque, apontando lugares em que haviam estado, relatando feitos que haviam commettido.
Eram as terras de magnifica e acceitosa perspectiva, recobertas de arvores frondentes, forradas de hervas verdes e macias que se estendiam dilatadamente como mimosos tapetes naturaes e o passaredo vário cantava de mil modos cortando os ares ou nos ramos onde tinha seus ninhos pendurados. D'alli partindo em a noite immediata achou-se a frota á altura do Rio Infante que foi o ponto extremo da viagem de Bartholomeu Dias.
Navegavam com socego; os officiaes gosando o doce lazer que o mar lhes dava recompunham as memorias da aventura, tal relembrando um facto ou corrigindo-o, qual acautelando uma lembrança que trouxera d'esta ou d'aquella terra em que poiara e a maruja, descansada, cantava, como na Patria, desafiando as saudades perigosas. Iam n'esse descanço quando, demandando novamente a terra, acharam-se, como por encanto, diante do Ilhéo da Cruz que haviam deixado.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.