Por Aluísio Azevedo (1884)
Mais dous passos e estaria cara a cara com o maldito ressuscitado; nisto, porem. senti baterem-me de leve no ombro. Volto me - defronte de meus olhos estava um vulto de homem.
Era alto, magro, de cabelos pretos e barba à inglesa.
- Eu sou Castro Malta! - disse-me ele, batendo no peito com energia.
Mas, nesse instante a porta da capela abriu-se e o outro apareceu terrivelmente embrulhado na sua mortalha.
- Ah! - disse o segundo Castro, recuando de braços abertos, e logo em seguida caiu para trás, sem sentidos.
No entanto, o da mortalha se aproximou de mim e pediu-me que não me assustasse. como o outro, e fizesse o obséquio de dizer se eu era o guarda do cemitério.
- Não senhor - respondi -, sou um simples parente de um morto que se enterrou hoje.
- Ah! - exclamou o ressuscitado. - É parente de um colega meu, logo posso contar com o senhor!
E o ladrão dizendo isto nem parecia que tinha morrido na véspera e que por um triz estivera para ser metido dentro da terra.
“Muito forte deve ser o espírito deste sujeito” - pensei eu, a vê-lo sorrir defronte de mim, como se nada lhe houvesse acontecido de extraordinário.
Não me pude conter e perguntei-lhe se havia ficado impressionado com o que lhe sucedera.
- Não – disse-me ele muito naturalmente. - E até estimei a minha suposta morte. Daqui a pouco lhe direi a razão por quê. Se o senhor está resolvido a dar-me hospitalidade por esta noite, eu lhe contarei a minha história e verá o amigo que, nem só não devo estar triste em ter ressuscitado, como também não deveria ficar se tivesse morrido deveras.
- Bem - respondi. - Levá-lo-ei comigo para casa, tenho interesse igualmente em conversar com o senhor.
Interrompemos, porém, a conversa, para cuidar do sujeito que perdera os sentidos. O da mortalha abaixou-se, apalpou-lhe a testa e os pulsos, e exclamou depois:
- Ora esta!
- Que é? – interroguei.
- Pois você acredita? Este homem não se lembrou de morrer?...
- Morreu?
- Ora! Creio que até já fede! Este já não gustará mais farinha!
E voltando-se de todo para mim:
- Isto é o que se chama fortuna! A minha saída do cemitério, depois de estar inscrito nos livros dos mortos, iria talvez produzir grandes revoluções no outro mundo! Assim deixo alguém no meu lugar!
- Vai deixar esse homem no seu lugar?
- Certamente, e eu seria um asno se não aproveitasse a boa vontade com que o pobre rapaz morreu! Vou trocar o meu lugar com o dele. Eu era defunto e tinha uma mortalha: ele um vivo e tinha roupa. relógio e talvez dinheiro. Trocamos. Ele fica sobre a minha mesa de pedra e eu vou para a mesa do restaurant que o esperava. Já vê que não sou tão caipora, principalmente se atendermos para o fato de que o meu protetor tem a minha estatura e que o seu chapéu me serve.
Dizendo isto, o ressuscitado colocara na cabeça o chapéu do outro, que apanhara do chão e, agora, de cartola e amortalhado como estava. tinha alguma cousa de cômico e de horrível.
A graça é que eu, desde que me pus a confronta-los, achava os igualmente parecidos com a fotografia que me dera a Jeannite.
- Bem! tratemos de trocar as fatiotas - acrescentou o ressuscitado, despindo o outro.
E, daí a uma hora, o novo Castro Malta, competentemente amortalhado, ficava estendido sobre a mesa da capela; ao passo que o outro saia do cemitério pelo meu braço e diziame em ar de graça, consultando as algibeira:
- Relógio, corrente de ouro, cinqüenta e tantos mil-réis em dinheiro e livre, livre como as asas. Mas de tudo isso o que eu herdei de melhor daquele santo morto, foi este objeto! E mostrou me um cartão que tirara da carteira.
- Um cartão de visita?
- Sim. De hoje em diante já não existo para os meus credores e para os meus inimigos. Morri! Este que aqui vai pelo seu braço, chama se...
E lendo o cartão:
- João Alves Castro Malta.
E acrescentou, fazendo parar um carro que passava:
- Durante a viagem lhe contarei tudo.
Sou de V.Sª.
Atº. Crº. e ven.or
Novas Revelações
Sétima Carta
Sr. Redator:
Vou tentar reproduzir aqui, com a maior fidelidade que me for possível, o significativo diálogo que se travou entre mim e o extraordinário ressuscitado, depois que deixamos o cemitério e nos metemos dentro do carro.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Mattos, Malta ou Matta? Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1725 . Acesso em: 15 mar. 2026.