Por Aluísio Azevedo (1884)
E o Borges fumava afinal, interrompendo-se a cada momento para tossir sufocado, sem dar vencimento à saliva que lhe acudia.
— É horroroso! afirmava ele alguns minutos depois, segurando o charuto com ambas as mãos. — Faz-me vir água aos olhos!
— É delicioso! contestava a mulher ao lado, derreada para trás, aspirando voluptuosamente o fumo que o marido expelia da boca.
Borges, quando se levantou, sentia tonturas, vontade de vomitar e suores
frios.
— Continue, continue, que em breve se habituará! disse-lhe a mulher, enquanto ele se afastava para o quarto muito pálido, cheio de calafrios, agarrandose às cadeiras.
E desde então Filomena não consentiu que o marido se aproximasse dela, sem vir fumando.
— E promete que me deixa depois dar-lhe um beijinho na face?... perguntou ele na ocasião de submeter-se ao sacrifício do segundo charuto.
— Prometo que lhe consentirei beijar-me a testa — a testa! — no dia em que fumar o último charuto da caixa.
Filomena cumpriu a promessa; o Borges, depois de fumar cem charutos, beijou pela primeira vez a fronte da esposa.
Ela, porém, tornava-se mais exigente de dia para dia. O marido teve que pôr abaixo a sua barbinha à portuguesa e deixar crescer o bigode; teve que abandonar as suas queridas calças de brim mineiro, de que tanto gostava, teve que suportar cosméticos e brilhantinas, contra os quais protestava o seu delicado olfato de homem duro. O que, porém, mais lhe custou, o que atingiu as proporções de um verdadeiro sacrifício, foi ter de submeter-se a "usar pastinhas". Ele! o Borges! de pastinhas! — que não diriam os seus velhos e respeitáveis amigos do comércio?!...
Que não suporia o Barroso?!. Mas enfim... usou.
— Ah! o amor! o amor! gemia ele, quando no seu quarto entregava a cabeça aos ferros quentes do cabeleireiro. — Deus me dê paciência!
A dois passes, o criado observava-o em silêncio, com um ar de compaixão.
— A que bonito estado o reduziu aquela mulherzinha dos demônios. Quando eu digo as coisas!...
E de uma feita, vendo os esforços que o amo fazia por disfarçar o abdome com um espartilho, ficou tão indignado, que saiu do quarto, para não cometer alguma imprudência. Em baixo foi desabafar a sua indignação com o copeiro e o cozinheiro.
— Eu é que já não estou disposto, disse este, a suportar as impertinências da patroa! Tenho servido em casas muito mais ricas do que esta, e nunca sofri o que me fazem aqui. Todo o dia são reclamações e mais reclamações! Não há meio de agradar! Se faço assim, é mau; se não faço, é pior! E nada presta! e "tudo é uma porcaria!" Hoje é com a sopa, amanhã com o assado! Vá para o diabo um tal sistema!
— Além disso, acudiu o copeiro — não há horas certas para a comida! Uma vez querem o almoço às sete da manhã e já do dia seguinte só o reclamam às duas da tarde. O jantar, tanto pode ser às quatro, como às seis, como às oito e até como às onze da noite! E eu que me amole! Não! Assim também não se atura!
— E comigo, então?! perguntou a criada, que se havia metido já na conversa — comigo é que são elas! — Falte água no jarro, falte qualquer coisa, não corra eu ao primeiro chamado, para ver como fica a bicha! Outro dia, porque quebrei o braço de uma pestezinha de figura que ela tem sobre a cômoda, deu-me um tal pescoção que me fez cair de encontro à quina da secretária! Ainda estou com este quadril todo roxo! Bruta!
O jardineiro, que também se achegara do grupo, contou que, não havia uma semana, a senhora varrera com um pontapé os vasos da escada do jardim, só porque uma das begônias parecia mal tratada. — É uma mulherzinha de gênio!...
— E agora vão ver! tornou a criada. — Para ralhar e atirar com as coisas na gente, é isto que se sabe; entretanto, a casa pode cair aos pedaços que ela não se incomoda. Se o patrão que é aquele mesmo, não der as providências ninguém as dará!
— Não! Que ela tem pancada na bola, não resta dúvida!
E os comentários da criadagem foram-se desenvolvendo de tal forma, que chegaram aos ouvidos de Filomena.
— Tudo na rua! Já! disse esta, sem se alterar. — Não quero semelhante súcia nem mais um instante em casa! acrescentou ao marido. — Despede-os, e anuncia, quanto antes, que precisamos de nova gente! Preferem-se estrangeiros!
O Borges tratou de executar as ordens da mulher.
— Então, o senhor põe-me fora?... perguntou-lhe o criado, quando recebeu a intimação para sair.
— É verdade, Manuel, sustentou o Borges — tem paciência, mas não há outro remédio... Reconheço que és um bom rapaz, mas não podes continuar ao meu serviço. Vai-te e acredita que não é por meu gosto.
— Mas por que sou despedido? Há seis anos que estou ao serviço de vosmecê, e creio que até agora ainda não dei motivos para ser posto na rua como um cachorro.
— Tens razão! tens razão, mas, já te disse, filho! Não há outro remédio!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.