Por Aluísio Azevedo (1882)
Doces e apaixonadas Margaridas! se quiserdes conservar a adoração de vossos inconsistentes sacerdotes, correi duas voltas à fechadura e guardai bem convosco as preciosas chaves!
O homem gosta de ser iludido: meia verdade o prende, a verdade inteira o repele. A mulher, ao contrário, só chega a amar deveras depois de muito conviver, depois de muito se identificar com o homem a quem se deu. E se alguma grande desgraça os torna solidários das mesmas dores e das mesmas lágrimas; se ela tem ocasião de pôr à disposição do amado a meiga substância da sua abnegação, do seu sacrifício e do seu heroísmo, então o que era amor se converte em fanatismo, e a mulher deixa de ser amante para ser escrava submissa.
O homem principia sempre por dar o seu amor e acaba, quando este se esgota, por oferecer a sua amizade. A mulher, não! a mulher começa por estimar, e a sua estima vai se consolidando, vai se encarecendo, até que se transforma em amor veemente, fecundo e duradouro.
Foi isso justamente o que sucedeu com a viúva a respeito de Gregório — partiram do mesmo ponto, ela a passo, ele a galope; mas, quando a primeira se sentia arrebatada pelo ardor da carreira, já o outro jazia prostrado de cansaço, a suplicar, por amor de Deus, que o deixassem em repouso. E daí as conseqüências — o ciúme, o despeito, a raiva, o desespero, a sede de vingança.
Mas a mulher, coitada! parece que veio ao mundo predestinada para o sacrifício e para a dedicação. Uma vez presa pelo sentimento, ou pela sensualidade, quanto mais a fazem sofrer, quanto mais a pisam e maltratam, tanto mais ela estremece e adora o objeto do seu amor.
Cimo certas plantas aromáticas, que mais recendem quanto mais são trituradas, a mulher que ama, se logra urna folga no cativeiro com que se oprime o seu verdugo, não é para gemer, é para beijar-lhe os pés e repetir-lhe que o adora.
Júlia, nestas condições, soube que Gregório ia casar. Seu ímpeto instantâneo foi correr ao primeiro homem e oferecer-se para ser amada aos olhos do ingrato que assim tão cruelmente a apunhalava. Esqueceu-se de tudo, posição, interesses, tranqüilidade, para só pensar nessa vingança absurda, que lhe parecia tão necessária à sua cólera como o vinho a um ébrio.
E cega, desvairada, às tontas, queria deixar bem patente que a traição de Gregório não a atormentava, e que ela se sentia, como nunca, feliz e indiferente.
— Sofrer?... mas por quê?! monologava a infeliz, a rir forçadamente, com a voz entalada na garganta. Acaso não previa eu tudo isto?... não e ele moço, livre e cheio de esperanças? A mim que importa pois seu casamento? Que se case quantas vezes quiser! Que faça o que entender!
Mas os soluços rebentavam com explosão, e a mísera deixava-se cair sobre o divã, a chorar apaixonadamente, sacudida por um formidável desespero.
Depois, sem que ela as chamasse, vinham de enfiada as recordações dolorosas do seu amor. Os episódios felizes de outrora lhe enchiam agora o coração com uma argamassa de desgostos. Via Gregório em todas as situações venturosas de outro tempo; sentia-lhe perfeitamente o cheiro dos cabelos, a luz dos olhos e a doçura embriagadora dos seus beijos. E perseguida, aguilhoada por estas idéias, queria fugir de si mesma, escapar à própria memória, esconder-se das reminiscências que lhe rugiam de dentro; mas todo o seu passado, em alvoroço, se enroscava por ela, a chupá-la para si, como um enorme polvo. Definitivamente era indispensável uma vingança! Era preciso inventar um cúmplice, um instrumento, uma arma, com que pudesse fulminar o infame!
Pobre visionária! Não calculava que o verdadeiro amor só sabe perdoar e não conhece os segredos do ódio e da maldade. Não sabia que o lábio que conserva o calor dos beijos que o aqueceram, não se pode converter rapidamente em lâmina fria de vingança. E tanto assim, que foi bastante lhe constar um mês depois desse desespero, o crime de que era suspeito o objeto do seu amor, para esquecer-se dos planos de vingança e só se lembrar de correr a prevenir Gregório e afastá-lo de qualquer perigo.
Foi nessa resolução que a vimos partir rapidamente da polícia para a casa de Clorinda. Sabia a viúva que era naquela tarde o casamento; Gregório estaria lá com certeza... Que lhe importava o desespero de ver a mulher que a preterira? que importava o espetáculo de uma felicidade que a humilhava e enlouquecia de dor? que lhe importava tudo isso, contanto que o seu Gregório não sofresse coisa alguma, contanto que ele fosse prevenido a tempo do grave perigo que o ameaçava?
O carro de Júlia parou à porta da noiva. A viúva conchegou para o colo as pontas do seu mantelete de seda preta, e subiu resolutamente as escadas da rival.
— A noiva?! perguntou ela à primeira pessoa que encontrou. Não se queria entender com Gregório, por um natural impulso de ressentimento.
A noiva estava no quarto e não podia receber ninguém.
— Mas é também para o interesse dela que lhe desejo falar. Trata-se de Gregório!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.